ABC | Volume 112, Nº4, Abril 2019

Posicionamento da FSCLP Oliveira et al 2019: Recomendações para a redução do consumo de tabaco nos países de Língua Portuguesa Arq Bras Cardiol. 2019; 112(4):477-486 usuários de tabaco mastigável, rapé, cigarros manufaturados e cigarros enrolados manualmente) diminuiu para 33,6% em homens e 7,4% nas mulheres, com diferentes prevalências por sexo e região do país. 7 O Brasil é o país que lidera o controle do tabagismo, com o terceiro maior declínio em prevalência de fumantes diários desde 1990: 57% e 56% para homens e mulheres, respectivamente. Isto tem sido atribuído a robusta política pública, na qual foram associados anúncios sobre os danos à saúde causados pelo tabaco, restrições ao consumo e aumento de impostos para esses produtos, entre outras medidas. 8 Essas medidas são sintônicas com as recomendações prescritas pela Convenção-Quadro para Controle do Tabaco (CQCT) da Organização Mundial da Saúde, 9 como a proibição dos termos ultra-light, low tar , suaves, fracos, leves ou qualquer outro termo que induza à crença de que cigarros não sejam tão nocivos. Os PLPs aderiram à CQCT em diferentes épocas, como apresentado abaixo na seção “Legislação”. O percentual de mortes atribuídas ao consumo de tabaco em 195 países aumentou de 7,28 (7,01-7,56) milhões em 2007 para 8,10 (7,79-8,42) milhões em 2017, um incremento de 11,3% (9,1-13,4%) de acordo com o estudo Global Burden of Disease (GBD). 1 O mesmo foi observado ao se analisar isoladamente os anos de vida ajustados por incapacidade ( disability-adjusted life‑years , DALYs), de 199,80 (188,0-211,72) milhões em 2007 para 213,39 (201,16-226,67) milhões em 2017, um incremento de 6,8% (4,6-9,0%). Em relação às doenças isquêmicas do coração, observou-se uma tendência semelhante em relação ao número de mortes, de 1,76 (1,68‑1,83) milhões em 2007 para 1,93 (1,83-2,02) milhões em 2017, um aumento de 7,8% (4,6‑11,1%), enquanto que os DALYs aumentaram de 44,30 (42,42-46,19) milhões em 2007 para 47,38 (45,12‑49,71) milhões em 2017, um aumento de 5,6% (2,4‑9,0%). Incrementos semelhantes foram notados em relação às mortes por acidentes vasculares encefálicos (AVE) isquêmicos, de 351,19 (326,63-379,84) mil em 2007 para 399,35 (369,15‑433,38) mil em 2017, um incremento de 13,4% (8,6 -17,8%), com aumento nos DALYs de 8,74 (7,96‑9,54) milhões em 2007 para 10,41 (9,42-11,50) milhões em 2017, um aumento de 19,3% (14,7-23,8%). 1 É importante ressaltar que aproximadamente 80% dos fumantes se encontram em países de baixa e média renda, 10 que representam a maior parte dos habitantes dos PLPs, nos quais não foram observados declínios no consumo de tabaco como relatado nos países de alta renda. 4 Já existe evidência robusta do custo-efetividade e das oportunidades de tratar o tabagismo na atenção primária, por sua abrangência e relação médico-paciente estreita e continuada. 11 Considerando-seapenas os fatores de riscovalorizados naclínica tradicional, o tabagismo é o únicoque poderia ser completamente abolido na prevenção das doenças cardiovasculares (DCVs). Entretanto, ampliandoo espectro e incluindo alterações ecológicas e comportamentais introduzidas pelo próprio homem, existem muitos outros fatores passíveis de controle. Em um ambiente social repleto de circunstâncias estressoras e frustrantes pela desigualdade, com conflitos de interesses e alimentado pela propaganda, a adesão ao consumo de substâncias psicoativas como o tabaco e o álcool é bem‑sucedida pelo fato destas substâncias atuarem no sistema límbico (circuito de recompensa) e acarretarem dependência química e psicológica. Esse sistema faz parte do processo evolutivo de adaptação que promoveu a preservação das espécies e é um dos determinantes das repetidas recaídas observadas quando o paciente pretende deixar de fumar. 12 É sabido que a cessação do fumo é a medida mais eficaz na prevenção das doenças relacionadas ao tabaco. No entanto, o tabagismo ativo e passivo não costuma receber nas consultas médicas, seja em nível ambulatorial ou durante internações, a atenção necessária para que se inicie o processo de abandono da causa evitável mais frequente das DCVs e de muitos tipos de câncer. 11 Desse modo, o objetivo desse artigo é proporcionar um instrumento que possa ser empregado pelos profissionais de saúde em sua prática diária para o combate ao tabagismo. Tabela 1 – Prevalências padronizadas por sexo em 2015 e diferença anualizada por sexo de 1990 a 2015 de acordo com o Indice Sociodemográfico ( Sociodemographic Index , SDI) Nível SDI Prevalências Padronizadas Mulheres 2015 Prevalências Padronizadas Homens 2015 Taxa de Mudança Anualizada Mulheres 1990-2015 Taxa de Mudança Anualizada Homens 1990-2015 Global 5,4 (5,1-5,7) 25,0 (24,2-25,7) –1,7 (–2,0/ –1·4) –1,3 (–1,5/ –1,2) Angola Baixo-Intermediário 1,6 (0,9-2,6) 14,2 (12,5-16,1) –0,7 (–3,5/2·2) 0,5 (–0,2 /1,3) Brasil Intermediário 8,2 (7,5-9,0) 12,6 (11,8-13,5) –3,3 (–3,9/–2,7) –3,3 (–3,8/–2,9) Cabo Verde Baixo-Intermediário 2,5 (1,7-3,6) 9,8 (8,0 -11,7) –0,9 (–3,1/1,3) –0,6 (–1,6/0,6) Guiné Equatorial Baixo 1,4 (0,9-2,1) 6,9 (5,6-8·4) –1,0 (–3,5/1,3) –0,6 (–1,7/-0,5) Guiné-Bissau Baixo 1,0 (0,6-1,5) 11,4 (9,4 -13·5) –0,9 (–3,4 /1,6) –0,3 (–1,4/-0,8) Moçambique Baixo 3,1 (2,5-3,8) 17,2 (14,5-20,1) –1,5 (–2,7/–0,2) –0·5 (–1,5/-0,5) Portugal Alto-Intermediário 12,7 (11,0 -14,8) 24,9 (22,7-27,2) 1,3 (0,4 /2,1) –1,0 (–1,4/–0,6) São Tomé e Príncipe Baixo-Intermediário 1,0 (0,7-1,5) 6,2 (5,0 -7·3) –1,0 (–3,2/1,3) –0,2 (–1,3/0,9) Timor-Leste Baixo-Intermediário 12,4 (9,8-15,1) 39,8 (37,2-42,5) 4,5 (2,8-6,3) –0,1 (–0,5/0,4) SDI: índice sociodemográfico. O SDI é a média geométrica ponderada da renda per capita, nível de escolaridade e taxa de fecundidade total. 3 478

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