ABC | Volume 114, Nº2, Fevereiro 2020
Artigo Original Lacerda et al. Mortalidade na resposta cardioinibitória à MSC Arq Bras Cardiol. 2020; 114(2):245-253 Introdução A hipersensibilidade do seio carotídeo (HSC) é caracterizada por assistolia de pelo menos 3 segundos, denominada resposta cardioinibitória, ou uma queda da pressão arterial (PA) sistólica de pelo menos 50 mmHg, denominada resposta vasodepressora, ambas provocadas por 5 a 10 segundos de MSC. 1,2 Estudos epidemiológicos realizados em pacientes com mais de 40 anos de idade demonstram que a prevalência da HSC na população é elevada, variando de 10% a 50%. 3,4 A HSC é ainda mais frequente nos homens e nos portadores de doença aterosclerótica. 3,4 AHSCnãoestá necessariamente relacionada amanifestações clínicas. 1 Este fato a diferencia da síncope do seio carotídeo (SSC), que se caracteriza por perda da consciência associada à resposta cardioinibitória ou vasodepressora. 1,5 A SSC é considerada uma das principais causas de síncope reflexa no idoso. 6 O tratamento de indivíduos com síncope e RCI à MSC tem como objetivo diminuir a recorrência de episódios sincopais, 1,2 mas também é justificado pelo temor de que um episódio prolongado de assistolia possa provocar a morte, diretamente ou como consequência de lesão cerebral, trauma grave ou arritmia ventricular pausa dependente. 5,7 Este estudo tem como principal objetivo determinar a mortalidade a longo prazo de uma coorte de portadores de RCI à MSC. Além disso, pretende-se comparar as mortalidades por todas as causas, por doenças do sistema circulatório, por doença isquêmica do coração e a mortalidade relacionada ao trauma desta coorte com a de uma coorte de pacientes sem RCI à MSC. Métodos Na fase inicial deste estudo, realizada no ano de 2006, 502 pacientes com idade igual ou superior a 50 anos foram selecionados aleatoriamente de uma amostra de 1.686 indivíduos encaminhados ao setor de eletrocardiografia de um hospital público de nível terciário. 8 Estes 502 indivíduos foram submetidos àMSC, sendo identificados 52 pacientes com RCI (assistolia ≥ 3 segundos) e 450 sem RCI. Em todos os casos, a MSC foi realizada na posição supina, inicialmente do lado direito e posteriormente do lado esquerdo durante 10 segundos por um único examinador com experiência na realização do procedimento. Mais detalhes sobre a seleção dos pacientes nesta fase do estudo e sobre as técnicas utilizadas para realização da MSC podem ser encontradas em um artigo prévio. 8 Na fase atual do estudo, os 502 pacientes submetidos à MSC em2006 foramdivididos emgrupos. Oprimeiro, composto pelos 52 portadores da RCI, e o segundo, composto pelos 450 pacientes sem RCI. A sobrevida de ambos os grupos foi avaliada por meio de seguimento ativo e, nos pacientes semeste acompanhamento, através de pesquisa nobancode dados do Sistema de Informações de Mortalidade da Secretaria de Saúde do Estado do Rio de Janeiro (SIMSES‑RJ). Para estabelecer sepacientes semseguimento ativo foram submetidos a implante de marca-passo durante o seguimento, obteve-se acesso à base de dados de autorizações de internação hospitalar (AIH) pagas pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Por esse sistema foram identificados os pacientes submetidos a implante de marca‑passos, cardiodesfibriladores e ressincronizadores pagos pelo SUS do estado do Rio de Janeiro. Em todos os casos, foi considerado como causa básica dos óbitos aquela descrita no banco de dados do SIM SES-RJ. Foram determinadas como mortes por doenças do sistema circulatório àquelas registradas no capítulo IX da Décima Revisão da Classificação Internacional de Doenças (CID-10), por doença isquêmica do coração os códigos I20–I25 daCID-10 e a mortalidade relacionada ao trauma os códigos S00–T14, T66–T98, V01-V29, V80–V94, V98–W19, W65–W74, Y85–Y89 da CID-10. Aspectos bioéticos Esta pesquisa foi aprovada pelo comitê de ética em pesquisa local (protocolo número: 2.383.341) de acordo com as normas da Comissão Nacional de Ética em Pesquisa – Resolução n o 466/2012. Análise estatística Os dados foram analisados com o auxílio do software R Core Team (2018). O teste de Shapiro-Wilk foi o empregado para verificar a normalidade dos dados. Variáveis contínuas de distribuição normal foram apresentadas sob as formas de média e desvio-padrão, sendo as diferenças entre os grupos comparadas pelo teste t de Student não pareado. Variáveis categóricas foram comparadas utilizando-se os testes do χ 2 ou o teste exato de Fisher bicaudal. As variáveis com p menor que 0,05 foram consideradas estatisticamente significativas. Construíram-se curvas de sobrevida pelo método de Kaplan-Meier. Na construção destas curvas considerou-se como data de início do seguimento o dia em que os pacientes foram submetidos à MSC e como data de fim o dia 31 de dezembro de 2017. Na comparação entre as curvas de sobrevida, utilizou-se o teste de Log-rank. A regressão de Cox foi utilizada para análise de uma eventual relação entre a RCI à MSC e a mortalidade total. Dois modelos foram criados. O primeiro ajustado por sexo, idade e presença de aterosclerose. O segundo com ajustes adicionais para história de tabagismo, hipertensão arterial, diabetes e dislipidemia. Resultados Características da população Na primeira fase do estudo, 52 portadores de RCI foram identificados emmeio aos 502 pacientes submetidos à MSC. 8 Sete destes 52 indivíduos apresentavam história de síncope e 40 eram usuários de medicação cronotrópica negativa. Os 52 pacientes foram aconselhados a evitar a estimulação inadvertida do seio carotídeo, e, em 12 deles, a dose de medicação cronotrópica negativa foi reduzida. Nesta primeira fase do estudo nenhum paciente foi submetido a implante de marca-passo definitivo. As características dos portadores e dos não portadores de RCI à MSC encontram-se descritas na Tabela 1. Houve evidente predomínio do sexo masculino entre os portadores de RCI. Neste grupo de pacientes a prevalência de cardiopatia estrutural e de doença aterosclerótica também foi significativamente maior do que nos pacientes sem RCI. 246
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