ABC | Volume 112, Nº4, Abril 2019
Posicionamento da FSCLP 2019: Recomendações para a Redução do Consumo de Tabaco nos Países de Língua Portuguesa - Posicionamento da Federação das Sociedades de Cardiologia de Língua Portuguesa 2019: Recommendations for Reducing Tobacco Consumption in Portuguese-Speaking Countries - Positioning of the Federation of Portuguese Language Cardiology Societies Gláucia Maria Moraes de Oliveira, 1 Miguel Mendes, 2 Oscar Pereira Dutra, 3 Aloysio Achutti, 4 Mario Fernandes, 5 Vanda Azevedo, 6 Maria Beatriz Sena e Costa Santos Ferreira, 7 Armando Serra Coelho, 8 Miryan Bandeira dos Prazeres Cassandra Soares, 9 Mário Alberto Brito Lima Évora, 10 Mário Gomes Mariotto, 11 João Araujo Morais 12 Universidade Federal do Rio de Janeiro, 1 Rio de Janeiro, RJ – Brasil CHLO - Hospital de Santa Cruz, 2 Carnaxide – Portugal Instituto de Cardiologia, 3 Porto Alegre, RS - Brasil Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 4 Porto Alegre, RS – Brasil Universidade de Luanda, 5 Luanda – Angola Colégio de Especialidade de Cardiologia, 6 Praia – Cabo Verde Instituto do Coração ICOR, 7 Maputo – Moçambique Clínica Santos Dumont, 8 Lisboa – Portugal Hospital Dr. Ayres de Menezes, 9 São Tomé – São Tomé e Príncipe Hospital do Governo de Macau, 10 Região Administrativa Especial de Macau – Macau Hospital Nacional Simão Mendes, 11 Bissau – Guiné-Bissau Centro Hospitalar de Leiria, 12 Leiria – Portugal Palavras-chave Tabagismo/epidemiologia; Tabagismo/mortalidade; Prevenção do Hábito de Fumar; Fatores Socioeconômicos; População Urbana; População Rural; Poluição por Fumaça de Tabaco. Correspondência: Gláucia Maria Moraes de Oliveira • Universidade Federal do Rio de Janeiro – R. Prof. Rodolpho P. Rocco, 255 – 8°. Andar – Sala 6, UFRJ. CEP 21941-913, Cidade Universitária, RJ – Brasil E-mail: glauciam@cardiol.br , glauciamoraesoliveira@gmail.com DOI: 10.5935/abc.20190071 Introdução Dependendo da perspectiva epidemiológica do observador e do alcance de seu conceito de causalidade, o consumo de tabaco pode ser considerado mundialmente como a segunda causa de morte atribuída a fatores de risco cardiovasculares clássicos, precedida apenas pela hipertensão arterial, e a primeira causa de morte prematura e incapacidade. Compreendido como causa imediata sem contextualização no complexo que determina e mantém o comportamento populacional, o tabagismo foi responsável em 2017 por cerca de 8,10 (7,79-8,41) milhões de mortes e 213,39 (201,16-226,66) milhões de anos saudáveis de vida perdidos ( disability‑adjusted life-years, DALYs). Apesar da diminuição no número de fumantes diários (indivíduos com 15 anos ou mais que fumam diariamente), o número total de fumantes continua a aumentar, proporcionando um grande desafio global para os sistemas de saúde. 1 Médicos, em geral por lidarem direta e individualmente com pacientes, tendem a considerar saúde/doença limitada ao comprometimento orgânico do paciente e sua história pessoal, valorizando menos as “causas das causas” e a determinação psicossocial dos fenômenos e dos comportamentos, indissociáveis do contexto ecológico e dos interesses econômicos. Atualmente tem-se valorizado a poluição ambiental (que também tem contribuição do tabagismo e que aumenta progressivamente) como a mais importante causa de morbimortalidade na população mundial atual, 2 ampliando o espectro para além dos fatores de risco tradicionalmente valorizados. Esta perspectiva é muito importante para a compreensão da resistência ao controle do tabagismo e planejamento de estratégias de abordagem mais efetivas. Em todos os países de língua portuguesa (PLPs), o tabagismo é mais frequenteentrehomens; as diferenças nas taxas entrehomens e mulheres variam entre os países e são mais altas nos países africanos. A Tabela 1 descreve as prevalências padronizadas por sexo em 2015 e a diferença anualizada para homens e mulheres de 1990 a 2015 de acordo com o índice sociodemográfico ( sociodemographic index, SDI). 3 As prevalências de fumantes diários nos países africanos, emPortugal e no Brasil são de 19,0%, 16,8% e 7,2%, respectivamente. 4 Os dados dos Inquéritos Nacionais de Saúde (INS) disponíveis (1987, 1995/96, 1998/99, 2005/06 e 2014) apontaram que o consumo diário de tabaco em Portugal Continental diminuiu entre os homens de 35,2% (intervalo de confiança [IC] de 95% 34,2-36,2%) em 1987 para 26,7% (IC 95% 25,2-28,3%) em 2014 e aumentou progressivamente entre as mulheres de 6,0% (IC 95% 5,6-6,4%) em 1987 para 14,6% (IC 95% 13,6-15,8%) em 2014, observando-se maior consumo diário em homens de grupos socioeconômicos mais desfavorecidos e o oposto nas mulheres. 5 A prevalência de consumo de tabaco em Moçambique em 2003 foi descrita como 39,9% em homens e 18,0% em mulheres. 6 Em uma amostra obtida em 2005 no mesmo país, observou-se que a prevalência de fumantes diários (incluindo 477
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