ABC | Volume 114, Nº2, Fevereiro 2020

Artigo de Revisão Romando et al. Alterações cardíacas na lipodistrofia familiar Arq Bras Cardiol. 2020; 114(2):305-312 mandibular e clavicular, associada à atrofia cutânea, atraso de dentição, fechamento de suturas cranianas e rigidez articular. Como característica comum das lipodistrofias, a DMA leva a complicações metabólicas como diabetes, resistência à insulina, hipertrigliceridemia e baixos níveis de HDL-colesterol. Lipodistrofia parcial familiar (LPF) A lipodistrofia parcial familiar é, em sua maioria, uma desordem autossômica dominante caracterizada por perda de gordura corporal dos membros superiores e inferiores, bem como do tronco. 5 Esses pacientes tem distribuição normal de gordura durante a infância e, durante a puberdade, começam a apresentar perda progressiva e variável de gordura subcutânea, tipicamente de extremidades, e em diferentes graus de abdome e tórax. Muitos pacientes, principalmente do sexo feminino, apresentam acúmulo de gordura em rosto, pescoço e em regiões perineal e intra-abdominal. (Figura 1) O excesso de acúmulo de gordura em região dorsocervical (corcova de búfalo), supraclavicular e submentual dá a estes pacientes um aspecto “cushingoide”. Em mulheres, pode haver masculinização, irregularidade menstrual e elevada prevalência de síndrome dos ovários policísticos. 5 Cinco genes podem estar envolvidos na fisiopatologia deste tipo de lipodistrofia, todos eles levando a perda de gordura subcutânea nas extremidades. A forma mais prevalente de lipodistrofia familiar é a autossômica dominante do tipo 2, a primeira lipodistrofia parcial familiar descrita mais formalmente: FPLD2 (do inglês, Familial Partial Lipodystrophy Type 2 ), denominada também como variante ou Síndrome de Dunnigan. Essa síndrome tem uma prevalência de 1 para cada 15 milhões de pessoas, afetando igualmente ambos os sexos. Os pacientes desenvolvem uma série de complicações metabólicas, como dislipidemia, hipertrigliceridemia e diabetes. Além disso, podem manifestar graus variados de miopatia, cardiomiopatia e outras anormalidades do sistema de condução, demonstrando assim ser uma distrofia multissistêmica. 6 FPLD2 caracteriza-se por uma mutação no braço longo do cromossomo 1, 1q21-22, envolvendo especificamente as lâminas A e C ou o gene LMNA. Comumente, a mutação causadora de FPLD2 afeta o exon 8 (substituição da arginina por um aminoácido neutro na posição 482 – R482W), porém, outras mutações no exon 8 e 11 (códon 644 – R644C) já foram descritas. 6,7 Foi demonstrado que a mutação LMNA R482W está mais associada a anormalidades musculares e cardíacas, como atrofia e distrofia muscular, hipertrofia cardíaca e aterosclerose avançada. 8 Porém as diferenças fenotípicas associadas a cada mutação específica determinante de FPLD não foram ainda bem elucidadas. Numerosas mutações espalhadas por toda a proteína LMNA dão origem a doenças comumente chamadas laminopatias que afetam tecidos musculares, cardíacos, adiposos, cartilaginosos e ósseos ou levam a síndromes de envelhecimento precoce. 9 As lâminas do tipo A incluem as lâminas A (LMNA) e C (LMNC) que surgem a partir de "splicing" alternativo do RNA do gene LMNA. Essas proteínas são expressas na maioria das células, onde se encontram no envelope nuclear e no nucleoplasma e têm papel relevante no direcionamento da transcrição da heterocromatina localizada na periferia Figura 1 – Características de pacientes com lipodistrofia parcial familiar. No Painel A é evidenciado acúmulo de gordura em rosto e pescoço e no Painel B em regiões perineal e intra-abdominal. 306

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