ABC | Volume 114, Nº2, Fevereiro 2020

Artigo Original Inanır et al. Preditores de arritmia em diabetes mellitus tipo 1 Arq Bras Cardiol. 2020; 114(2):275-280 Introdução A diabetes é um problema grave de saúde que está associado a várias comorbidades, tais como hipertensão, doenças cardiovasculares, síndrome metabólica e doenças cardiopulmonares. Durante períodos longos de tempo, é também um fator de risco subjacente importante para doença cardíaca coronária, insuficiência cardíaca, doença arterial periférica, fibrilação atrial, insuficiência renal crônica e acidente vascular cerebral. Também está associada com um risco aumentado de mortalidade. 1-4 O intervalo entre o começo do complexo QRS e o fim da onda T no eletrocardiograma (ECG) de superfície reflete a despolarização e a repolarização ventricular. Alterações elétricas cardíacas durante a repolarização ventricular podem resultar em arritmias letais. 5 O risco de morte súbita também aumenta em indivíduos com diabetes mellitus tipo 1 (DM1). 6 Nesse sentido, especula-se que a repolarização prolongada desempenhe um papel na morte súbita entre pacientes com DM1. 6 Neste estudo, visamos avaliar potenciais preditores de arritmia ventricular no ECG de superfície, a saber, os intervalos QT e QT corrigido (QTc), dispersão do intervalo QT (QTd), QTd corrigido (QTdc), os intervalos Tp-e, JT e JTc e as relações Tp-e/QT e Tp-e/QTc em pacientes com DM1. Métodos População do estudo Registros de ECG de 46 pacientes comDM1, os quais foram acompanhados na clínica ambulatorial de endocrinologia e doenças metabólicas do nosso hospital entre janeiro 2017 e maio 2018, foram analisados retrospectivamente e comparados com os resultados de ECG de 46 controles pareados por idade, sexo e massa corporal. DM1 foi definido de acordo com os critérios da American Diabetes Association. 7 Pacientes acima da idade de 45 anos não foram incluídos devido à probabilidade aumentada de aterosclerose e comorbidades desconhecidas que poderiam afetar o ECG. Foram excluídos sujeitos com histórico de doença arterial coronária, doença arterial periférica, insuficiência cardíaca, doença cardíaca estrutural, doença pulmonar crônica, insuficiência hepática ou renal, distúrbios da tireóide, malignidades, desequilíbrios eletrolíticos ou quaisquer doenças sistêmicas e sujeitos que estavam usando qualquer droga (e.g. betabloqueador, bloqueador dos canais de cálcio, antidepressivo, etc.) excetuando-se a insulina. Também foram excluídos os sujeitos com histórico de arritmias ventriculares ou fibrilação atrial e os sujeitos que apresentaram baixa voltagem do QRS, duração aumentada do QRS, desvio do eixo esquerdo, achados hipertróficos, achatamento inespecífico da onda T, anormalidades do átrio esquerdo ou depressão do segmento ST no ECG, devido aos prováveis efeitos destas alterações nos parâmetros de ECG medidos. Eletrocardiografia Foram obtidos ECG de 12 derivações após um período de repouso de 10 minutos, com 10 mm/mV de amplitude, a 25mm/s de velocidade, comas derivações nas posições padrão, em posição supina, usando uma máquina comercialmente disponível (Nihon Kohen Cardiofax ECG-1950 VET). Dependendo da frequência cardíaca, houve de quatro a seis batimentos por derivação. Os ECG foram medidos manualmente, utilizando uma lupa (TorQ 150 mm Digital Caliper LCD), por dois cardiologistas cegos que não tinham informações sobre os pacientes. Os intervalos QT foram medidos desde o início do complexo QRS até o fim da onda T, o qual foi definido como o seu retorno à linha de base do TP. Quando ondas U estavam presentes, o intervalo QT foi medido ao nadir da curva entre as ondas T e U. O intervalo R-R foi medido e utilizado para calcular a frequência cardíaca e corrigir o intervalo QT (QTc) com a fórmula de Bazett. 8 A dispersão do QT (QTd) foi determinada como a diferença entre o intervalo QT máximo e o intervalo QT mínimo, em derivações diferentes. O intervalo Tp-e foi definido do pico da onda T até o fimda onda T. As medições do intervalo Tp-e foram realizadas a partir das derivações precordiais. QTc e dispersão do QT corrigido (QTdc) foram calculados usando a fórmula de Bazett (QTc =QT/√RR). Intervalos JT forammedidos do fim do complexo QRS (ponto J) até o fim da onda T (intervalo JTend). JTc foi calculado usando a fórmula de Bazett (JTc = JT/√RR). Também foram calculadas as relações Tp-e/QT e Tp-e/QTc. Nenhumpaciente tevemenos de nove derivações mensuráveis. As variações intraobservadores e interobservadores para as medidas foram inferiores a 5%, e foram utilizadas para análise as médias dos valores definidos pelos cardiologistas. Análise estatística Realizaram-se as análises utilizando o programa SPSS 20.0 Statistical Package para Windows (SPSS Inc, Chicago, Illinois, EUA). As variáveis quantitativas são expressas como média ± desvio padrão (DP), e as variáveis qualitativas são expressas em números e porcentagens. Foi utilizado o teste Kolmogorov‑Smirnov para determinar se os dados estavam distribuídos normalmente. Os parâmetros de ECG estavam distribuídos normalmente, e duração da doença e níveis de HbA1c não estavam distribuídos normalmente. Avaliaram‑se as diferenças entre grupos independentes pelo teste t de Student para variáveis quantitativas que estavam distribuídos normalmente e pelo teste do qui quadrado para variáveis qualitativas. A análise de correlação de Spearman foi utilizada para examinar possíveis associações entre a duração de DM1, HbA1c e parâmetros de repolarização ventricular. Foram considerados estatisticamente significativos os valores de p inferiores a 0,05. Resultados A duração média de diabetes foi de 16,6 ± 7,1 anos, e o HbA1c médio foi 10,81%± 3,27% no grupo DM1. As médias de idade, pressão arterial (PA) sistólica, PA diastólica e índice de massa corporal (IMC) e as frequências de sexo, tabagismo e hiperlipidemia não foram significativamente diferentes entre os pacientes do estudo e os do grupo controle (Tabela 1). Em comparação com o grupo controle, frequência cardíaca, QTc, QTd, QTdc, os intervalos Tp-e e JTc e as relações Tp-e/QT e Tp-e/QTc foram significativamente mais altos nos pacientes com DM1 (Tabela 2). 276

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