ABC | Volume 114, Nº2, Fevereiro 2020
Minieditorial Significado Clínico das Diferenças Estatísticas Clinical Significance of Statistical Diferences Luiz Maurino Abreu 1, 2 Hospital dos Servidores do Estado, Cardiologia, 1 Rio de Janeiro, RJ – Brasil Estimulocor – Aval Clinica e Cardiológica, 2 Rio de Janeiro, RJ – Brasil Minieditorial referente ao artigo: Avaliação de Variáveis Eletrocardiográficas de Despolarização e Repolarização Ventricular em Diabetes Mellitus Tipo 1 Correspondência: Luiz Maurino Abreu • Estimulocor - Aval Clínica e Cardiológica, Av Ataulfo de Paiva 135/1502, Leblon, Rio de Janeiro – Brasil E-mail: lmaurino@globo.com, lmabreu@cardiol.br Palavras-chave Diabetes Mellitus/complicações; Fatores de Risco; Prevenção e Controle; Arritmias Cardíacas; Eletrocardiografia/ métodos; Interpretação Estatística de Dados. DOI: https://doi.org/10.36660/abc.20200006 Diabetes é uma condição crônica séria que ocorre quando o organismo não consegue produzir insulina (ou o faz em quantidade insuficiente) ou não consegue utilizar a insulina que produz, resultando em níveis elevados de glicose no sangue. O diabetes conhecido como do tipo 1 é causado por um conjunto de fatores genéticos, ambientais e autoimunes afetando as células beta pancreáticas produtoras de insulina. 1 Valores aumentados da glicemia, mesmo abaixo do limiar de diagnóstico de diabetes, estão associados a complicações com grande impacto na morbimortalidade em pessoas com diabetes. 2 Revisões sistemáticas envolvendo 102 estudos prospectivos em diabéticos indicam que o risco relativo de doenças cardiovasculares (DCVs) está entre 1,6 e 2,6, sendo maior em jovens e ligeiramente maior nas mulheres. 3 Dados publicados no recente Atlas da International Diabetes Federation (IDF Atlas) confirmam que o diabetes é uma das maiores emergências em saúde pública do século XXI. Em2019, estima-se que 468 milhões de pessoas tenham diabetes e projeta-se para 2030, 578 milhões e para 2045 o alarmante número de 700 milhões. As estimativas impressionam: 135 milhões de casos acima de 65 anos de idade; mais de 1 milhão de crianças e adolescentes têm diabetes tipo 1; quatro milhões de óbitos relacionados ao diabetes em 2019 entre pessoas de 20 a 79 anos. Todos esses números com uma significativa variação entre as diversas regiões do mundo. 4 A busca de marcadores de risco com o potencial de predizer eventos adversos relacionados com diabetes é constante. O alto risco de mortalidade em indivíduos com diabetes não pode ser completamente explicado somente pelas DCVs ou pelos fatores de risco cardiovascular. 5 Artigo de Inanir et al., 6 neste número dos ABC analisa, de modo retrospectivo, eletrocardiogramas de pacientes portadores de diabetes tipo 1 sem comorbidades e sem qualquer medicação exceto a insulina, acompanhados no ambulatório de endocrinologia do Hospital Universitário da cidade de Bolu, Turquia. Os pacientes foram comparados a um grupo controle de não diabéticos pareados por idade, sexo e índice de massa corporal, ambos os grupos com menos de 45 anos. Os traçados foram analisados por dois cardiologistas cegos para as condições dos pacientes, com foco no período de despolarização/repolarização ventricular com os vários intervalos e suas correções pela frequência cardíaca e relações entre si. Foram calculados os intervalos QT, QTc, QTd, QTdc, Tp-e, JT e as relações Tp-e/QT e Tp-e/QTc. Também foi analisada a correlação dessas variáveis com o tempo de doença e o valor de HgA1c. Os resultados apontaram diferenças estatisticamente significativas entre os dois grupos, com o QTc de 412,9 ± 36 ms versus 384,2 ± 24,6 ms em diabéticos em comparação aos controles, respectivamente (p < 0,001), e correlação com tempo de diabetes e níveis de HgA1c. Existem na literatura vários estudos afirmando que um intervalo QT aumentado representa um gatilho para arritmias ventriculares e até mesmo morte súbita, com valor preditivo para mortalidade por todas as causas em indivíduos diabéticos e indivíduos não diabéticos. Entretanto, o QTc em uma população saudável incluída no Framinghan Heart Study não foi preditivo de morte cardiovascular ou morte súbita cardíaca. Já outro estudo, em idosos saudáveis, QTc > 450 ms em homens e > 470 ms em mulheres foi fator de risco preditivo independente para morte súbita cardíaca. 7,8 OThe PolishNorwegian Study (PONS), comuma amostra de 11 068 participantes com idades entre 45 e 64 anos, distribuídos de acordo com seu status metabólico, mostrou que o intervalo QTc aumentou progressivamente, dos indivíduos com glicemia normal àqueles com tolerância à glicose diminuída, sendo ainda maiores naqueles com diabetes. Os autores concluíram que os resultados sugerem ummetabolismo anormal da glicose afeta a repolarização ventricular independentemente de outros fatores de risco cardiovascular concomitantes ao diabetes. 9 Uma revisão da literatura a partir de 1990 avaliando a associação entre QTc prolongado e risco de mortalidade cardiovascular e morte súbita incluiu sete estudos prospectivos com 36 031 indivíduos, onde 2677 (8,7%) apresentavam um QTc ≥ 440 ms. Nessa revisão qualitativa, não se identificou nenhuma associação definitiva entre o intervalo QTc e mortalidade ou morbidade cardiovascular, exceto, sem muita consistência, naqueles com doença cardiovascular prévia. A falta de coerência dos achados entre os vários subgrupos ressalta a probabilidade que o acaso, vieses e/ou fatores de confusão sejam explicações plausíveis para tais discordâncias. Além disso, o número pequeno da amostra em cada estudo reduz poder, e contribui para a imprecisão das medidas, dados 281
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