ABC | Volume 113, Nº4, Outubro 2019

Ponto de Vista Godoy et al. Residência em cardiologia no Brasil Arq Bras Cardiol. 2019; 113(4):768-774 nuclear, etc.), geralmente são necessários mais um ou dois anos para cada ramo. O mesmo tempo é normalmente necessário para algumas subespecialidades, tais como coronariopatia aguda, e dois anos são mandatórios para cardiologia Intervencionista. Para Insuficiência Cardíaca e Transplante, é necessário um ano a mais. Em resumo, para se tornar um cardiologista no Brasil, é necessário completar de quatro (cardiologia clínica) a seis (cardiologia clínica com treinamento na subespecialidade) anos de pós-graduação em medicina. Vale ressaltar que a Comissão Nacional de Residência Médica (CNRM) supervisiona a residência (conforme será discutido adiante) e alguns (mas não todos) os programas de treinamento das subespecialidades. Ao comparar o período total de ensino e de treinamento entre países desenvolvidos e em desenvolvimento, são observadas diferenças importantes (Tabela 1). Dez anos são necessários para se tornar um cardiologista (sem subespecialidade) no Brasil, o que é semelhante à maioria dos países da América Latina. 6-9 Nos EUA, a residência em clínica médica e a residência em cardiologia dura geralmente três anos cada. Somando isso ao período de graduação em Medicina nos EUA (oito anos), o tempo total de educação pós‑ensino médio para se tornar um cardiologista nos EUA é de 14 anos. Na Alemanha, são exigidos três anos de residência em clínica médica e mais três anos de residência em cardiologia (12 anos no total). Também existem diferenças nos turnos de trabalho entre os países, o que pode influenciar o tempo real em treinamento. Por exemplo, nos EUA e no Canadá, o residente tem direito a um dia inteiro de folga pós‑plantão, enquanto, no Brasil, o residente tem direito e a seis horas de descanso após um turno noturno de trabalho. Após a conclusão de todo o programa educacional sem interrupções, tais como alistamento militar, ano sabático ou outros, um médico se tornará um cardiologista aos 28 anos no Brasil, 33 nos EUA e 31 na Alemanha. 10,11 Outro exemplo de um longo processo de treinamento pode ser observado no Reino Unido. Após finalizar a graduação em medicina (geralmente cinco anos), o estudante deve completar dois anos de um programa básico/geral, chamado de Foundation Programm , seguido de treinamento em uma especialidade, o Core Medical Training (dois anos) ou Acute Care Common Stem (três anos). Após esses programas, o residente pode então passar pelo treinamento na especialidade de cardiologia, o qual consiste em três anos de cardiologia geral ( Core Cardiology Training ) e dois anos de treinamento em subespecialidades ( specialist area modules ). No Core Cardiology Training, a ênfase é dada aos cuidados agudos e a técnicas básicas de procedimentos. Nos dois anos seguintes, a maior parte do tempo é destinada a uma ou mais dessas principais áreas: cardiologia intervencionista, eletrofisiologia, métodos de imagns não-invasivos, doença cardíaca congênita no adulto, e insuficiência cardíaca. Somando-se todos esses anos, são necessários 14-15 anos para se tornar um cardiologista no Reino Unido. Vale observar que, após essas etapas, nem todos os cardiologistas terão o mesmo conhecimento em uma determinada área, uma vez que o currículo dos últimos anos é flexível ao interesse individual. Mais anos podem ser necessários àqueles que realizam treinamento em tempo parcial, que buscam dupla certificação em cardiologia e em clínica médica, àqueles que realizam pesquisa fora do programa de residência (programa de pesquisa em outra instituição por exemplo), ou que realizam treinamento adicional em subespecialidades da cardiologia. 12,13 Assim, a duração do treinamento para se tornar um cardiologista não é uniforme entre os países, e não existe um padrão definitivo da prática. Isso depende não somente da quantidade total de conhecimento e habilidades práticas que o profissional necessita adquirir, mas também das condições sociais e econômicas do país, uma vez que um maior tempo em treinamento requer mais gastos com educação. Como uma orientação geral, o American College of Cardiology (ACC) recomenda um período de três anos para treinamento em cardiologia geral e a European Society of Cardiology recomenda quatro anos, apesar de importantes variações entre os países europeus. 14,15 Utilizando-se apenas uma abordagem comparativa, não é possível afirmar, com precisão, que a mesma duração de treinamento nesses países seria aplicável à realidade brasileira. É possível que residentes médicos no Brasil passem mais tempo em serviço durante os dois anos de residência e cuidem de um número maior de pacientes. Por outro lado, o conhecimento em cardiologia aumentou drasticamente nas últimas décadas 16 e é pouco provável que um residente em cardiologia no Brasil domine todo o conhecimento e habilidades necessárias em um período de Tabela 1 – Duração dos programas de residência em cardiologia nos países selecionados 10-12,21,25,33,34 País Continente Graduação (anos) Duração do treinamento prévio (anos) (por exemplo: residência em clínica médica) Residência em cardiologia (anos) Total (anos) Alemanha Europa 6 3 3 12 Austrália Oceania 6 4 3 13 Brasil América do Sul 6 2 2 10 Canadá América do Norte 7 ou 8 3 3 13 ou 14 Espanha Europa 6 1 4 11 EUA América do Norte 8 3 3 14 França Europa 6 1 3 10 Reino Unido Europa 5 4 ou 5 5 14 ou 15 Dados obtidos da legislação ou decreto oficial sobre residência médica e/ou Sociedade Nacional de Cardiologia de cada país 769

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