ABC | Volume 115, Nº2, Agosto 2020

Carta ao Editor Doenças do Aparelho Circulatório em Indivíduos com COVID-19: Descrição do Perfil Clínico e Epidemiológico de 197 Óbitos Circulatory System Diseases in Patients with COVID-19: Description of Clinical and Epidemiological Profile of 197 Deaths Carlos Dornels Freire de Souza, 1 Thiago Cavalcanti Leal, 1 Lucas Gomes Santos 1 Universidade Federal de Alagoas - Campus Arapiraca, 1 Arapiraca, AL - Brasil Caro Editor, Em dezembro de 2019, a China reportou à Organização Mundial da Saúde (OMS) um surto de pneumonia na cidade de Wuhan, capital da província de Hubei. Poucos dias depois, o agente causador foi identificado, o severe acute respiratory syndrome coronavirus 2 (SARS-CoV-2). 1 A doença, batizada de coronavirus disease 2019 (COVID-19), rapidamente se espalhou pelos países e, em 11 de março de 2020, a OMS declarou pandemia global. 1 No Brasil, o primeiro caso foi confirmado em 26 de fevereiro e a primeira morte em 17 de março, em São Paulo. Em 09 de abril, o Brasil somava 155.000 casos confirmados e 10.000 mortes pela doença. 2 Os recentes estudos já apontam a dupla relação entre o aparelho circulatório e a COVID-19: 3-5 i. o vírus pode causar alterações cardiovasculares, como arritmias, lesão cardíaca aguda, miocardite, dentre outras; ii. a presença de doenças do aparelho circulatório eleva o risco de agravamento e mortalidade pela COVID-19. Essa relação tem sido motivo de preocupação por parte de clínicos e cientistas. Partindo deste pressuposto, este estudo objetivou descrever o perfil clínico e epidemiológico de óbitos por COVID-19 que tinham doenças do aparelho circulatório previamente. Trata-se de um estudo observacional transversal envolvendo 197 óbitos por COVID-19 ocorridos em Pernambuco que tinham pelo menos uma doença do aparelho circulatório previamente. Foram analisadas as seguintes variáveis: sexo, faixa etária, sinais/sintomas, comorbidades e fatores risco e tempo entre os primeiros sintomas e o óbito. Os dados foram obtidos da página eletrônica de monitoramento da COVID-19 do estado ( https://dados.seplag.pe.gov.br/apps/corona.html ) em 07 de maio de 2020. Após a coleta, o banco de dados passou por ajustes das variáveis para a subsequente análise. Neste estudo, foi utilizada apenas a estatística descritiva (frequência absoluta, frequência relativa, média e desvio padrão) com o auxílio do software SPSS versão 24.0 (IBM Corporation). Por utilizar dados de domínio público, este estudo dispensou a aprovação pelo Comitê de Ética em Pesquisa. Em 07 de maio de 2020, o estado de Pernambuco já havia registrado 9.325 casos e 749 óbitos em decorrência da COVID-19. Desses óbitos, 293 (39,11%) possuíam o campo “ comorbidades ” preenchido (12 informavam que os pacientes não possuíam comorbidades e 281 citando as comorbidades). Dos 281 com comorbidades relatadas, 197 apresentavam pelo menos uma doença do aparelho circulatório, o que correspondeu a 70,10% dos indivíduos com comorbidades relatadas e a 26,30% de todos os óbitos. Observou-se predomínio do sexo feminino (53,3%; n = 105) e de indivíduos com 50 anos ou mais (92,3%; n = 182). Os seguintes quatro sinais/sintomas apresentaram frequência superior a 50%: dispneia (80,7%; n = 159), tosse (72,1%; n = 142), febre (67,0%; n = 132) e saturação de oxigênio < 95% (58,9%; n = 116) (Tabela 1). Quanto à presença de comorbidades, 78,7% (n = 155) apresentavam duas ou mais comorbidades, sendo pelo menos uma relacionada ao aparelho circulatório. Dentre elas, a hipertensão arterial sistêmica foi observada em 82,7% (n = 163) dos indivíduos e a cardiopatia não especificada em 25,9% (n = 51) dos indivíduos (Tabela 1). Além do comprometimento do aparelho circulatório, as doenças e fatores de risco mais comuns na população estudada foram diabetes mellitus (53,8%; n = 106), obesidade (11,2%; n = 22), doença renal crônica (10,7%; n = 21), acidente vascular cerebral prévio (8,1%; n = 16), tabagismo (7,6%; n = 15), doença pulmonar obstrutiva crônica (4,6%; n = 9) e câncer (4,1%; n = 8). O tempo médio (em dias) entre o início dos sintomas e o óbito foi de 9,7 ± 7,8. Salienta-se que dos 197 pacientes incluídos neste estudo, em 10 deles não foi possível calcular o tempo entre o início dos primeiros sintomas e o óbito (Tabela 1). O perfil evidenciado neste estudo está em consonância com o observado em outras partes do mundo. 3-5 No entanto, três aspectos chamam a atenção: i. a elevada proporção de indivíduos commúltiplas comorbidades (78,7% dos pacientes possuíam duas ou mais doenças/fatores de risco de base), ii. a ampla variedade de doenças/fatores de risco observado e iii. o estado clínico em que indivíduos chegaram ao atendimento hospitalar (função respiratória comprometida). O somatório de comorbidades/fatores de risco em uma única pessoa pode elevar o risco de mortalidade pela Correspondência: Carlos Dornels Freire de Souza • Universidade Federal de Alagoas - Campus Arapiraca - Medicina Av. Manoel Severino Barbosa. CEP 57309-005, Arapiraca, AL – Brasil E-mail: carlos.freire@arapiraca.ufal.br Artigo recebido em 10/05/2020, revisado em 14/05/2020, aceito em 14/05/2020 Palavras-chave Coronavírus-19/complicações; Febre; Síndrome Respiratória Aguda Grave; Dispneia; Transtornos Respiratórios; Fatores de Risco; Hipertensão; Diabetes Mellitus. DOI: https://doi.org/10.36660/abc.20200453 281

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