ABC | Volume 114, Nº2, Fevereiro 2020
Ponto de Vista Lopes et al. Tratamento da estenose aórtica do idoso no Brasil Arq Bras Cardiol. 2020; 114(2):313-318 53,5 (intervalo de incerteza de 95% [II95%]: 48,1 – 59,9) por 100.000 habitantes em 1990 para 64,4 (II95%: 57,2 – 72,5) por 100.000 habitantes em 2017, tanto para homens (18.5%) quanto para mulheres (24.2%). 5 O aumento da taxa absoluta de prevalência desta valvopatia foi ainda mais significativo, superando 114% (II95%: 105,5 – 14,3%) em 27 anos, e sugerindo um impacto progressivo e ainda crescente da estenose aórtica não reumática sobre os sistemas de saúde do país (Figura 1). 5,6 Em relação às causas de morte no Brasil, as doenças valvares não reumáticas subiram da 10ª. posição em 1990 para a 9ª. posição em 2017. Apesar da mortalidade padronizada por idade associada a estas valvopatias ter permanecido relativamente estável, um aumento considerável foi observado para a estenose aórtica não reumática. Já a taxa de mortalidade em todas as idades das valvopatias não reumáticas teve um significativo aumento de 87,5% (IC95%: 63,5 – 96,9%) (Figura 2), com grande contribuição da população com idade acima de 70 anos, especialmente em relação à estenose aórtica não reumática, que apresentou um aumento de 108% nesta faixa etária no período avaliado. 7 Tais tendências resultaram também no aumento da mortalidade proporcional associada a valvopatias degenerativas em ambos os sexos (Figura 3), sugerindo uma marcante contribuição das mudanças do perfil etário da população nas últimas décadas sobre a carga global de doenças valvares no Brasil, com notável impacto do envelhecimento populacional. 6 Adicionalmente, dados do GBD 2017 sugerem que o desenvolvimento socioeconômico seja também um determinante de alguns tipos de doenças valvares, notadamente a estenose aórtica não reumática: mudanças percentuais nas taxas de mortalidade padronizadas por idade pela doença entre 1990 e 2017 se correlacionaram significativamente com o índice de desenvolvimento sociodemográfico (IDS) dos estados brasileiros nestes anos (1990: r 2 = 0,17, p = 0,005; 2017: r 2 = 0,23, p = 0,003) (Figura 4), e padrão semelhante foi observado para a morbidade, com correlações significativas entre anos de vida ajustados por incapacidade ( disability-adjusted life years [DALY]) e IDS no período. 6 Tais tendências estão em acordo com as observadas para doenças cardiovasculares em geral no Brasil e em outros países de língua portuguesa. 8 Deve-se notar, entretanto, que dados epidemiológicos primários sobre a doença valvar aórtica degenerativa no Brasil são ainda escassos, e a maioria das estimativas derivam de modelagem estatística. Apesar do progressivo aumento da prevalência e da carga de doença associados às doenças valvares degenerativas no país, o número de internações anuais pelo SUS para tratamento de valvopatias permaneceu estável entre 2008 e 2018, com um aumento modesto das despesas da ordem de 40%, não descontada a inflação no período 9 (Tabela 1). No início do período avaliado nesta série temporal (2008) foi realizado o primeiro implante de TAVI no Brasil, e dados do registro nacional RIBAC, organizado pela SBHCI, computaram mais de 800 procedimentos, com taxas de sucesso e incidência de complicações superponíveis às da literatura. 10,11 Estima‑se um custo aproximado de R$ 82.826,38 por implante por via transfemoral, com a prótese correspondendo a cerca de 80% deste valor. 12 Embora a Conitec afirme que a estimativa de impacto orçamentário não tenha sido a principal determinante para o seu parecer desfavorável, esta comissão deu indícios contrários a tal assertiva, na medida em que insistiu emmanter sua estimativa em patamares completamente dissonantes da realidade assistencial do Brasil, principalmente no que concerne ao SUS. A nova estimativa de impacto orçamentário foi elaborada após consulta pública, mas colocada sem destaque no relatório definitivo (restrita a duas linhas da página 25), dificultando a visibilidade, enquanto a estimativa antiga, modificada pela própria Conitec após a consulta Figura 1 – Prevalência absoluta da estenose aórtica não reumática no Brasil de 1990 a 2017 (Global Burden of Disease 2017). 7 314
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