ABC | Volume 113, Nº4, Outubro 2019

Artigo Original Cruz et al. Valvoplastia mitral em pacientes pediátricos Arq Bras Cardiol. 2019; 113(4):748-756 Introdução A cardiopatia reumática crônica (CRC) consiste em uma complicação não supurativa da febre reumática (FR), com acometimento uni ou multivalvar, que pode vir a desencadear insuficiência cardíaca grave. 1 Estima-se que, a cada ano, existam 470.000 novos casos de FR e 233.000 mortes atribuídas à FR ou à CRC. 2 A regurgitação da valva mitral constitui o principal acometimento da CRC em crianças; 3,4 quando a doença reumática valvar moderada ou grave associa-se a um quadro de hipertensão pulmonar e disfunção do ventrículo esquerdo, o desenvolvimento de quadro de insuficiência cardíaca congestiva sugere a necessidade de intervenção cirúrgica. 3 A doença reumática crônica e suas complicações geraram, no Brasil, 6.648 internações e um custo de R$ 73.067.919,52 apenas no ano de 2017. 5 Problemas inerentes à troca de valva mitral incluem necessidade de anticoagulação em longo prazo, risco de sangramento, tromboembolismo, endocardite e ausência de potencial de crescimento da prótese, o que torna a técnica de plastia mitral (PM) superior à troca valvar em pacientes pediátricos. 6,7 No entanto, pacientes submetidos à valvoplastia obtiveram maior taxa de reoperação em curto prazo. 8 Oobjetivo deste trabalho foi identificar variáveis preditoras de desfecho desfavorável em crianças e adolescentes submetidos à valvoplastia mitral secundária à cardiopatia reumática. Métodos Foi realizado estudo retrospectivo, do tipo coorte. Os dados foram coletados por meio da revisão de registros médicos em prontuário (físico e eletrônico). A coleta foi realizada por quatro pesquisadores após treinamento Abstract Background: Mitral valve repair in paediatric patients with chronic rheumatic heart disease is superior to valve replacement and has been used with good results. Objective: To identify predictors of unfavourable outcomes in children and adolescents submitted to surgical mitral valvuloplasty secondary to rheumatic heart disease. Methods: Retrospective study of 54 patients under the age of 16 operated at a tertiary paediatric hospital between March 2011 and January 2017. The predictors of risk for unfavourable outcomes were: age, ejection fraction, degree of mitral insufficiency, degree of pulmonary hypertension, presence of tricuspid insufficiency, left chamber dilation, preoperative functional classification, duration of cardiopulmonary bypass, duration of anoxia, presence of atrial fibrillation, and duration of vasoactive drug use. The outcomes evaluated were: death, congestive heart failure, reoperation, residual mitral regurgitation, residual mitral stenosis, stroke, bleeding and valve replacement. For all analyzes a value of p < 0.05 was established as significant. Results: Of the patients evaluated, 29 (53.7%) were female, with an average of 10.5 ± 3.2 years. The functional classification of 13 patients (25%) was 4. There was no death in the sample studied. The average duration of extracorporeal circulation was 62.7±17.8 min, and anoxia 50 ± 15.7 min. The duration of use of vasoactive drug in the immediate postoperative period has an average of 1 day (interquartile interval 1–2 days). The logistic regression model was used to evaluate the predictive variables for each unfavourable outcome. The duration of use of vasoactive drug was the only independent predictor for the outcomes studied (p = 0.007). Residual mitral insufficiency was associated with reoperation (p = 0.044), whereas tricuspid insufficiency (p = 0.012) and pulmonary hypertension (p = 0.012) were associated with the presence of unfavourable outcomes. Conclusion: The duration of vasoactive drug use is an independent predictor for unfavourable outcomes in the immediate and late postoperative period, while residual mitral regurgitation was associated with reoperation, and both tricuspid regurgitation and pulmonary hypertension were associated with unfavourable outcomes. (Arq Bras Cardiol. 2019; 113(4):748-756) Keywords: Heart Defects,Congenital; Mitral Valve Insufficiency/surgery; Hypertension,Pulmonary; Reoperation; Tricuspid Valve Insufficiency/ surgery; Cardiopathy,Rheumatic. Full texts in English - http://www.arquivosonline.com.br padronizado. O Comitê de Ética em Pesquisa da Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública aprovou este estudo com CAAE de 64019316.0.0000.5544. População Foram estudados 54 pacientes portadores de insuficiência mitral de etiologia reumática que foram submetidos à correção cirúrgica pela técnica de PM, no período de março de 2011 até janeiro de 2017. Avaliação pré-operatória Os pacientes foram identificados clinicamente utilizando a classe funcional da New York Heart Association (NYHA). 9 Foram registradas todas as medicações que os pacientes estavam em uso contínuo há, pelo menos, um mês. As lesões valvares foram avaliadas por meio do ecocardiograma transtorácico pré-operatório, classificando as lesões em “ausente/discreta” ou “moderada/importante”. Pacientes que apresentaram outra causa de dano valvar no momento da correção cirúrgica da PM (endocardite infecciosa, lesões congênitas, pós-traumáticas, degenerativas ou lesões distróficas, cardiomiopatias ou doença inflamatória ou isquêmica) ou que foram submetidos à cirurgia de valva aórtica ou a outros procedimentos no mesmo tempo cirúrgico da PM ou PM prévia e não documentada, ou ainda pacientes que não obtiveram 60 dias de pós-operatório até janeiro de 2017, foram excluídos do estudo. Técnica cirúrgica A técnica de cirurgia reconstrutora da valva foi a PM, descrita por Carpentier, 10 que inclui a anuloplastia e a comissurotomia. Os pacientes estudados foramoperados preferencialmente pela mesma equipe médica. Os dados intraoperatórios coletados foram: técnica cirúrgica utilizada, duração da circulação 749

RkJQdWJsaXNoZXIy MjM4Mjg=