ABC | Volume 115, Nº2, Agosto 2020

Minieditorial Minieditorial: Competência Prognóstica Distinta entre Modelo Clínico e Anatômico nas Síndromes Coronarianas Agudas: Comparação por Tipo de Desfecho Short Editorial: Distinct Prognostic Competence between the Clinical and Anatomical Models in Acute Coronary Syndromes: Comparison by Type of Outcome Roberto Coury Pedrosa 1 Departamento de Cardiologia, Hospital Universitário Clementino Fraga Filho / Instituto do Coração Edson Saad - Universidade Federal do Rio de Janeiro, 1 Rio de Janeiro, RJ - Brasil Correspondência: Roberto Coury Pedrosa • Departamento de Cardiologia, Hospital Universitário Clementino Fraga Filho / Instituto do Coração Edson Saad – UFRJ - Rua Prof. Rodolpho Paulo Rocco, 255. CEP 21941-913, Cidade Universitária, Rio de Janeiro, RJ - Brasil E-mail: coury@hucff.ufrj.br, Palavras-chave Doenças Cardiovasculares/mortalidade; Infarto do Miocárdio; Síndrome Coronariana Aguda; Saúde Pública; Organização e Administração; Cuidados Médicos; Equipamentos para Diagnóstico; Medição de Risco; Intervenção Coronária Percutânea. Eventos cardiovasculares, principalmente o infarto agudo do miocárdio, são as principais causas demorte no Brasil. Emalguns países europeus (por exemplo, França, Portugal, Itália), as taxas de mortalidade em 30 dias por infarto diminuíram nas últimas décadas, chegando a valores tão baixos quanto 3% a 5%. Isso reflete a organização da logística da saúde, incluindo atendimento pré-hospitalar, protocolos unificados, treinamento, regulação central e compromisso com o atendimento. 1 No Brasil, as taxas de mortalidade em 30 dias variam de 3% a 5% em centros avançados e 30%naqueles centros nos quais o atendimento não aplica as diretrizes recomendadas. 2 Essa disparidade geralmente reflete um sistema de saúde pública ainda deficiente que carece de fluxogramas diagnósticos, protocolos institucionais, regulação central ou profissionais capazes de interpretar o diagnóstico de infarto utilizando um eletrocardiograma (ECG). Infelizmente, ainda verificamos quemuitos centros carecemde equipamentos nos setores de emergência (desfibrilador, materiais de intubação, ventiladores, eletrocardiografias, drogas vasoativas, monitores cardíacos, marcapassos temporários e drogas fibrinolíticas) e unidades coronarianas, alémda falta de profissionais qualificados para fornecer o melhor tratamento. O reconhecimento de que as síndromes coronarianas agudas (SCA) constituem uma doença heterogênea em relação ao prognóstico foi fundamental para a correta identificação de indivíduos de maior risco, que necessitam de intervenção mais intensiva. 3 Foi demonstrado que nem todos os pacientes com SCA pertencem a categorias de risco alto ou muito alto; há uma porcentagem considerável composta por pacientes jovens sem fatores de risco clássicos que podem ser adequadamente classificados em categorias de risco intermediário ou mesmo baixo. Portanto, é importante identificar os pacientes de maior risco que necessitam de tratamento mais intensivo. Estudos clínicos importantes contribuírampara a evolução da abordagem em pacientes com SCA. 4-7 Atualmente, o foco emergente no envolvimento de fatores socioeconômicos no risco cardiovascular tem sido constantemente relatado. 8 Nesta edição, Viana et al. 9 apresentaram um estudo que comparou a capacidade preditiva dos escores SYNTAX 10 e GRACE 11 empredizer resultados isquêmicos não-fatais (infarto ou angina refratária) emorte cardiovascular durante a hospitalização de pacientes com SCA. Eles chamam atenção para o fato de que eventos isquêmicos não-fatais recorrentes representam o fenômeno de instabilidade da placa aterosclerótica, enquanto a morte após um evento isquêmico resulta da gravidade do insulto e da resistência do paciente. A natureza fisiopatológica diferente desses tipos de eventos pode fazer com que os dados clínicos e anatômicos tenham capacidades prognósticas diferentes, dependendo do tipo de desfecho. Se isso for verdade, a generalização do valor prognóstico em relação aos “desfechos cardiovasculares” seria comprometida, tornando necessário individualizar a previsão de cada modelo para o tipo de desfecho. Considerando a justificativa da escassez de estudos dessa natureza relatados na literatura com o objetivo de responder a essa pergunta, os autores realizaram um estudo serial de casos consecutivos entre 2007 e 2014 em um hospital terciário no Brasil, com o objetivo de avaliar e comparar o valor prognóstico de dados clínicos e anatômicos em relação a resultados fatais e não-fatais empacientes comSCA. Os pacientes admitidos consecutivamente com SCA submetidos à angiografia coronariana foram recrutados. O escore SYNTAX foi utilizado como modelo anatômico e o escore GRACE como modelo clínico. Dos 365 pacientes analisados, amédia de idade foi de 64 ± 14 anos, sendo 58% do sexo masculino, 19% dos quais com infarto domiocárdio com supradesnivelamento do segmento ST. Doença coronariana triarterial ou doença da coronária esquerda estava presente em 36% da amostra. A mediana do escore SYNTAX foi 9 (IIQ = 2,5–20) e a mediana do escore GRACE foi de 117 (IIQ = 90–144). Ao analisar os tercis de risco previstos pelo escore SYNTAX, 81%dos pacientes apresentaram valor baixo (0 a 22), 10% apresentaram valor intermediário (23 a 32) e apenas 8,5% apresentaram valor alto (≥ 33). Em relação ao escore GRACE, 44% apresentaram baixo risco (<109), 28% risco intermediário (110 a 139) e 29% alto risco (≥ 140). Entre os 365 indivíduos, houve uma incidência de 4,4% de óbito hospitalar e 11% de desfechos isquêmicos não-fatais. Para morte cardiovascular, ambos os escores - SYNTAX e GRACE - apresentaram capacidade DOI: https://doi.org/10.36660/abc.20200758 226

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