ABC | Volume 115, Nº2, Agosto 2020

Artigo Original Gatti et al. Solução Custodiol®-HTK e tempo de pinçamento da aorta prolongado Arq Bras Cardiol. 2020; 115(2):241-250 Tabela 4 – Análise da taxa de qualquer complicação pós-operatória maior* em diferentes subgrupos de com teste de interação† Características Grupo HTK % Grupo MCB % OR 95% IC Interação Valor de p Global 44,1 26,5 2,19 0,79−6,08 0,132 Sem anemia 33,3 25 1,5 0,34–6,7 0,391 Anemia‡ 56,2 27,8 3,34 0,8–13,9 TFGe >85 ml/min§ 33,3 33,3 1,00 0,22–4,56 0,183 TFGe ≤85 ml/min§ 52,6 21,1 4,17 1–17,3 CCS classes 1–3 50 31,2 2,2 0,5–9,75 0,970 CCS classe 4 40 22,2 2,33 0,56–9,72 Infarto do miocárdio recente 46,4 27,6 2,27 0,76–6,85 0,864 Sem infarto do miocárdio recente 33,3 20 2 0,13–32 FEVE >50% 38,1 26,3 1,72 0,45–6,64 0,522 FEVE ≤50% 53,8 26,7 3,21 0,66–15,6 *Inclusive mortalidade hospitalar, AVC, ventilação invasiva prolongada, infarto do miocárdio, baixo débito cardíaco, lesão renal aguda, falência de múltiplos órgãos, múltiplas transfusões de sangue, reexploração mediastinal, infecção profunda da ferida esternal e sepse. † Salvo indicação em contrário, as definições e os valores de corte das variáveis pré-operatórias foram aqueles utilizados no EuroSCORE II. ‡Definida como hemoglobina <13 g/dl para homens e <12 g/dl para mulheres. § A taxa de depuração da creatinina, calculada pela fórmula Cockcroft-Gault, foi utilizada para aproximação da TFG. CCS: Sociedade Cardiovascular Canadense; IC=Intervalo de confiança; TFGe: taxa de filtração glomerular estimada; EuroSCORE: Sistema Europeu para Avaliação de Risco em Cirurgia Cardíaca; HTK: histidina-triptofano-cetoglutarato; FEVE: Fração de Ejeção do Ventrículo Esquerdo; MCB: cardioplegia sanguínea gelada multidose; OR: razão de probabilidade. nos pacientes do grupoHTK em relação ao grupoMCB (embora a diferença não tenha sido muito significativa) foi um resultado inesperado para os autores deste estudo. O papel da solução Custodiol®-HTK na cirurgia cardíaca em adultos ainda não foi explorado a fundo. Geralmente, os autores que investiga os desfechos subsequentes à cirurgia cardíaca minimamente invasiva utilizando solução Custodiol®- HTK concordam que evitar repetidas infusões pode diminuir o risco de má perfusão coronária devido ao deslocamento do clampeamento endoaórtico (se realizado) e aumentar o conforto do médico cirurgião durante o procedimento. 17-20 Quase todos os pesquisadores que compararam o Custodiol®- HTK com a cardioplegia sanguínea gelada exibiram desfechos clínicos semelhantes para ambas as opções. 5,7,8,17,19 De fato, apenas poucos estudos demonstraramalguns benefícios trazidos por uma ou outra estratégia cardioplégica. Por exemplo, Scrascia et al., 4 relataram valores baixos de troponina I cardíaca para umTPA>160minutos empacientes submetidos à cirurgia da aorta com Custodiol®-HTK. Prathanee et al., 12 criaram um estigma em torno do uso da cardioplegia comCustodiol®-HTK na cirurgia coronária isolada, ao afirmarem que ele levaria a um aumento significativo do risco de fibrilação ventricular após a liberação da pinça da aorta. Contudo, nenhum significado clínico foi correlacionado com esse fato. Muito recentemente, em uma amostra de 362 pacientes submetidos à cirurgia valvar cardíaca (minimamente invasiva ou aberta), Hummel et al., 20 demonstraram desfechos superiores nos pacientes tratados com HTK, em relação à transfusão de sangue, AVC e reinternação em 30 dias após a alta, o que se traduz em uma economia líquida média de aproximadamente US$ 3.000,00 por paciente. Finalmente, desfechos equivalentes entre o uso da solução Custodiol®-HTK e a cardioplegia sanguínea gelada foram observados por Hoyer et al., 11 em 825 amostras de pacientes pareados por escore de propensão, ainda que a cardioplegia sanguínea tenha semostrado benéfica na disfunção ventricular esquerda. Considerando-se que uma dose única de solução Custodiol®-HTK supostamente ofereceria proteção micárdica prolongada, 2,3 ela foi geralmente utilizada durante o período de estudo, na cirurgia coronária, em pacientes com expectativa de cirurgia de longa duração (número elevado de anastomoses coronárias, estreitamento do diâmetro dos vasos coronários, curso intramiocárdico, lesões múltiplas e distais, necessidade de endarterectomia, calcificação coronária difusa, dentre outros fatores). Este fato pode explicar tanto a longa duração da cirurgia e a elevada taxa (cerca de 36%) de pacientes do grupo HTK que foram incluídos no presente estudo. Também é preciso enfatizar que cada anastomose proximal entre a aorta e o enxerto venoso foi realizada durante o pinçamento aórtico. As principais limitações deste estudo unicêntrico foram sua natureza retrospectiva e o fato de os desfechos de uma amostra limitada de pacientes ter sido investigada. Apenas desfechos precoces foram analisados e nem os desfechos pós-operatórios tardios nem os resultados angiográficos foram explorados. Consequentemente, os resultados obtidos não podem ser, de forma alguma, considerados conclusivos e devem ser verificados em populações maiores de pacientes por meio de experimentos randomizados controlados. Conclusões Com base nos resultados do presente estudo, não houve diferenças significativas na proteção miocárdica entre a cardioplegia com Custodiol®-HTK e a cardioplegia sanguínea. 247

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