ABC | Volume 113, Nº4, Outubro 2019
Artigo Original Rodrigues et al. Deformação miocárdica pelo speckle tracking Arq Bras Cardiol. 2019; 113(4):737-745 As manifestações cardiovasculares da infecção pelo HIV foram alteradas pela introdução da TARV, que modificou significativamente o curso da infecção pelo HIV, diminuindo a mortalidade e melhorando a qualidade de vida dos pacientes infectados. Por outro lado, dados de vários estudos levantaram a preocupação de que a TARV estaria associada a um aumento das doenças arterial periférica e coronariana. As manifestações clínicas associadas à TARV são frequentes e devem ser acompanhadas pelas equipes multidisciplinares de atendimento a esses pacientes. 14 O atual estudo sugere que a disfunção ventricular esquerda subclínica deve ser investigada sempre que possível. O speckle tracking é uma técnica ecocardiográfica avançada que apresenta uma sensibilidade muito maior do que a ecocardiografia transtorácicaemdetectar anormalidades funcionais, principalmente variáveis de deformação cardíaca que avaliam a eficiência mecânica do ventrículo esquerdo, identificando anormalidades mais precocemente do que outras técnicas de imagem. Sims et al., 15 utilizando o ecocardiograma transtorácico, avaliaram 28 pacientes jovens (idade entre sete e vinte e nove anos) infectados pelo HIV, comparados com 28 controles, não tendo sido evidenciadas anormalidades dos parâmetros sistólicos e diastólicos. Porém, ao se estudar a deformação cardíaca, foi observada queda do percentual de deformação longitudinal entre os pacientes em comparação com o grupo controle. Os pacientes infectados pelo HIV, independentemente da TARV, apresentaram menor taxa de deformação longitudinal em relação ao grupo controle. Vários estudos identificaram elevação dos níveis de triglicerídeos nos pacientes infectados pelo HIV em uso de inibidores de protease, 16-18 uma vez que esses medicamentos estimulam a síntese de triglicerídeos hepáticos. 19 Em nosso estudo, o grupo de pacientes em uso de inibidor de protease foi o que apresentou as maiores taxas séricas de triglicerídeos. Trabalhos na literatura mostram a importância de se acompanhar o perfil lipídico de pacientes infectados pelo HIV em uso de TARV, principalmente quando se está em uso de inibidor de protease. 20 No atual estudo, observou-se que os grupos de pacientes infectados pelo HIV, independentemente do tipo de TARV, apresentaram percentual de deformação longitudinal global inferior aos valores obtidos em controles saudáveis. Barbaro et al.³ evidenciaram em seu estudo a necessidade de acompanhar esse grupo de pacientes, buscando identificar indivíduos com maior risco cardiovascular. Trabalhos anteriores tiveram como objetivo avaliar, na população de indivíduos infectados pelo HIV, a função sistólica e diastólica do ventrículo esquerdo, utilizando a ecocardiografia unidimensional e bidimensional e o Doppler espectral. Hsue et al. 21 e Reinsch et al. 22 estudaram as funções diastólica e sistólica do ventrículo esquerdo usando o Doppler tecidual, modalidade esta que usa filtros para velocidades altas (sangue) obtendo no anel mitral septal e lateral as velocidades miocárdicas sistólica e diastólica. Lang et al. 12 focaram suas pesquisas no completo estudo da função diastólica do VE, seguindo um organograma de avaliação escalonado, conforme as diretrizes da Sociedade Americana de Ecocardiografia. 12 Outros buscaram identificar alterações anatômicas e funcionais em pacientes infectados em uso de TARV. 23-28 Os trabalhos mais recentes utilizam o estudo do percentual de deformação miocárdica ( strain ) e da taxa de deformação miocárdica ( strain rate ) através da técnica de speckle tracking para detectar disfunção ventricular subclínica nos pacientes infectados pelo HIV em uso de TARV. 12,29,30 Sabemos que a deformação da fibra cardíaca em sentido longitudinal pode ser usada para estudar o comportamento das fibras miocárdicas que estão dispostas na região subendocárdica, pois sabemos que 77% dessas fibras estão dispostas em sentido longitudinal, e isso confere um importante papel do speckle tracking no estudo da doença isquêmica, uma vez que a isquemia se inicia na região subendocárdica. Foram evidenciadas, neste estudo, percentuais mais baixos de deformação longitudinal nos indivíduos infectados pelo HIV em comparação com os controles saudáveis. Não houve diferenças entre os percentuais de deformação longitudinal obtidos dos grupos de pacientes infectados pelo HIV em uso ou não de TARV. A estimativa acurada e reprodutível do dano miocárdico em pacientes com infecção pelo HIV e em uso de TARV tem sido considerada cada vez mais importante. O estudo CHAART-2, que teve como objetivo identificar os efeitos cardiovasculares em longo prazo de crianças infectadas pelo HIV em uso de TARV, evidenciou que a estrutura e função cardíacas eram superiores em crianças infectadas pelo HIV expostas a TARV no período perinatal, em comparação com crianças na era pré-TARV, 31 o que demonstra a importância do tratamento precoce na prevenção do dano cardíaco. Além disso, reforça a necessidade da monitoração da função cardíaca em pacientes infectados pelo HIV em uso de TARV para identificar a lesão miocárdica precoce, diminuindo as complicações cardiovasculares no longo prazo. Vários trabalhos publicados demonstraram a relação SIDA com doenças cardiovasculares, sendo o derrame pericárdico e a pericardite as mais conhecidas. 32-39 Okoshi e Montenegro 40 estudaram a incidência e a etiologia das lesões cardíacas em pacientes com SIDA através de um estudo retrospectivo de 72 necrópsias. Em nenhum paciente o óbito foi considerado como consequência de lesão cardíaca, porém, alterações macro e microscópicas foram encontradas em 90% dos casos. Vários estudos relatam que a prevalência de anormalidades cardíacas pode estar subestimada. Entre 50 e 70%dos infectados assintomáticos apresentam miocardite linfocítica intersticial. 41,42 As alterações miocárdicas parecem estar associadas a casos mais graves de imunossupressão e contagens baixas de TCD4. 43 Limitações As limitações do estudo são o tamanho limitado da amostra e a faixa etária relativamente ampla dos participantes infectados pelo HIV. Não foi realizada a análise do efeito do tempo de duração da doença, nem do tempo de duração da TARV. A ausência de documentação de doença arterial coronária pelo uso de angiotomografia computadorizada não permitiu avaliar a influência da TARV no desenvolvimento de DAC. Nos dias 743
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