ABC | Volume 110, Nº1, Janeiro 2018

Artigo Original Stephan et al Saúde móvel e fibrilação atrial Arq Bras Cardiol. 2018; 110(1):7-15 para otimizar a utilização dos ACO é a decisão compartilhada, hoje recomendada pelas diretrizes como parte de ummanejo integrado da doença, sendo indicador de qualidade de desempenho clínico. 8,24 O entendimento do paciente sobre a terapia e sua análise individual do risco-benefício é crucial nesse processo. 25 No entanto, existem lacunas significativas nesse conhecimento, mesmo em pacientes em tratamento há vários anos. 18 Diversos estudos citam instrumentos criados para facilitar as estratégias de decisão compartilhada na anticoagulação em FA, atuando por meio de mudança de comportamento e educação do paciente na forma de panfletos, folders, intervenções por vídeo ou softwares. Uma metanálise da Cochrane de 2013 revisou esses estudos, reportando que não existem evidências suficientes para avaliar o impacto dessas estratégias no Tempo de Razão Normalizada Internacional na faixa terapêutica ( TTR , time in therapeutic range ). 26 Outra recente revisão concluiu que as estratégias de decisão com participação do paciente são poderosas ferramentas para melhorar o manejo da FA e que é necessário desenvolver e testar esses instrumentos. 18 Subsequentemente, o estudo TREAT, um estudo randomizado e controlado de intervenção comportamental em pacientes que recentemente tinham iniciado varfarina, demonstrou significativa melhora na TTR em 6 meses, comparado com os cuidados usuais. 27 Outro estudo com uma intervenção multiprofissional em cuidados com FA, incluindo suporte de software, conduzida por profissionais da enfermagem e supervisionada por cardiologista, demonstrou uma redução significativa no número de mortes cardiovasculares e hospitalizações (14,3 vs. 20,8%; razão de risco 0,65; CI 95% 0,45–0,93). 28 Essas intervenções partem do princípio de que é responsabilidade do profissional de saúde o fornecimento das informações essenciais ao paciente e o estímulo à continuidade da busca por conhecimento. A tecnologia aparece como aliada nessa questão, facilitando o acesso, a organização, a transmissão e a retenção da informação. Em especial, a tecnologia móvel vem inaugurar uma nova era nos cuidados em saúde, trazendo o cuidado para mais perto do paciente e permitindo interações médico-paciente de maior qualidade. Com um mercado em franca ascensão, o segmento mHealth contou, em 2015, com cerca de 45 000 editores e mais de 3 bilhões de downloads de apps. 29 As avaliações existentes são, em geral, favoráveis. Um recente levantamento da American Heart Association sobre mHealth e prevenção de doenças cardiovasculares incluiu 69 estudos com apps para perda de peso, aumento de atividade física, cessação de tabagismo, controle glicêmico, hipertensão e dislipidemia. Os resultados, apesar de heterogêneos, foram positivos para as mudanças de comportamento propostas, sendo sugerido que os futuros estudos usem metodologia analítica mais rigorosa, amostras mais diversificadas e acompanhamento de longo prazo para verificar a sustentabilidade dos efeitos. 30 Sobre a questão da população-alvo, destaca-se, na literatura, a necessidade de essas novas tecnologias abrangerem também outros grupos populacionais específicos: idosos com alterações relacionadas à idade (p.ex .: visão ou mobilidade reduzidas), minorias que necessitem de conteúdos e intervenções culturalmente sensíveis e adultos de baixa renda que podem ter acesso inconsistente à comunicação móvel. 30-32 A FA é um tema bastante explorado em mHealth . A maioria dos estudos relata experiências sobre a utilização de dispositivos que permitem a monitorização domiciliar do ritmo cardíaco. Na questão da educação do paciente, a American Heart Association e a European Society of Cardiology, possuem aplicativos e material na web de excelente qualidade, em língua inglesa, para auxiliar na decisão compartilhada. 33,34 Também estão disponíveis diversas calculadoras de risco para uso médico. No entanto, não se encontra na literatura a descrição do desenvolvimento desses aplicativos, tampouco Tabela 2 – Prevalência das variáveis presentes nos escores de CHA 2 DS 2 -VASc, HAS-BLED e SAMe-TT2R2 e média dos escores Hipertensão arterial sistêmica (%) 80 Pressão arterial sistólica > 160mmHg (%) 10 Diabetes Mellitus (%) 30 Insuficiência cardíaca congestiva ou fração de ejeção < 40% (%) 30 Doença cardiovascular (%) 23,3 Acidente vascular cerebral ou acidente isquêmico transitório prévios (%) 16,7 Doença hepática* (%) 0 Doença renal † (%) 6,7 Doença pulmonar (%) 16,7 RNI de difícil controle ou lábil ‡ (%) 23,3 História de sangramento maior ou predisposição (%) 16,7 Uso de antiplaquetários ou anti-inflamatórios (%) 26,7 Uso de medicamentos que interagem com cumarínicos (%) 43,3 Uso abusivo de álcool (%) 3,3 Tabagismo (%) 10 CHA 2 DS 2 -VASc ≥ 2 § (%) 86,6 CHA 2 DS 2 -VASc por escore (%) 0 3,3 1 10 2 23,4 3 23,4 4 20 5 13,3 7 3,3 8 3,3 CHA 2 DS 2 -VASc médio 3 ± 1,8 HAS-BLED médio 2 ± 1,2 SAMe-TT2R2 ≥ 2 // (%) 76,6 * Doença hepática crônica (ex: cirrose), ou evidência bioquímica de disfunção hepática significativa (bilirrubinas > 2 a 3 vezes o limite superior, transaminases ou fosfatase alcalina > 3 vezes o limite superior); † Hemodiálise crônica, transplante renal, creatinina sérica > 2,2 mg/dl; ‡ Que está no alvo < 60% das vezes; § Um escore ≥ 2 indica necessidade de anticoagulação; // Um escore ≥ sinaliza os pacientes que necessitam de intervenções adicionais para atingir um controle de anticoagulação aceitável com cumarínicos. 11

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