ABC | Volume 114, Nº3, Março 2020
Artigo Original Candemir et al. Fluxo Lento e Imagem por Ressonância Magnética Arq Bras Cardiol. 2020; 114(3):540-551 Introdução Há pouca informação na literatura em relação ao prognóstico do fenômeno do fluxo coronário lento (FCL). Dados preexistentes indicam que a isquemia miocárdica relacionada ao fluxo lento pode causar angina e o prognóstico é pior nesses pacientes. 1 Também relatou-se uma associação entre infarto agudo do miocárdio, 2 morte cardíaca súbita e arritmia ventricular maligna e o FCL. 3 A ocorrência de episódios recorrentes de dor torácica ou dor torácica em repouso, bem como elevadas taxas de internações de emergência e hospitalizações, foram relatadas. 4,5 Desse modo, esse fenômeno não é tão inofensivo como parece mas, ao contrário, possui potencial para causar séria deterioração na qualidade de vida. Não se sabe ao certo atualmente se há lesões orgânicas nesses pacientes, devido à ausência de investigações e resultados mais aprofundados. Os níveis de N-terminal do pró-hormônio do peptídeo natriurético do tipo B (NT-proBNP) aumentaram após o exercício nos pacientes com fluxo coronário lento. 6 Há uma correlação entre a isquemia ou o tamanho do infarto na ressonância magnética (RMI), e essa correlação também pode ser observada nos níveis de NT-proBNP nos pacientes com síndrome coronariana aguda. 7 Com os avanços na ressonância magnética cardíaca (RMC), a isquemia microvascular e a fibrose cardíaca podem ser demonstradas através dessa técnica. 8,9 A relação entre a extensão da fibrose e os níveis de NT-proBNP nesses pacientes já foi revelada em vários exames de RMI realizados em pacientes com síndrome aguda coronariana. 10,11 Entretanto, não há estudos na literatura que tenham avaliado pacientes com FCL para detecção da presença de fibrose no tecido do miocárdio, de acordo com os resultados do realce tardio pelo gadolínio (RTG) na RMC. O objetivo deste estudo foi investigar a presença de fibrose miocárdica em pacientes com fluxo lento na artéria coronária descendente anterior esquerda por meio da técnica do realce tardio pelo gadolínio na RMC, bem como avaliar a relação entre a fibrose miocárdica e os níveis de NT-proBNP. Materiais e Métodos População do Estudo Dentre os pacientes que foram admitidos no nosso departamento entre janeiro de 2015 e agosto de 2016, e submetidos à angiografia coronária devido a dores torácicas, 19 pacientes com o fenômeno do fluxo coronário lento na DAE foram incluídos neste estudo de coorte prospectivo. O grupo controle incluiu dezesseis pacientes cujas artérias epicárdicas estavam completamente normais com fluxo coronário normal. Este estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética do Hospital Universitário de Gazi e conduzido em conformidade com os princípios da declaração de Helsinki. Critérios de Exclusão Os seguintes pacientes foram excluídos do estudo: pacientes com ectasia de artéria coronariana ou lesões ateroscleróticas nas artérias coronárias esquerda e descendente anterior esquerda; pacientes submetidos à intervenção coronária percutânea; pacientes com intervenção da artéria coronária agendada; pacientes com estenose >50% em qualquer artéria coronária; pacientes com história prévia de IM; pacientes com função sistólica do ventrículo esquerdo <50%; pacientes com claustrofobia, insuficiência cardíaca ou disfunção valvar, extra-sístoles ventriculares ou anormalidades da condução atrioventricular e bloqueio de ramo ou fibrilação atrial; pacientes com teste de esforço positivo; pacientes com cardiomiopatias restritiva, hipertrófica ou dilatada; pacientes com doença sistêmica conhecida (hipertireoidismo, hipotireoidismo, malignidade, doença autoimune, infecção ou quaisquer distúrbios pulmonares, hepáticos, renais, hematológicos); pacientes com história prévia de miocardite, com TFG <80 ml/min, e pacientes que se recusaram a participar do estudo. Dados dos Pacientes Foram medidos a altura, o peso e o índice de massa corporal (IMC) dos pacientes do estudo. A idade, o gênero, os fatores de risco cardiovascular (hipertensão, diabetes, dislipidemia, tabagismo e histórico familiar), características demográficas e comorbidades foram registrados. Foi obtido eletrocardiograma (ECG) de todos os pacientes e todos eles apresentaram ritmo sinusal. Todos os pacientes do estudo foram examinados na posição decúbito lateral direita, utilizando um sistema de ultrassom Vivid 7-Pro (GE Vingmed, Horten, Noruega), equipado com um transdutor de 2,5 MHz, através do registro simultâneo pelo ECG de 1 derivação. Medições emmodo-M e Doppler foram realizadas em conformidade com as recomendações da Associação Americana de Ecocardiografia. 12 O teste de esforço foi realizado em média 3 dias antes da angiografia em todos os pacientes (GE medical system, Milwaukee, EUA), de acordo como protocolo padrão de Bruce, sendo o ECG convencional, além das medições da pressão arterial e da frequência cardíaca realizadas em períodos de tempo pré-definidos, conforme dizetrizes relevantes. 13 Foram coletadas amostras de sangue para dosagem de NT-proBNP, através da bainha vascular, imediatamente antes da sua retirada. Após a coleta, elas foram centrifugadas por 10 minutos a 4500 RPM e armazenadas a -20 ºC até a realização dos testes sorológicos. No dia da análise, após as amostras atingirem a temperatura ambiente, um imunoensaio eletroquimioluminescente foi realizado com o Analisador Cobas e 411 (Roche Diagnostics GmbH, Mannheim, Alemanha). Os resultados foram apresentados em picogramas por ml (pg/ml). O coeficiente de variação do NT-proBNP, através desse método, foi inferior a 5%. Angiografia Coronária e Contagem de Quadros TIMI A angiografia coronária foi realizada utilizando-se a técnica padrão de Judkins com acesso femoral e a 30 imagens por segundo, através do sistema de angiografia Infinix (Toshiba Corporation, Tochigi, Japão). A iopromida (Ultravist-370; Bayer Pharma AG, Berlim, Alemanha) foi utilizada como agente de contraste durante a angiografia coronária. Uma média de 6 a 8 ml do agente de contraste foi injetada 541
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