ABC | Volume 114, Nº3, Março 2020

Artigo Original Arantes et al. Sal de adição e seu efeito na pressão arterial Arq Bras Cardiol. 2020; 114(3):554-561 Tabela 01 – Caracterização da amostra segundo variáveis sociodemográficas e clínicas, Goiânia, Goiás, 2014, n = 55 Variáveis Normotenso (n = 18) Pré-hipertensos (n = 15) Hipertenso (n = 22) p* Mediana IQ Mediana IQ Mediana IQ Idade 45,0 30-52 46,0 43-54 52,0 41-56 0,08 IMC 25,1 23,5-27,2 27,6 25,7-31,1 28,4 25,6-31,8 0,03 Sexo N % N % N % p † Masculino 09 50,0 11 73,3 12 54,5 0,424 Feminino 09 50,0 04 26,7 10 45,5 *Teste de Kruskal-Wallis; † Teste de Fisher; valor de p significativo < 0,05; IMC: índice de massa corporal (kg/m 2 ); IQ: intervalo interquatil. Fonte: os autores. 18 (32,7%) eramnormotensos (GN), 15 (27,3%) pré‑hipertensos (GPH) e 22 (40,0%) hipertensos (GH). Os grupos eram semelhantes em relação à idade e distribuição por sexo. Houve diferença entre os grupos com relação ao IMC (p = 0,03) (Tabela 1). Não houve diferença nas medidas de pressão central e rigidez arterial entre as visitas V1B e V4 em nenhum dos grupos, entretanto houve uma tendência a redução dos valores centrais da PA tanto sistólica quanto diastólica em todos os grupos de V1B para a V4 (Tabela 2). Não houve diferença entre os grupos quanto ao delta da excreção de sódio (Figura 2). Também não foram identificadas diferenças entre as medidas da V1B e V4 referentes a MRPA, pressão casual e sódio. Entretanto, houve uma tendência de redução da PAS e PAD casual e sódio urinário de V1B para a V4 nos grupos de normotensos e pré-hipertensos (Tabela 3). O sódio urinário correlacionou-se com a PADc e periférica no grupo de hipertensos (Tabela 4). Discussão Em todas as metodologias utilizadas para a avaliação da PAS e PAD, não se observou alterações significativas com a redução gradual do sódio. Havia uma expectativa dos pesquisadores que os valores centrais da PA, por avaliarem o comportamento em artérias mais elásticas, pudesse apresentar uma sensibilidade maior na detecção de pequenas reduções dos níveis tensionais, o que também não ocorreu. Dados da literatura associam a diminuição da ingestão de sal com redução da PA tanto em hipertensos quanto em normotensos e pré-hipertensos e descrevem maior sensibilidade da medida central da PA para detectar essas alterações. Entretanto boa parte dessas publicações interviu ou avaliou reduções principalmente no sal de alimentos industrializados ou o sal total ingerido. 18,19 Em revisão sistemática, uma redução média de 4,4 g de sal/dia diminuiu a PA em normotensos em 2,4 mmHg na PAS e 1,0 mmHg na PAD e em hipertensos 5,4 mmHg na PAS e 2,8 mmHg na PAD. Isso indicou que, para cada grama reduzida por dia de sal, houve uma diminuição de 0,72 mmHg nos valores pressóricos de normotensos e 1,8 mmHg em hipertensos. 18 A diminuição dos valores pressóricos implica em redução de eventos cardiovasculares, inclusive a mortalidade cardiovascular, fato que reforça a importância da adoção de medidas efetivas na redução do consumo de sal. Estudo realizado na Inglaterra, entre 2003 e 2011, avaliou a relação entre a redução da ingestão de sal total com a PA e a mortalidade por acidente vascular cerebral (AVC) e infarto agudo do miocárdio (IAM) e registrou que, a diminuição de 1,4g de sal diária levou a uma redução na PAS de 2,7 mmHg e na PAD de 1,1 mmHg. Desta forma, estimou-se que a redução de 2,7 na PAS mmHg provoca uma redução de 11% de AVC e de 6% de IAM. Isso corresponde a uma redução de mortalidade por AVC em 42% e IAM em 40%. 19 No nosso estudo, as variáveis PPc e Alx75%, também não apresentaram significância estatística em suas reduções. Pelos motivos já descritos anteriormente, como essas variáveis se relacionam com resistência vascular e rigidez arterial, também havia a expectativa de reduções significativas, o que não ocorreu. Da mesma forma, acreditamos que uma intervenção em todo o conteúdo de sal ingerido poderia ter sido exitosa, conforme outras publicações demonstraram. 20 Em estudo realizado compopulação hipertensa sul‑africana, que avaliou a relação da ingestão de sal total a partir da excreção urinária de sódio 24 horas comhemodinâmica central, encontrou correlação com os parâmetros de rigidez arterial: PPc, AIx75%, PASc e pressão arterial média central (PAMC). 20 Estudo realizado na China com hipertensos não tratados, avaliou a associação entre aumento na ingestão de sal, por meio da excreção urinária de 24 horas, com a PAC em três grupos. Grupo A: Excreção média de sódio de 76,9 mmol, Grupo B de 146,6 mmol e no Grupo C de 258,6 mmol, equivalentes respectivamente a 4,7g, 9,6 g e 15,8 g de ingestão de sal por dia. A média de excreção de sódio de todos os indivíduos foi de 166,6 mmol, equivalente a 10,1 g de ingestão de sal por dia. Houve piora progressiva nos parâmetros de rigidez arterial (PASc, PADc e AIx75%) do grupo A para o grupo C. 21 Uma metanálise, que avaliou o efeito da redução na ingestão de sódio em relação a vários desfechos intermediários, dentre eles a PA, identificou que, após 03 semanas, já se observava reduções médias na PAS de 3,39 mmHg e de 1,54 mmHg da PAD. Essa redução foi maior emhipertensos (4,06mmHg de PAS e 2,26mmHg de PAD) que emnormotensos (1,38mmHg de PAS e 0,58 mmHg de PAD). Observou-se ainda que, comparando os grupos com ingestão diária de sal ≥ 2 g/dia versus < 2 g/dia, ou aqueles que reduziram em ≥ 1/3 do consumo diário de sal versus <1/3 desse consumo, os primeiros sempre apresentaram maiores reduções nos valores da PA. 22 557

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