ABC | Volume 113, Nº4, Outubro 2019
Ponto de Vista Residência em Cardiologia no Brasil e em Países Desenvolvidos: Ideias para Melhoria Cardiology Training in Brazil and Developed Countries: Some Ideas for Improvement Lucas Colombo Godoy, 1,2 Michael E. Farkouh, 2 Isabela C. K. Abud Manta, 1 Talia F. Dalçóquio, 1 Remo Holanda de Mendonça Furtado, 1,3 Eric H. C. Yu, 2 Carlos Gun, 4 José Carlos Nicolau 1 Instituto do Coração (InCor), Hospital das Clínicas HCFMUSP, Faculdade de Medicina, Universidade de São Paulo, 1 São Paulo, SP – Brasil Peter Munk Cardiac Centre and Heart and Stroke Richard Lewar Centre, University of Toronto, 2 Toronto, ON – Canadá Brigham and Women´s Hospital, Harvard Medical School, 3 Boston, MA – EUA Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia, 4 São Paulo, SP – Brasil Correspondência: José Carlos Nicolau • Unidade de Coronariopatia Aguda (UCCA) do Instituto do Coração do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Av. Dr. Enéas de Carvalho Aguiar, 44, 2 andar, sala 12. CEP 05403-900, São Paulo, SP – Brasil E-mail: corjnicolau@incor.usp.br Artigo recebido em 15/02/2019, revisado em 07/05/2019, aceito em 04/06/2019 Palavras-chave Cardiologia; Educação Médica; Acreditação de Programas; Internato e Residência; Brasil. DOI: 10.5935/abc.20190212 Resumo Existe enorme variação nos programas de residência em cardiologia no mundo. Em países em desenvolvimento, tal como o Brasil, encontrar o equilíbrio correto entremelhorias nos programas de residência e condições socioeconômicas do país pode ser uma tarefa difícil. Aumentar a duração dos programas ou o número de estágios obrigatórios, por exemplo, pode ter um custo elevado e não ter um impacto imediato na melhoria do cuidado do paciente ou na saúde pública. Neste texto, comparamos o sistema de residência em cardiologia brasileiro com outras propostas implementadas em países desenvolvidos da América doNorte e Europa, comobjetivo de indicar questões para discussões futuras. Apresentamos fatores como rodízios por estágios e competências, duração e distribuição dos programas pelos países. Onúmero de alunos no primeirs ano de Residência em cardiologia por número de habitantes é similar entre o Brasil e os Estados Unidos (0,24médicos residentes/100mil habitantes no Brasil e 0,26 médicos residentes/100 mil habitantes nos EUA). Esses números devem ser analisados considerando a desigualdade na distribuição dos programas pelo país, uma vez que a maioria dos centros localiza-se nas regiões sul e sudeste do país. A existência de mais programas de residência em áreas distantes melhoraria o cuidado cardiovascular nessas áreas. O período de treinamento é menor no Brasil (dois anos) em comparação a países desenvolvidos (>3 anos). Os programas de residência no Brasil dão menos ênfase em pesquisa científica e métodos diagnósticos. O estabelecimento de exigências mínimas que sejam padronizadas a todos os países facilitaria o desenvolvimento de oportunidades de aprendizagem e mesmo o intercâmbio de profissionais pelo mundo. Introdução O Brasil é o quinto maior país do mundo em território e em população, e a décima maior economia do mundo. 1,2 Assim como em muitos outros países desenvolvidos e em desenvolvimento, no Brasil, as doenças cardiovasculares são uma grande preocupação, e a principal causa de morte. 3 Por outro lado, muitos cidadãos brasileiros não recebem tratamento cardiovascular adequado. 4 A melhoria do treinamento dos profissionais de saúde poderia contribuir na mudança desse cenário; contudo, identificar quais modificações deveriam ser feitas nos programas de treinamento em cardiologia não é uma tarefa fácil. Traçar paralelos entre programas de residência em cardiologia no Brasil e programas de outros países poderia ajudar a identificar possíveis alvos para a melhoria desses programas. No entanto, há poucas publicações disponíveis com foco em programas de treinamento em cardiologia. 5 Os objetivos principais deste estudo foram 1) descrever um ponto de vista, não sistemático, comparando o sistema de treinamento no Brasil com o de alguns países europeus e da América do Norte; 2) apresentar, brevemente, o programa de treinamento em cardiologia realizado no Brasil a leitores internacionais que possivelmente não estejam familiarizados com ele. Realizou‑se uma busca na base de dados do PubMed por artigos publicados até fevereiro de 2018, utilizando‑se as seguintes palavras-chaves: “ Cardiology Residency ” e “ Cardiology Training ” nos países pré-determinados, escritos nos idiomas inglês, espanhol ou português. Documentos oficiais (posicionamentos, documentos legais) de sociedades de cardiologia ou de organizações públicas pertinentes a este tópico também foram revisados e citados. A escolha dos países foi feita com base na disponibilidade de informações na literatura. Dada a natureza do presente artigo, e a escassez de dados publicados, opiniões de autores também foram incluídas quando apropriado. Duração do treinamento Para se tornar um cardiologista no Brasil, o primeiro passo é se formar em Medicina. Após terminar o ensino médio, o estudante deve prestar um vestibular muito concorrido para ingressar em um curso de graduação em medicina, o qual tem duração de seis anos. O passo seguinte é a residência em Clínica Médica e, finalmente, a residência em cardiologia (chamado de fellowship em alguns países, como nos EUA), que dura dois anos. Para se tornar um especialista em uma área específica da cardiologia, é necessário mais treinamento. Por exemplo, para treinamento em técnicas de imagens (ecocardiografia, ressonância magnética cardíaca, medicina 768
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