ABC | Volume 114, Nº2, Fevereiro 2020

Minieditorial Abreu Significado clínico das diferenças estatísticas Arq Bras Cardiol. 2020; 114(2):281-283 os desafios técnicos e tempo de seguimento dos pacientes, além de outros fatores não controlados. Ainda, existem variações entre os protocolos usados para se obter e analisar medidas nos traçados eletrocardiográficos. Quando se utiliza somente um registro, fica clara a variabilidade individual do intervalo QTc no período de 24 horas. Contudo, tirar conclusões a partir de medidas obtidas em um só momento acerca de eventos clínicos que geralmente ocorrem anos depois ignora diversos outros fatores comuns nesta população. A observação de que pacientes com intervalo QTc ≥ 440 ms têm maior risco de mortalidade total ou cardiovascular em comparação àqueles com valores menores pode refletir o papel do QTc como marcador de doença cardiovascular ainda subclínica. Nesta análise, nenhum dos sete estudos foi desenhado para testar a hipótese de que o intervalo QTc esteja associado à mortalidade total ou cardiovascular. Assim, fatores de confusão decorrentes de variáveis não coletadas ou desconhecidas podem ter influenciado os resultados em qualquer direção. 10 A dispersão do QT (QTd) é definida como a diferença entre o maior e menor intervalo QT em qualquer das derivações medidas. O baixo número de derivações foi certamente a principal causa da falta de reprodutibilidade repetidamente demonstrada em vários trabalhos que analisam essa medida, tornando difícil estabelecer seu significado clínico principalmente empacientes semdoença cardíaca conhecida. 11 O uso de tecnologias que permitem um maior número de derivações e registros, com tempo prolongado, e análise de vários registros em momentos diferentes é uma tendência em estudos que exploram os períodos de despolarização/ repolarização. Estudo utilizando sistema de mapeamento de superfície ( body surface mapping ), o intervalo QT foi medido em 80 derivações torácicas unipolares, mostrando valores de QTc 415,2+/-4.1 ms emDM1 e 401,4+/-6,6 ms nos controles (NS). 12 O método permite a análise do eletrocardiograma, do vetocardiograma, e o mapeamento da despolarização/ repolarização de forma mais detalhada. 13 A vantagem desse procedimento é sua melhor amostragem espacial, permitido que anormalidades difíceis de serem detectadas e medidas usando-se a abordagem de 12 derivações possam ser mais bem definidas com os eletrodos adicionais. Nos anos 90, em nosso Serviço de Cardiologia do Hospital Federal dos Servidores do Estado, tivemos a oportunidade de utilizar o sistema e colecionar uma amostra de nossos pacientes que foi apresentada em um congresso científico em Karlovy Vary, República Tcheca, país em que o método é bastante utilizado na Charles University em Praga. Deste centro, foi publicada uma importante revisão em 2015 analisando alterações eletrocardiográfica no diabetes, revelando taquicardia, encurtamento de QRS e QT, aumento da dispersão de QT, redução da amplitude de ondas de despolarização, tempo de ativação reduzido do miocárdio ventricular e achatamento das ondas T confirmado pelo menor valor máximo e mínimo nos mapas de repolarização isopotencial da superfície corporal. A maioria dessas alterações é ainda mais pronunciada em pacientes com neuropatia autonômica cardíaca. A comparação com alterações eletrocardiográficas em outras doenças sugere que aquelas presentes nos pacientes com diabetes não são específicas e são causadas por um aumento no tônus do sistema nervoso simpático, o que foi indiretamente confirmado pelos achados de variabilidade da frequência cardíaca nesses pacientes. 14 Como podemos ver, a obtenção de medidas do período despolarização/repolarização tem uma longa história e constantes desafios. Algumas das disparidades nas interpretações dos achados surgem das inconsistências das medidas obtidas. Os inúmeros fatores envolvidos na imprecisão das medidas do QT e suas repercussões como preditores no contexto clínico tornam difícil avaliar o significado de pequenas alterações do QT mesmo quando estatisticamente significativas. Em resumo, com base nessas observações, não podemos afirmar que alterações de despolarização/repolarização estimadas por traçados eletrocardiográficos possam ser utilizadas como preditores de mortalidade e desfechos cardiovasculares na população geral e em diabéticos aparentemente saudáveis. Mais pesquisas são necessárias, que devem incluir novas tecnologias para medidas seriadas desses intervalos e sua aferição por um laboratório central de eletrocardiografia. Tais estudos devem ser delineados especificamente para testar a hipótese de que essas alterações de despolarização/repolarização estão associadas com mortalidade cardiovascular. 282

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