ABC | Volume 115, Nº2, Agosto 2020
Minieditorial Abdouni Proteção Miocárdica na Cirurgia Cardíaca Arq Bras Cardiol. 2020; 115(2):251-252 superior a 120 minutos, houve maior mortalidade no grupo que utilizou o Custodiol® (5,3% x 1,8%), relacionada a outros desfechos analisados comomaior incidência de disfunção renal, transfusão sanguínea, tempo de internação em terapia intensiva e hospitalar, ainda que a diferença não tenha sido significativa na análise estatística. Na análise das variáveis relacionadas ao miocárdio, as duas soluções se mostraram equivalentes, sem diferença nas taxas de infarto, de baixo débito cardíaco, arritmia, de utilização de inotrópicos ou nos marcadores de necrose miocárdica (troponina). Alguns trabalhos têm sugerido a análise da função septal ventricular como o melhor marcador para determinar lesão miocárdica pós-operatória, uma vez que o septo interventricular corresponde a 35-40% da massa muscular ventricular total e é responsável por 80% da função ventricular direita. 8 Reynolds 9 reportou que 40% dos pacientes submetidos a cirurgia de revascularização domiocárdio e 60%dos pacientes com cirurgia valvar apresentam movimentação paradoxal do septo interventricular no período pós-operatório, o que denota algum grau de dano septal, muitas vezes transitório, sendo uma informação valiosa que deve ser obtida pelo ecocardiograma. Sem dúvida, o Custodiol® tem seu papel em situações específicas, onde a utilização de dose única é tecnicamente importante como nos transplantes cardíacos, cirurgias pediátricas complexas e nas cirurgias minimamente invasivas, onde a infusão de doses repetidas de solução cardioplégica não é possível ou é tecnicamente mais difícil e sujeita a complicações. Outras soluções alternativas continuam sendo estudadas para a proteção miocárdica. Em 1995, uma nova solução cardioplégica foi introduzida para cirurgias cardíacas congênitas, em um trabalho conduzido na Universidade de Pittsburgh. 10 A solução, patenteada como “Solução de Del Nido”, é uma solução despolarizante mista de cardioplegia sanguínea e cristaloide que oferece proteção miocárdica segura por até 90 minutos com uma única dose. Além de conter cloreto de potássio como agente despolarizante, a fórmula contém ainda sulfato de magnésio, manitol, bicarbonato de sódio e lidocaína, e passou a ser utilizada também em cirurgias cardíacas de adultos de longa duração com excelentes resultados e com baixo custo, sendo uma alternativa às soluções comercialmente disponíveis. Não existe a melhor técnica de proteção miocárdica. Apesar da grande variedade de soluções cardioplégicas disponíveis comercialmente, não existe um claro consenso sobre a composição ideal e as técnicas de utilização destas soluções. Além da escolha da solução para cada paciente, existe a questão da via de aplicação (anterógrada, retrógrada ou combinada), em dose única ou intermitente, associada ou não com hipotermia e outras possibilidades. Pinçamento (isquemia) intermitente sem a utilização de soluções cardioplégicas é outra técnica de proteção miocárdica utilizada por alguns grupos com bons resultados. O cirurgião deve estar apto a individualizar sua escolha e optar pela solução ou técnica mais adequada para cada paciente de acordo com seu planejamento cirúrgico, mas o custo também deve ser um fator a ser considerado no nosso meio, principalmente no Sistema Único de Saúde. Soluções mais dispendiosas devem ser reservadas para situações específicas com comprovado benefício. 1. Miller BJ, Gibbon JH, Jr., Greco VF, Smith BA, Cohn CH, Allbritten FF Jr. The production and repair of interatrial septal defects under direct vision with the assistance of an extracorporeal pump-oxygenator circuit. J Thorac Surg. 1953;26(6):598-616. 2. Melrose DJ, Dreyer B, Bentall HH, Baker JBE. - Elective cardiac arrest: a preliminary communication. Lancet. 1955;266(6879):21-2. 3. Buckberg GD. Strategies and logic of cardioplegia delivery to prevent, avoid and reverse isquemic and reperfusion damage. J Thorac Cardiovasc Surg. 1987;93(1):127-39. 4. Oliveira MAB, Brandi AC, Santos CA, Botelho PHH, Cortez JLL, Braile DM - Modes of induced cardiac arrest: hyperkalemia and hypocalcemia - Literature review. Rev Bras Cir Cardiovasc. 2014;29(3):432-6. 5. Fallouh HB, Kentish JC, Chambers DJ. Targeting for cardioplegia: arresting agents and their safety. Curr Opin Pharmacol. 2009;9(2):220-6. 6. Bretschneider HJ. Myocardial protection. Thorac Cardiovasc Surg. 1980;28(5):295-302. 7. Gatti G, Taffarello P, Forti G, Gripari C, Gustin G, Castaldi G, et al. Custodiol®-HTK Solution vs. Cold BloodCardioplegia for IsolatedCoronary Surgery Requiring Prolonged Cross- Clamp Time: A Propensity-Matched Analysis. Arq Bras Cardiol. 2020; 115(2):241-250. 8. Nguyen T, Cao L, Movamed A. Altered Right Ventricle Contractilite Pattern after Cardiac Surgery: Monitorinf of septal function is essential. Ecocardiography. 2014;31(9):1159-65. 9. Reynolds HR, Tunick PA, Grossi EA, Dilmaniam H, Colvin SB, Kronzon I. Paradoxal septal motion after cardiac surgery: A review of 3292cases. Clin Cardiol. 2007;30(12):621-3 10. Matte GS, del Nido PJ. History and use of del Nido cardioplegia solution at Boston Children’s Hospital. J Extra Corpor Technol. 2012;44(3):98-103. Referências Este é um artigo de acesso aberto distribuído sob os termos da licença de atribuição pelo Creative Commons 252
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