ABC | Volume 114, Nº3, Março 2020

Artigo de Revisão Oliveira Os Top 10 Artigos Originais Publicados nos ABC Cardiol e RPC em 2019 Arq Bras Cardiol. 2020; 114(3):564-570 do receptor de aldosterona; 77% bloqueadores beta- adrenérgicos; 34% antagonista da aldosterona). Insuficiência cardíaca e miocardiopatias Nos doentes com miocardiopatia hipertrófica (MH), as diretrizes europeias recomendam a avaliação do risco de morte súbita de acordo com o escore ESC-SCD. 21 Contudo, têm surgido várias críticas a esse escore, sendo necessário criar novas formas de estratificação do risco nesses doentes. Ruivo C et al., 22 publicaram na Rev Port Cardiol um estudo interessante baseado nos dados do registro nacional de MH, que inclui 1022 doentes com essa patologia. Após identificação dos principais determinantes de risco de morte súbita, os investigadores construíram um novo modelo de risco designado escore SHIFT, que inclui quatro variáveis: síncope inexplicada, sinais de insuficiência cardíaca, espessura do septo ≥ 19 mm e presença de complexo QRS fragmentado. Nessa população de doentes, o escore SHIFT, que integra parâmetros clínicos, eletrocardiográficos e ecocardiográficos relativamente simples de se avaliar, teve melhor valor preditivo (C-index 0.81) que o escore ESC-SCD. Por isso, no futuro, esse novo escore poderá desempenhar um papel importante para ajudar a selecionar os doentes comMH e indicação para implantação de CDI em prevenção primária. Na área da miocardiopatia dilatada, a Rev Port Cardiol publicou em 2019 um estudo multicêntrico que pretendeu fazer uma caracterização molecular e genética de 107 doentes com cardiomiopatia dilatada. 23 Os investigadores observaram uma grande complexidade e diversidade genética nesses doentes com identificação de 31 variantes genéticas raras em oito genes diferentes, que envolvem sobretudo genes sarcoméricos (MYBPC3, TNNT2 e LMNA). Esse estudo reforça a importância das novas técnicas de análise genômica, sobretudo por técnicas de next-generation sequencing , para ajudar a compreender a etiologia dessa doença. Nos últimos anos, a ressonância cardíaca temdesempenhado um papel crescente na avaliação dos doentes com miocardite, sendo atualmente o exame não invasivo de eleição para o diagnóstico dessa patologia. 24 Num estudo publicado na Rev Port Cardiol em 2019, 25 os investigadores avaliaram o papel da quantificação da deformação miocárdica por tissue tracking como uma medida objetiva de quantificação de função em 78 doentes com miocardite, tendo encontrado correlações significativas de todos os parâmetros de deformação ( strain, strain rate , velocidade e deslocamento) com a FEVE, com as alterações segmentares e a quantidade de realce tardio. Agora o desafio será compreender de que forma esses resultados podem influenciar a abordagem clínica dos doentes commiocardite. 26 A avaliação do risco de cardiotoxicidade dos quimioterapicos da classe das antraciclinas e dos anticorpos monoclonais humanizados é um desafio clínico, que estimula a busca por preditores de alteraço contrátil segmentar ventricular esquerda (ACSVE) que sejam de fácil realização e que permitam reavaliações ao longo do tratamento. Barros et al., 27 estudando 112 pacientes, média de idade de 51,3 ± 12,9 anos, com câncer de mama e tratamento com doxorrubicina e/ou trastuzumabe, realizaram estudo ecocardiográfico para avaliar cardiotoxicidade, que foi definida por decréscimo de 10% na FEVE. A presença de cardiotoxicidade foi observada em 18 (16,1%) pacientes. Na análise multivariada, ACSVE (OR = 6,25 [IC 95%: 1,03; 37,95], p < 0,05), diâmetro sistólico do ventrículo esquerdo (OR = 1,34 [IC 95%: 1,01; 1,79], p < 0,05) e strain longitudinal global pela técnica de speckle tracking (OR = 1,48 [IC 95%: 1,02; 2,12], p < 0,05) foram preditores significativos e independentes de cardiotoxicidade. Os autores concluíram que a ACSVE e preditor independente de cardiotoxicidade e poderá ser útil para detecço precoce da disfunção miocárdica. 27 Cirurgia Cardíaca Em meta-análise de quatro estudos controlados e randomizados que buscava determinar os desfechos clínicos de 1528 pacientes portadores de próteses valvares mecânicas e biológicas, antigas e contemporâneas, seguidos entre 2 e 20 anos, não foram observadas diferenças para os desfechos morte (risco relativo, RR = 1,07; IC95%: 0,99-1,15), embolia arterial sistêmica (RR = 0,93; IC95%: 0,66-1,31) e endocardite infecciosa (RR = 1,21; IC95%: 0,78-1,88) entre os portadores de próteses mecânicas e biológicas. Por outro lado, o risco de sangramento foi um terço menor (RR = 0,64; IC95%: 0,52-0,78) e o número de reoperações (RR = 3,60; IC95%: 2,44-5,32) foi três vezes maior nos pacientes com próteses biológicas. Três estudos incluíram próteses de antiga geração, que apresentaram resultados similares às de nova geração. Os autores salientam a ausência de estudos com as novas gerações de próteses, exortando a realização de estudos que comparem próteses biológicas e mecânicas contemporâneas. 28 Cardiopatias congênitas A gravidez em portadoras de cardiopatia congênita complexa (CCC) tornou-se uma realidade e omanejomaterno- fetal é um desafio clínico atual. Avila et al., 29 estudaram 435 gestantes portadoras de CCC, por um período de 10 anos, que foram incluídas no Registro do Instituto do Coraço (Registro- InCor). Selecionaram 42 gestações em 40 mulheres com CCC (24,5 ± 3,4 anos) que foram desaconselhadas a engravidar. As CCC listadas foram transposição das grandes artérias, atresia pulmonar, atresia tricúspide, ventrículo único, dupla via de saída de ventriculo direito, dupla via de entrada de ventriculo esquerdo, que foram tratadas com cirurgias Rastelli, Fontan, Jatene, Senning, Mustard e outros procedimentos combinados, como tunelizaço, Blalock Taussig e Glenn. Das 40 mulheres com CCC, 8 não foram submetidas a cirurgia e cerca de 48% apresentaram hipoxemia. Apesar do acompanhamento individualizado e frequente, com hospitalização a partir de 28 semanas, a maior parte das gestações, cerca de 60%, apresentou complicaçes maternas ou fetais. Foram relatadas complicações maternas em 31% das gestações, incluindo 2 mortes causadas por hemorragia pos-parto e pre-eclampsia grave, e 7 perdas fetais, 17 bebes prematuros e 2 recem-nascidos com cardiopatia congenita. Os autores reforçaram as orientações vigentes de que, apesar da melhoria no prognóstico das CCC e da necessidade de se respeitar a autonomia da intenço a concepço, as complicações maternas e fetais desaconselham a gravidez, especialmente nas pacientes que apresentam hipoxemia. 568

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