ABC | Volume 115, Nº2, Agosto 2020

Carta ao Editor Fernandes et al. Os Riscos da Divulgação de Dados Científicos pela Mídia Arq Bras Cardiol. 2020; 115(2):278-280 houvesse uma intensa cobertura pela imprensa de todos os aspectos da doença, inclusive de avanços terapêuticos. Porém, via de regra, a informação passada diretamente do artigo científico pelo jornalista para a população carece de interpretação, de crítica e da avaliação de riscos. E o benefício de levar a informação pode ser suplantado pelo risco que essa informação sem crítica possa causar, caso acarrete uma conduta clínica. Considere esse exemplo: uma paciente de 62 anos dá entrada na emergência de um hospital com quadro de grandes hematomas ao longo do corpo, de origem espontânea (Figura 1). Quinze dias antes ela iniciara quadro de rinorréia hialina sem febre ou mialgia. Temendo a COVID-19 ela buscara informações sobre a patologia e encontrara dados na mídia sobre um potencial tratamento com anticoagulantes. Ela então buscou se proteger da COVID-19 utilizando diversos anticoagulantes concomitantes. Começara o uso, por conta própria, de rivaroxabana, varfarina e ácido acetil-salicílico. Por via das dúvidas, utilizara também hidroxicloroquina e azitromicina (também influenciada por dados da mídia jornalística, que destacaram estudos com potencial benefício destas terapêuticas). 11 À entrada, apresentava hemoglobina Figura 1 – Hematomas espontâneos em uma paciente de 62 anos, que fez uso de ácido acetil salicílico, rivaroxabana e varfarina para se proteger da gravidade de uma eventual infecção por COVID-19 (entretanto, seu PCR e sorologia vieram negativos). À entrada seu INR era 26 e o R do TTPA de 2. Com a reversão da anticoagulação e observação clínica, a paciente não apresentou outras complicações hemorrágicas. de 12, INR de 26 e TTPA com R de 2. Foi internada e a anticoagulação foi revertida. Submetida tanto ao PCR para busca do SARS-CoV-2 (causador da COVID-19) quanto à pesquisa sorológica, ambas resultaram negativas. Assim, esta paciente nunca teve COVID-19, mas poderia ter morrido por complicações de terapias ainda em avaliação para o tratamento de uma doença que ela nunca teve. A COVID-19 foi identificada há apenas 5 meses. Por mais grave que ela seja, por maior que seja o número de vítimas, há a necessidade de tempo e experiência, tanto para seu manejo clínico 12 quanto para a interpretação de dados científicos produzidos em quantidades e velocidades nunca antes vistas. A democratização da informação é fundamental, e esse papel é feito com excelência pela imprensa. No entanto, informações técnicas brutas, sem a necessária depuração conferida pela experiência clínica podem ter consequências bastante deletérias, ao serem absorvidas sem cuidado por uma população fragilizada pelo receio da doença. O acesso à informação, providenciado pela mídia é fundamental para que o paciente possa participar ativamente do seu tratamento. Entretanto, este tratamento sempre deve ser orientado pelo profissional mais capacitado para fazê-lo, o médico. 279

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