ABC | Volume 112, Nº4, Abril 2019
Posicionamento da FSCLP Oliveira et al 2019: Recomendações para a redução do consumo de tabaco nos países de Língua Portuguesa Arq Bras Cardiol. 2019; 112(4):477-486 Fatores associados com o consumo de tabaco O consumo de tabaco deve ser considerado uma doença crônica que pode se iniciar na infância e adolescência, dado que cerca de 80% dos indivíduos que experimentam tabaco o fazem em idade inferior a 18 anos. Além disso, há uma relação direta entre o início do tabagismo e a manutenção do hábito na vida adulta . Desse modo, a prevenção primordial torna‑se fundamental no controle do tabagismo. Entende‑se por prevenção primordial do tabagismo a prevenção da iniciação do fumo entre crianças e adolescentes. Crianças que usam tabaco por 12meses inalamamesma quantidade de nicotina por cigarro que os adultos e experimentam os sintomas de dependência e abstinência, que costumam se desenvolver muito rapidamente nesta faixa etária. Uma maneira de abordar a prevenção primordial é por grupos etários, observando-se para cada grupo cinco itens principais (“5 As”): auscultar , no sentido de indagar, perguntar; aconselhar a parar de fumar; avaliar a motivação e os sintomas da dependência do tabaco; ajudar na tentativa de parar de fumar; e agendar visitas periódicas. 19-21 A Organização Mundial da Saúde lançou um pacote denominado MPOWER , de impacto comprovado na redução do consumo de produtos do tabaco. 19-21 M onitoring : monitoramento da epidemia. P rotecting : proteção da população contra a fumaça do tabaco. O ffering : oferecimento de ajuda para cessação do fumo. W arning : advertência sobre os perigos do tabaco. E nforcing : reforço do cumprimento da proibição da publicidade, promoção e patrocínio. R aising : aumento de impostos sobre os produtos do tabaco. Essas medidas têm impacto na interrupção do tabagismo a nível populacional, porém a grande maioria dos tabagistas necessita de tratamento individualizado com profissionais de saúde, combinando abordagem comportamental e, muitas vezes, uso demedicamentos para abandono definitivo do fumo. Novas formas de tabagismo Novas formas de tabagismo apareceram na última década, divulgadas como de risco reduzido ou ausente, como os cigarros eletrônicos ( JUUL ), populares entre jovens e adultos, que funcionam como vaporizadores de nicotina encapsulada, flavorizantes e outros conteúdos em pequenos cartuchos substituíveis denominados pod mods . Esses dispositivos, já em sua terceira geração, associam nicotina a outras substâncias vaporizadoras ou fornecedoras de sabores, com efeitos ainda mal conhecidos, mas potencialmente indutores de risco para a saúde. 13,14 Fruto de bem elaboradas campanhas de marketing promotoras da introdução das novas formas de uso do tabaco, uma discussão intensa existe atualmente entre a sociedade leiga e a comunidade científica sobre o risco inerente ao uso de cigarros eletrônicos como causa de DCVs e de neoplasias. Apesar da evidência epidemiológica atual não ser extensa e destas novas formas de tabagismo parecerem ter um risco inferior à forma clássica de tabagismo, há atualmente evidência suficiente para afirmar que o seu consumo agudo causa disfunção endotelial, dano ao DNA, estresse oxidativo e aumento temporário da frequência cardíaca. Quanto ao seu uso crônico, parece aumentar o risco de infarto do miocárdio, AVEs e neoplasias da cavidade oral e do esôfago. 3,13 Baseado no aparente risco inferior do uso das novas formas de tabagismo, os cigarros eletrônicos têm sido promovidos como método de cessação do tabagismo, o que carece de comprovação. Em 60% dos casos, os fumantes usam tanto a forma clássica de tabagismo quanto os cigarros eletrônicos, mantendo o elevado risco prévio. Emmuitos casos, os cigarros eletrônicos são adotados por curto tempo, após o qual o fumante retoma completamente o seu hábito anterior. 13,14 Adicionalmente, os cigarros eletrônicos são considerados pela comunidade científica como preocupantes por propiciarem a dependência à nicotina nos jovens, tornando-se uma porta de entrada para o tabagismo clássico. No momento atual, mesmo reconhecendo que as evidências científicas disponíveis não sejam robustas, recomendamos que qualquer forma de tabagismo seja interrompida ou não seja iniciada, nomeadamente o uso de tabaco oral (tabaco mastigável, snus, rapé, tabaco solúvel, vaping/JUUL) e cigarros, charutos, cigarrilhas, cachimbos ou narguilé. Também é de fundamental importância combater o fumo passivo, que expõe aos mesmos riscos do tabagismo, aumentando-os em 20-30%. 13,14 Abordagem do fumante A maioria dos fumantes tem a percepção e reconhece que o tabaco faz mal à sua saúde. No entanto, isso não basta para o abandono do hábito de fumar. Da mesma forma, os médicos reconhecem os malefícios do tabagismo, mas na prática diária, tendem a priorizar o tratamento da doença e Tabela 3 – Benefícios da cessação do tabagismo a curto, médio e longo prazo • Após 2 minutos: PA e FC voltam ao normal. • Após 3 semanas: respiração se torna mais fácil e a circulação apresenta melhora. • Após 1 ano: risco de morte por IAM reduz à metade, igualando-se ao risco entre não fumantes após 15 anos. • Em 2-5 anos: risco de AVE reduz em mais de 90% e se aproxima ao risco de quem nunca fumou. • Após 10 anos de abstinência: risco de câncer é cerca de metade do risco de um fumante. • Entre 5-10 anos o risco de IAM se iguala ao de não fumantes. • Após 20 anos: risco de câncer de pulmão é igual ao de não fumantes. IAM: infarto agudo do miocárdio; AVE: acidente vascular encefálico; PA: pressão arterial; FC: frequência cardíaca. Adaptado da referência. 18 480
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