ABC | Volume 114, Nº2, Fevereiro 2020
Minieditorial Aterosclerose, Inflamação e Genética – E Você Achava que Era Só Colesterol LDL Atherosclerosis, Inflammation, and Genetics – And you Thought it Was Just LDL-cholesterol Luis Henrique Wolff Gowda k Universidade de São Paulo (USP), Faculdade de Medicina do Hospital das Clínicas do Instituto do Coração (Incor), São Paulo, SP – Brasil Minieditorial referente ao artigo: Relação entre Periodontite, Polimorfismos Genéticos e Doença Arterial Coronariana no Sul do Brasil Correspondência: Luis Henrique Wolff Gowdak • Universidade de São Paulo (USP), Faculdade de Medicina do Hospital das Clínicas do Instituto do Coração (Incor). Av. Dr. Eneas de Carvalho Aguiar, 44. CEP 05466040, São Paulo, SP – Brasil E-mail: luis.gowdak@incor.usp.br Palavras-chave Aterosclerose/fisiopatologia; Inflamação; Doença da Artéria Coronariana/história; Mortalidade &Morbidade; Polimorfismo Genético; Fatores de Risco. DOI: https://doi.org/10.36660/abc.20200038 No desenrolar do século vinte, com base em numerosas observações epidemiológicas e ensaios de intervenção, fatores de risco cardiovascular foram identificados e direcionados com a finalidade de diminuir a carga global de doenças cardiovasculares. Ao longo dos séculos, as mudanças nos padrões alimentares de seres humanos, o declínio progressivo em atividade física e uma elevada prevalência de obesidade – todos sendo fatores que contribuem a taxas alarmantes de diabetes, hipertensão e hipercolesterolemia que vemos na nossa prática diária – nos levaram a supor que doenças relacionadas à aterosclerose (infarto do miocárdio, cardiomiopatia isquêmica, acidente vascular cerebral e doença arterial periférica) são consequências inevitáveis do processo evolucionário que enfrentamos nos tempos atuais. No entanto, devido aos avanços nas técnicas não invasivas de imagem do sistema vascular, lesões ateroscleróticas na aorta e nas artérias coronárias e carótidas também são encontradas em múmias do Egito antigo, 1 cuja idade média estimada no momento da morte era de apenas 45 anos. Se os assimchamados “fatores de risco clássicos” forammenos prevalentes nos tempos antigos, outros fatores não tradicionais devem ter exercido um papel significativo no desenvolvimento e progressão de aterosclerose. 2 Cargas inflamatórias microbianas e parasitárias que provavelmente estavampresentes em culturas antigas, inerentemente semhigienemoderna e antimicrobianos, podem ter provocado um estado inflamatório crônico. Considerando que pacientes com as doenças inflamatórias sistêmicas crônicas de hoje, que incluem infecção pelo vírus da imunodeficiência humana, lúpus eritematoso sistêmico e artrite reumatóide apresentam aterosclerose e eventos coronários precoces, poderíamos supor que a carga inflamatória crônica secundária à infecção resultou em aterosclerose nos tempos antigos? Além disso, a aterosclerose é um processo biológico complexo e multifatorial e, como tal, também está sujeita à interação gene-ambiente; portanto, embora seja inquestionável a contribuição dos fatores de risco clássicos de hoje ao desenvolvimento da aterosclerose, o seu papel no aparecimento de lesões ateroscleróticas na árvore vascular envolve não apenas inflamação e a ativação do sistema imunológico mas também fatores genéticos que facilitam ou se opõem à formação de acúmulos lipídicos na parede arterial. O progresso na biologia celular e molecular permitiu o aprimoramento da nossa compreensão dos mecanismos envolvidos no aparecimento da aterosclerose. As partículas de colesterol LDL desempenham um papel significativo na gênese de placa aterosclerótica na presença de disfunção endotelial, uma característica onipresente em indivíduos com fatores de risco cardiovascular. 3 A proliferação e a migração de células musculares lisas em resposta à liberação de fatores de crescimento e ao acúmulo de fagócitos mononucleares ricos em lipídios derivados do plasma (células espumosas) contribuem ao desenvolvimento de ateroma. 4 Estudos posteriores revelaram que o sistema imunológico exerceu um papel na aterosclerose, não apenas por vias inatas (macrófagos), mas também por vias adaptativas (células T e outros linfócitos). 5 Células diretamente envolvidas na aterosclerose estabelecem uma rede complexa de conversação cruzada pela liberação de citocinas, notadamente interleucina-1. 6 Uma vez reconhecida uma doença inflamatória, um ensaio altamente sensível para amedição da proteína C-reativa (PCRas) provou ser um marcador para pacientes com alto risco de eventos cardiovasculares devido à aterosclerose, bem como uma ferramenta útil na seleção pacientes para controle lipídico agressivo para redução de riscos. No ensaio JUPITER, a terapia com estatinas em pacientes com valores de PCRas acima da mediana da população (> 2 mg/L) mas com nível de colesterol LDL < 130 mg/dL obteve uma redução de 44% nos primeiros eventos cardiovasculares. 7 Mais recentemente, o ensaioCANTOS alocou o anticorpo anti-interleucina-1 (canaquinumabe) a pacientes com síndromes coronárias pós‑agudas estáveis que apresentavam valores de PCRas > 2 mg/L durante terapia com estatinas. 8 Os indivíduos que conseguiram uma redução de PCRas para < 2 mg/L em resposta à terapia anti-inflamatória obtiveram uma redução superior a 30% na mortalidade cardiovascular e por todas as causas. 9 Atualmente, está amplamente aceito que os fatores genéticos também contribuem significativamente ao risco de doença arterial coronariana (DAC), e a herdabilidade da DAC foi estimada entre 40% e 60%. 10 Utilizando estudos de associação ampla do genoma (GWAS), é possível identificar polimorfismos de nucleotídeo único (SNP) comuns, presentes em mais de 5% da população em todo o genoma humano e comparar a frequência alélica de cada SNP em casos e controles. A primeira associação de DAC revelada pela 273
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