ABC | Volume 115, Nº2, Agosto 2020

Artigo Original Mattos BP et al. Morte súbita na cardiomiopatia hipertrófica Arq Bras Cardiol. 2020; 115(2):197-204 meio de medianas e intervalos interquartílicos (percentis 25 e 75) para distribuição não normal. A normalidade dos dados foi testada pelo teste Shapiro-Wilk. As variáveis categóricas foram descritas por meio de frequências absolutas e relativas. Variáveis contínuas com distribuição simétrica foram aferidas pelo teste t de Student para amostras independentes e análise de variâncias (ANOVA One-Way), variáveis categóricas pelos testes qui-quadrado e exato de Fisher e diferenças entre as categorias por meio dos resíduos ajustados. O coeficiente Kappa foi determinado para analisar a concordância entre as indicações para implante de CDI entre as diretrizes ACCF / AHA 2011 e ESC 2014. Os percentuais atingidos por cada um dos preditores que compõe o escore ESC HCM-Risk-SCD foram calculados pela média ponderada da variação de cada preditor na equação sobre a soma das variações desses preditores. A estimativa de sobrevida da amostra foi determinada por meio de curva de Kaplan-Meier. O tamanho da amostra foi estimado em 70 indivíduos para um valor esperado de Kappa = 0,3, se considerada a ocorrência de concordância entre as sistematizações, Kappa = 0, para poder de 90% e p < 0,05. Os dados foram processados no software SPSS versão 20.0 ( SPSS Inc ., Chicago, Illinois, EUA). O nível de significância adotado nas análises estatísticas foi de 5%. Resultados Características clínicas A população em estudo foi constituída por 90 pacientes consecutivos com CMH, com idade média de 62±12 anos, 85 (94%) ≥40 anos e 56 (62%) do sexo feminino. As características clínicas da amostra encontram-se na Tabela 1. No período médio de seguimento de 6±3 anos, 15 (17%) implantaram CDI para prevenção primária de MS. Dois (2%) pacientes apresentaram choque apropriado, 6 (7%) MS e 6 (7%) morte por outras causas (Tabela 2). A sobrevida livre de MS ou choque apropriado pelo CDI no período de seguimento médio de 5 anos foi de 93% e, em 10 anos, de 92%. A sobrevida livre de morte por todas as causas em 5 e 10 anos foi de 80%. Estratificação de risco para morte súbita pelo escore ESC HCM-risk SCD O escore ESC HCM-risk-SCD foi, em média, de 3,2±2,5% na amostra, estimado como baixo (<4%) em 67 (75%), médio (≥4% e <6%) em 11 (12%) e alto (>6%) em 12 (13%). A análise comparativa dos indicadores de MS valorizados nas duas normativas entre as três faixas de risco identificou que TVNS [3 (4%) vs. 6 (54%) vs. 8 (67%), p = 0,0001], síncope [6 (9%) vs. 3 (27%) vs. 7 (58%), p = 0,0001] e EPMVE mais elevada (17±3mm vs. 21±2mm vs. 21±8mm, p = 0,002) foram predominantes entre aqueles commaior predisposição. Os demais preditores não diferiram entre os grupos (Tabela 3). Choque apropriado pelo CDI ou MS foi semelhante entre os pacientes das faixas de baixo, médio e alto risco [6 (8,8%) vs. 2 (18,2%) vs. 0 (0%), p = 0,22]. A Tabela 4 apresenta os percentuais atingidos por cada um dos preditores que compõe o escore ESC HCM-Risk-SCD Tabela 1 – Características clínicas de 90 pacientes com cardiomiopatia hipertrófica Idade (anos) 62±12 Idade >40 anos (n,%) 85 (94%) Sexo feminino (n,%) 56 (62%) Classe funcional NYHA I/II (n,%) 75 (83%) III/IV (n,%) 15 (17%) Cardiopatia isquêmica (n,%) 11 (12%) Terapêutica Betabloqueadores (n,%) 70 (78%) Amiodarona (n,%) 20 (22%) Verapamil/diltiazem (n,%) 24 (27%) Ecocardiograma Diâmetro do AE (mm) 44±7 Diâmetro diastólico do VE (mm) 43±6 Diâmetro sistólico do VE (mm) 34±5 Espessura diastólica do septo (mm) 19±4 Espessura diastólica da parede posterior do VE (mm) 11±2 Fração de ejeção (%) 71±9 E/E´ 16±8 Gradiente na via de saída do VE em repouso (mmHg) 28±31 Gradiente na via de saída do VE sob Valsalva (mmHg) 36±38 Fatores de risco para MS História familiar de MS* 23 (26%) TVNS* 17 (19%) Síncope* 16 (18%) Resposta anormal da PA ao exercício* 9 (10%) EPMVE >30 mm* 1 (1%) Obstrução VSVE ≥30 mmHg † 44 (49%) Realce tardio à RM† 11 (12%) Aneurisma apical de VE † 0 Mutação maligna † 0 Número de fatores de risco 0 42 (47%) 1 32 (35%) ≥2 16 (18%) *Preditores independentes; † Fatores modificantes; NYHA: New York Heart Association; AE: átrio esquerdo; VE: ventrículo esquerdo; MS: morte súbita; TVNS: taquicardia ventricular não sustentada; EPMVE: espessura parietal máxima do ventrículo esquerdo; PA: pressão arterial; VSVE: via de saída do ventrículo esquerdo; RM: ressonância magnética. nas três categorias de risco para MS. Os fatores que mais contribuíram para o cálculo do escore nas faixas de baixo, médio e alto risco foram EPMVE, diâmetro do átrio esquerdo e idade. Gradiente na via de saída do VE, história familiar de MS, TVNS e síncope evidenciaram menor contribuição. 199

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