ABC | Volume 115, Nº2, Agosto 2020

Carta ao Editor O Outro Lado da Moeda: Os Riscos da Discussão de Dados Médico- Científicos pela Mídia Durante a Pandemia de COVID-19 The Other Side of the Coin: Risks of Media Discussions of Scientific Medical Data During the COVID-19 Pandemic Caio Julio Fernandes, 1, 2 F ernando Ganem, 2 Fabio Gravina Olivieri, 2 Marcelo Fadul Vilibor, 2 Alfredo Salim Helito 2 Universidade de São Paulo-Departamento de Cardiopneumologia, 1 São Paulo, SP - Brasil Hospital Sírio-Libanês, 2 São Paulo, SP - Brasil A pandemia de COVID-19, assim determinada pela ONU em março de 2020, trouxe uma série de mudanças no cotidiano de toda a população. Medidas de isolamento social, quarentena e lockdown foram implementadas em diversos países. O número elevado de casos, já próximo de 4 milhões no mundo, 1 com mais de 250.000 mortos pela doença, fez com que houvesse um grande interesse na patologia, e uma verdadeira revolução na produção e divulgação de dados médicos ocorreu por conta disso. Uma grande quantidade de artigos científicos avaliando todos os aspectos de COVID-19, desde a sua epidemiologia, passando pelo seu quadro clínico e por potenciais possibilidades terapêuticas tornou-se disponível para a comunidade médica. 2 Em pouco mais de 4 meses mais de 10.000 artigos foram publicados sobre o tema e, de forma inédita, disponibilizados gratuitamente, em tempo real, pelos principais periódicos da literatura médica. Essa velocidade de produção e imensa quantidade de dados disponíveis não vêm sem um preço. Boa parte destes artigos não passou por uma revisão de metodologia adequada, sequer foi avaliada por pares e não foi depurada pelo tempo. A necessidade de compreender a COVID-19 e de buscar melhores alternativas terapêuticas fez com que houvesse uma avalanche de estudos questionáveis. O joio misturou-se ao trigo e recomendações médicas passaram a mudar com uma velocidade assustadora. Dados com maiores graus de confiabilidade e de evidência, advindos de estudos aleatorizados e controlados por placebo passaram a ser considerados demorados demais. Séries de casos e opiniões de especialistas começaram a pautar condutas clínicas, com impacto direto no manejo clínico dos pacientes. Ao invés de demonstrarem soluções, a inundação de estudos passou a ser um problema e a gerar confusão para a prática clínica no manejo dos pacientes com COVID-19. Tomemos a avaliação da anticoagulação dos pacientes com COVID-19 como exemplo. Dados bastante consistentes da literatura sugerem que haja uma patologia vascular nos pulmões dos pacientes vítimas de quadros respiratórios graves de COVID-19. Uma alta incidência de trombose foi identificada nesta população, maior do que emoutras situações de gravidade clínica semelhante, mesmo na vigência de anticoagulação profilática adequada, 3 Trombos foram identificados na circulação pulmonar, em vasos de pequeno calibre, não identificáveis na angio-tomografia convencional. 4 A elevação do D-dímero demonstrou impacto na mortalidade de pacientes com COVID-19, sugerindo que pacientes com quadros trombóticos mais graves na microcirculação apresentavam pior prognóstico. 5 Finalmente, a avaliação da mecânica pulmonar dos pacientes com insuficiência respiratória por COVID-19 demonstrou que a complacência pulmonar desta população não era tão reduzida quanto o esperado. No entanto, havia na mesma população uma elevação surpreendente da fração de “shunt” pulmonar, denotando que boa parte da hipoxemia não se devia a alterações da ventilação (como esperado em outras formas de síndrome do desconforto respiratório agudo), e sim às alterações da circulação pulmonar. 6 Assim, se há uma patologia trombótica da circulação pulmonar em uma doença grave, faz sentido intuitivo o uso de anticoagulantes para o tratamento dessa condição e a melhora potencial da hipoxemia e da troca gasosa. Séries de casos e estudos retrospectivos demonstraram que haveria um benefício clínico potencial palpável com essa conduta. 7 No entanto, doses adequadas, melhores agentes a serem empregados e intensidade de coagulação não podem ser definidos por essas modalidades de estudos. Apenas estudos prospectivos aleatorizados e controlados podem prover a evidência necessária para que os pacientes possam ser tratados com segurança, definindo de forma precisa essas questões. Entretanto, enquanto esses estudos não são terminados e estes dados não se tornam disponíveis, vários consensos fazem recomendações muito distintas e, por vezes, contraditórias sobre qual a melhor forma de promover a anticoagulação nos pacientes com COVID-19 (seja ela profilática, terapêutica ou ainda com “esquemas alternativos”) 8-10 Múltiplas orientações acabam por gerar confusão e insegurança para os médicos, e cautela é fundamental para a interpretação destas informações. Todavia, há um terceiro componente que, nestes tempos de COVID-19, interpõe-se entre a informação médica, sua interpretação por um médico, e sua transmissão para o paciente: a mídia jornalística. O grande interesse da população por informações sobre a COVID-19 fez com que Correspondência: Caio Julio Fernandes • Universidade de São Paulo – Departamento de Cardiopneumologia - Av. Dr. Eneas de Carvalho Aguiar, 44. CEP 05403-000, São Paulo, SP – Brasil E-mail: cjcfernandes@yahoo.com.br Artigo recebido em 11/05/2020, revisado em 14/05/2020, aceito em 14/05/2020 Palavras-chave Coronavirus; COVID-19; Pandemia; Quarentena Isolamento Social; Doenças Respiratórias; Doenças Transmissíveis; Diagnóstico Diferencial; Tecnologia da Informação/tendências; Mídias Sociais. DOI: https://doi.org/10.36660/abc.20200449 278

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