ABC | Volume 110, Nº1, Janeiro 2018

Artigo Original Cerqueira Junior et al Escore GRACE em muito idosos Arq Bras Cardiol. 2018; 110(1):24-29 A origem da incerteza quanto à acurácia do GRACE em indivíduos muito idosos deriva da possibilidade de que haja menor variabilidade dos valores de importantes preditores dentro de uma faixa etária muito avançada. Por exemplo, pode ser que a uniformidade de idade avançada nesta amostra ampute o poder discriminatório dessa variável, que não apresentaria muito contraste entre os indivíduos. A inclinação dessa função de risco pode ser menor quando temos apenas pacientes muito idosos. O mesmo pode ocorrer com outras variáveis que podem estar sistematicamente alteradas em amostra muito idosa. Além disso, a calibração do escore em estimar o risco numérico de morte pode ser diferente nesses pacientes, visto que a constante alfa ( intercept ) tende a ser maior em amostras de mais alto risco. Isso poderia implicar na necessidade de recalibração do escore. Essa incerteza se torna maior quando percebemos que indivíduos octogenários não foram bem representados pela amostra que derivou e validou o Escore GRACE como preditor de óbito hospitalar. 4,11,12 Naquela amostra, a mediana de idade foi 66 anos, com limite superior do intervalo interquartil de 75 anos, indicando que 3/4 dos pacientes tinham menos que 75 anos, sem descrição de quantos eram octogenários ou nonagenários. Devido à incerteza dessa faixa etária, definimos em nosso método o “muito idoso” a partir de 80 anos de idade, quando fenômenos de fragilidade e comorbidades se tornam mais prevalentes. Nossos achados estão de acordo com estudos preliminares que avaliaram o Escore GRACE em muito idosos, respectivamente, dois trabalhos europeus (Portugal e Espanha), e dois chineses. 12-15 Portanto, nossos resultados respaldam a impressão da literatura, sendo o primeiro a comparar a amostra de muito idosos com indivíduos com menos de 80 anos. Ou seja, não só demonstramos um escore acurado, como trazemos a sugestão de que não há perda de acurácia. Em SCAs têm sido descrito um paradoxo risco-tratamento dependente da idade, 11,12,16-19 ou seja, indivíduos de maior risco sendo tratados de forma mais conservadora devido ao temor de complicações, enquanto indivíduos de menor risco e mais jovens recebem tratamento de maior agressividade. O uso de escores de risco em idosos potencialmente prevenirá esse paradoxo, pois permite estimar maior magnitude de benefício quando estratégias mais agressivas são aplicadas em pacientes com maior risco absoluto derivado do GRACE. Por outro lado, devemos reconhecer que sendomortalidade um desfecho líquido resultante de proteção cardiovascular versus complicações de procedimentos, o maior benefício no muito idoso pode ser antagonizado por maior incidência de complicações. Portanto, salientamos que nessa faixa etária faz-se necessário demonstrar validação do Escore GRACE quanto à predição de benefício de estratégias terapêuticas mais agressivas. Essa é uma lacuna a ser preenchida por futuros estudos. Conclusão Em conclusão, o presente estudo representa uma evidência favorável à utilização acurada do Escore GRACE para predição de morte hospitalar em octogenários e nonagenários internados com SCA. Contribuição dos autores Concepção e desenho da pesquisa: Cerqueira Junior AMS, Pereira LGS, Souza TMB, Correia VCA, Alexandre FKB, Suerdieck JG, Ferreira F, Rabelo MMN, Correia LCL; Obtenção de dados: Cerqueira Junior AMS, Pereira LGS, Souza TMB, Correia VCA, Sodré GA, Suerdieck JG, Ferreira F, Correia LCL; Análise e interpretação dos dados:Cerqueira Junior AMS, Pereira LGS, Souza TMB, Correia VCA, Sodré GA, Suerdieck JG, Ferreira F, Rabelo MMN, Correia LCL; Análise estatística e Redação do manuscrito: Cerqueira Junior AMS, Pereira LGS, Souza TMB, Correia VCA, Alexandre FKB, Sodré GA, Suerdieck JG, Ferreira F, Rabelo MMN, Correia LCL; Obtenção de financiamento: Rabelo MMN, Correia LCL; Revisão crítica do manuscrito quanto ao conteúdo intelectual importante: Cerqueira Junior AMS, Souza TMB, Correia VCA, Alexandre FKB, Sodré GA, Suerdieck JG, Ferreira F, Rabelo MMN, Correia LCL. Potencial conflito de interesses Declaro não haver conflito de interesses pertinentes. Fontes de financiamento O presente estudo foi parcialmente financiado pela FAPESB. Vinculação acadêmica Este artigo é parte de dissertação de Mestrado de Antonio Mauricio dos Santos Cerqueira Junior pela Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública. Aprovação Ética e consentimento informado Este estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética do Hospital São Rafael sob o número de protocolo 35/11. Todos os procedimentos envolvidos nesse estudo estão de acordo com a Declaração de Helsinki de 1975, atualizada em 2013. O consentimento informado foi obtido de todos os participantes incluídos no estudo. 28

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