ABC | Volume 115, Nº2, Agosto 2020

Artigo Original Viana et al. Prognóstico embasado em modelos e desfechos em SCA Arq Bras Cardiol. 2020; 115(2):219-225 características entre pacientes que evoluíram com evento não fatal versus pacientes livres de evento – Tabela 3. Ao avaliarmos o evento óbito, a maioria daqueles que apresentaram o desfecho possuíam doença obstrutiva triarterial e/ou comprometimento de tronco de coronária esquerda (81%). Nos sobreviventes, apenas 25% tinha doença triarterial ou de tronco, seguidos de 22% com obstrução de dois vasos, 29% com obstrução de um vaso e 24% livres de lesão obstrutiva (p = 0,01). Naqueles que apresentaram desfechos não fatais, a proporção de livres de coronariopatia obstrutiva, obstrução de um vaso, dois vasos, triarterial/ tronco de coronária esquerda foram de 7,7%, 23%, 26% e 44%, respectivamente, comparados a 25%, 29%, 21% e 25%, respectivamente, nos indivíduos livres de eventos (p = 0,04). Discussão O presente estudo propõe um maior refinamento na predição de risco em portadores de síndrome coronariana aguda (SCA). Demonstrou-se que tanto o paradigma clínico (GRACE) como o anatômico (SYTNAX) apresentaram boa capacidade preditora para óbito. Porém, apenas o modelo anatômico foi capaz de predizer eventos recorrentes não fatais. Essa demonstração de que os escores habitualmente utilizados no manejo clínico de portadores de SCA podem possuir uma predileção por diferentes desfechos, até o momento, não havia sido descrita na literatura. Sabe-se que extensão anatômica da doença coronária é um preditor independente de progressão de placa e eventos coronarianos recorrentes. 12 Ao avaliarmos o mesmo modelo preditor angiográfico utilizado nesta coorte, estudo prévio com tomografia de coerência ótica demonstrou maior frequência de características compatíveis com vulnerabilidade de placa (placa rica em conteúdo lipídico, fibroateroma de capa fina, ruptura de placa na lesão culpada e múltiplas placas rotas no vaso culpado) em pacientes portadores de SCA com escore SYNTAX mais elevado (≥ 16), do que em tercis do escore baixo (< 9) e intermediário (entre 9 e 16). 13 Outro estudo realizado em portadores de SCA demonstrou que o escore SYNTAX é um preditor independente de recorrência de infarto, com o melhor valor de SYNTAX de 11 para predição desse desfecho nessa população. 14 Além disso, o mesmo grupo demonstrou que quanto maior o valor de SYNTAX após a intervenção percutânea, denominada SYNTAX residual, maior a ocorrência de desfechos fatais e não fatais em 30 dias e 1 ano, com valores preditivos e acurácia discriminatória semelhantes ao escore SYNTAX basal (pré- tratamento). 15 Nosso estudo demonstrou que o escore SYNTAX é um razoável preditor de eventos recorrentes não fatais, estando em consonância com as evidências que associam a carga de doença aterosclerótica a esse tipo de desfecho. O escore GRACE é um modelo extensamente estudado na predição de eventos cardiovasculares maiores em diversos cenários de SCA. 16–18 Apesar disso, há uma paucidade de dados na literatura que avaliem a acurácia preditora desse escore para desfechos não fatais de maneira isolada. A maioria dos trabalhos está associada à predição de eventos combinados ( Major adverse cardiac events ou, na sigla em inglês , MACE). As variáveis clínicas presentes nesse modelo refletem o grau de vulnerabilidade do paciente frente ao insulto apresentado Tabela 2 - Comparação das características clínicas entre pacientes que apresentaram morte ou sobreviveram ao evento Variáveis Óbito Sobrevida Valor de p Tamanho amostral 19 346 Idade 78 ± 10 63 ± 13 < 0,001 Pressão arterial sistólica 139 ± 32 153 ± 28 0,06 Frequência cardíaca 89 ± 20 79 ± 18 0,03 Creatinina 3,24 ± 2,6 1,15 ± 0,6 <0,001 Killip > 1 9 (48%) 42 (12%) <0,001 Troponina positiva 19 (100%) 248 (72%) 0,007 ECG isquêmico 10 (53%) 116 (34%) 0,08 Tabela 3 - Comparação das características clínicas entre pacientes que apresentaram desfecho não fatal versus os livres de desfecho Desfecho Sem desfecho Valor de p Tamanho amostral 39 346 Idade 68 ± 13 64 ± 13 0,05 Pressão arterial sistólica 159 ± 30 152 ± 28 0,15 Frequência cardíaca 74 ± 19 80 ± 18 0,06 Creatinina 0,9 ± 0,3 1,0 ± 0,7 0,058 Killip > 1 5 (13%) 46 (14%) 0,82 Troponina positiva 30 (77%) 237 (73%) 0,58 ECG isquêmico 16 (41%) 110 (34%) 0,36 223

RkJQdWJsaXNoZXIy MjM4Mjg=