ABC | Volume 114, Nº3, Março 2020

Artigo de Revisão Oliveira Os Top 10 Artigos Originais Publicados nos ABC Cardiol e RPC em 2019 Arq Bras Cardiol. 2020; 114(3):564-570 Doença coronariana crônica e síndromes coronarianas agudas A introdução da angioplastia primária e da via verde coronariana permitiu uma redução marcada da mortalidade por síndrome coronariana aguda (SCA). 10 Contudo, é necessário continuar a melhorar a organização do sistema de angioplastia primária de forma a reduzir os tempos de atraso que são dependentes do sistema. A esse propósito, a Rev Port Cardiol publicou dois estudos relevantes. No primeiro, 11 foram avaliados 1222 doentes com infarto agudo do miocárdio com elevação do segmento ST (IAMcEST), mostrando-se que, em comparação com a orientação direta para o laboratório de hemodinâmica, a transferência inter-hospitalar dos doentes com IAMcEST aumentou de forma significativa o intervalo de tempo até a realização da angioplastia. No segundo estudo, 12 que faz parte da iniciativa Stent for Life, foram analisados os dados de 1340 doentes com IAMcEST admitidos em 18 hospitais portugueses com o objetivo de avaliar os indicadores de performance na população de alto risco, nomeadamente idosos, diabéticos e mulheres. Os investigadores mostraram que os idosos têm tempos de “atraso de doente” e de “atraso de sistema” muito maiores, independentemente do gênero e da presença de diabetes, demonstrando que esse grupo de doentes deve ser um alvo prioritário de novas estratégias de sensibilização da população. No doente com infarto do miocárdio, existem vários escores para estratificação de risco, mas muitos deles são de difícil aplicabilidade no mundo real. Na edição de outubro da Rev Port Cardiol , Monteiro Pinto et al., 13 propõem um novo escore de risco de fácil utilização clínica, intitulado escore KAsH. Esse escore é calculado através de uma fórmula simples = (classe Killip x idade x frequência cardíaca) / pressão arterial sistólica. Num grupo de 1504 doentes consecutivos com infarto do miocárdio, esse novo escore mostrou ter melhor valor preditivo que os atualmente existentes, em especial o escore de GRACE. Sendo muito promissor, é agora necessária sua maior validação em outras coortes de doentes para sua posterior implementação na prática clínica. 14 A síndrome de Takotsubo é um dos diagnósticos diferenciais no doente com suspeita de SCA, sendo uma patologia que tem captado uma atenção crescente. 15 Este ano, foram publicados na Rev Port Cardiol os resultados de um estudo multicêntrico português, que avaliou as características de 234 doentes com esse diagnóstico. 16 Nesse artigo, mostrou-se que, em geral, essa síndrome tem um bom prognóstico a curto e a médio prazo (mortalidade intra-hospitalar de 2,2%), mas que a taxa de complicações intra-hospitalares (nomeadamente insuficiência cardíaca, fibrilação atrial, arritmias ventriculares e AVC) ainda é elevada (33%). Com o objetivo de avaliar a expressão dos fatores transcricionais NF- κ B e Nrf2 e o PPAR β / δ em pacientes com síndrome coronariana crônica (SCC), 35 pacientes com DAC (17 homens, com 62,4 ± 7,55 anos) e 12 sem DAC (5 homens, 63,50 ± 11,46 anos) foram estudados. As células mononucleares do sangue periferico (PBMCs) foram isoladas e processadas para a expressão de mRNA do Nrf2, NF- κ B, NADPH: quinona oxidoredutase 1 (NQO1) e mRNAs do PPAR β / δ por meio de reação em cadeia da polimerase quantitativa em tempo real. Os autores observaram que o PPAR β / δ apresentou maior expressão nas PBMCs de pacientes com DAC comparados ao grupo controle, ao passo que não foram observadas diferenças nas expressões de mRNA do Nrf2 ou do NF- κ B. Tais achados podem indicar possíveis terapias- alvo para pesquisas futuras na SCC. 17 Ainda em relação à SCC, foram estudados 5.526 pacientes obesos sem DAC conhecida, encaminhados para avaliação por CPM-SPECT entre janeiro de 2011 e dezembro de 2016. Os fatores associados a perfusão miocárdica anormal em pacientes obesos sem doença cardíaca isquêmica conhecida, após ajuste para as variáveis relevantes (análise multivariada), foram: idade (2% de aumento no risco para cada ano a mais de idade), diabetes mellitus (57% de aumento no risco em pacientes portadores dessa doença), angina típica (245% de aumento no risco em pacientes com angina típica quando comparados aos assintomáticos), utilização de estresse farmacológico durante o exame (61% de aumento no risco quando comparado ao estresse físico por meio de teste de esforço), menor intensidade do esforço físico avaliado em equivalente metabólico (MET: 10% de redução no risco para cada MET adicional realizado durante o teste de esforço) e fração de ejeção ventricular esquerda (FEVE) após estresse (1% de redução no risco para cada 1% a mais na FEVE). Esses dados corroboram a associação de obesidade e SCC. 18 Arritmias cardíacas e dispositivos A associação entre a fibrilação atrial e o risco de AVC é complexa e multifatorial. Ainda mais desafiante é a compreensão dos mecanismos envolvidos na ocorrência de AVC em doentes submetidos a hipocoagulação. Num estudo muito interessante publicado por Fernandes et al., 19 os investigadores estudaram 60 doentes consecutivos com fibrilação atrial não valvular, medicados cronicamente com anticoagulação oral e que, apesar disso, sofreram um AVC isquêmico. Na grande maioria desses doentes, a ocorrência do AVC parece ser explicada por subdosagem, má adesão terapêutica ou etiologia não cardioembólica e não por ineficácia desses fármacos, já que, em cerca de 90% dos doentes em uso de antagonistas da vitamina K, o INR na admissão era < 2 e, 43% daqueles tratados com anticoagulantes diretos estavam tomando subdosagem. A implantação de cardiodesfibriladores implantáveis (CDI) e de dispositivos de ressincronização ventricular (CRT) permite a redução do risco de morte e hospitalização e uma melhoria da qualidade de vida nos doentes com insuficiência cardíaca com FEVE reduzida. Bonhorst et al. publicaram na Rev Port Cardiol os resultados do estudo Síncrone, 20 que é um registro observacional, multicêntrico e prospetivo realizado em 16 centros portugueses e que incluiu 486 doentes com diagnóstico de insuficiência cardíaca, FEVE < 35% e indicação para implantação de CDI ou CRT. Nesse estudo, a maioria dos doentes tratados com dispositivos tinha uma recomendação de classe I dos guidelines , sendo as taxas de mortalidade com 1 ano baixas (apenas 3,6%), assim como o número de reinternações (11%). Esse estudo ajuda a compreender a realidade do tratamento com dispositivos para insuficiência cardíaca em Portugal, mostrando ainda a necessidade de se melhorar o tratamento farmacológico desses doentes já que as taxas de utilização de medicação foram sub-ótimas (76% inibidor da enzima conversora de angiotensina/antagonista 567

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