ABC | Volume 114, Nº2, Fevereiro 2020

Artigo Original Rocha et al. Relação entre periodontite, polimorfismos e DAC Arq Bras Cardiol. 2020; 114(2):268-272 Introdução Periodontite é uma doença inflamatória crônica, desencadeada por bactérias componentes do biofilme dental, que causa destruição dos tecidos de suporte do dente, 1-3 com alta prevalência em todo mundo. 4 A periodontite estimula por meio do sistema imune, localmente e em sítios distantes, concentrações elevadas de citocinas e proteínas pró-inflamatórias, bem como bacteremia e endotoxemia, em virtude das bactérias que se proliferam nessa região. 5 A doença arterial coronariana (DAC) é uma condição inflamatória crônica, complexa, multifatorial, contínua, formada pelo acúmulo de placas ateromatosas na camada íntima das artérias coronarianas, 6-9 sendo responsável pelas síndromes coronarianas agudas, principal causa de morte no hemisfério ocidental. 6,7 Em geral, as inflamações desempenham um papel muito importante tanto na periodontite como na DAC. Com o intuito de ligar estas duas condições, foram desenvolvidas duas teorias biologicamente plausíveis, com foco nas atuações direta e indireta das bactérias orais presentes na periodontite junto aos mediadores inflamatórios e pró-aterogênicos. 1,2,4,10-14 Com base nas teorias inflamatórias e imunológicas, vários estudos têm sido conduzidos com o objetivo de relacionar essa associação ao fator genético, pela presença de polimorfismos, nos genes que expressam a produção desses fatores e são relacionados à periodontite, como a proteína C-reativa (PCR) e a interleucina 6 (IL-6). 15-19 O polimorfismo de nucleotídio simples (SNP) do gene promotor da IL-6 pode afetar a produção e a expressão dessa citocina, consequentemente, esta alteração nos níveis séricos pode resultar em resposta biológica relevante. 18 Tem sido demonstrada a associação entre a variante SNP -174G > C (rs 1800795) e o aumento do risco de doenças inflamatórias, como a DAC. 17,20 Estudos apontam para o SNP rs 1136804, também representado como 3’ UTR +1444 C > T, como o polimorfismo com maiores associações a DAC. 15,17 As altas incidências de periodontite, o elevado risco de mortalidade da DAC e uma lacuna de trabalhos nesta área motivaram a condução deste estudo buscando evidências da associação entre periodontite e DAC, pela comprovação dos polimorfismos da PCR e IL-6. Métodos A amostra considerou 80 pacientes (idade média 60,5 ± 10,5) que se submeteram a cateterismo cardíaco diagnóstico no laboratório de hemodinâmica do Hospital Universitário da Universidade Federal de Santa Maria (HU-UFSM) no período de 01 de setembro de 2010 até 30 de março de 2011 e que concordaram em participar do experimento assinando o termo de consentimento livre e esclarecido. Foram excluídos da análise os pacientes tabagistas, diabéticos, portadores de doenças autoimunes, aqueles que tinhammenos de dois dentes presentes em um dos sextantes, bem como os que não concordaram em participar do estudo. O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética e Pesquisa do Centro de Pesquisas Odontológicas São Leopoldo Mandic, em 26/11/2014, CAAE: 35879614.7.0000.5374. O exame periodontal foi executado pelo próprio pesquisador, que utilizou o índice periodontal comunitário (IPC) e o índice de perda de inserção periodontal (PIP) preconizados pela Organização Mundial da Saúde. 21 O uso destes índices foram justificados pela imobilização parcial do paciente no leito e o curto espaço de tempo em que o mesmo ficou à disposição do examinador. Pacientes com escore IPC 3 ou 4 e escore PIP acima de 1 foram considerados portadores de periodontite. O DNA foi coletado da saliva por meio de um bochecho com solução de glicose a 3% durante 1 minuto. Em seguida o material foi depositado em tubos de ensaio esterilizados com tampa e congelados a −20°C. 22 O diagnóstico da DAC foi confirmado pelo cateterismo cardíaco, via punção femoral ou radial, realizado pelos médicos do laboratório de hemodinâmica do HU-UFSM. Foram considerados pacientes com DAC aqueles que apresentaram laudo médico positivo para presença de estenose coronariana. Genotipagem As amostras de saliva contaram com DNA coletado por meio de kit de extração de DNA genômico (Norgen Biotek Corp, Canadá). Realizou-se a amplificação dos genes pela reação em cadeia da polimerase utilizando os seguintes pares de iniciadores para a PCR +1444 – forward 5’, AGCTCGTTAACTATGCTGGGGCA-3’, e reverse 5, CTTCTCAGCTCTTGCCTTATGAGT - 3’, com temperatura de anelamento de 60°C; e para o IL-6 -174 – forward 5’, AACCTAATTCTACCCCCCTTGG-3, e reverse 5’, CAGAGGCAGCCGAAGAGTT-3’, com temperatura de anelamento de 59°C. 17 A amplificação ocorreu através de um ciclo de 95°C por 3 minutos, 29 ciclos de 95°C por 1 minuto, com temperatura de anelamento variando conforme citado, por 1 minuto, 72°C por 1 minuto e um ciclo de 72°C por 10 minutos, realizada em termociclador automático. Os resultados da reação em cadeia da polimerase foram digeridos pelas enzimas Sdul (Thermo Fischer Scientific, Massachusetts, USA) para PCR +1444 e HaeIII (Thermo Fischer Scientific, Massachusetts, USA) para IL-6 -174, nas quantidades especificadas pelo fabricante, no processo de polimorfismo de restrição de tamanho de fragmento. Os fragmentos resultantes foram identificados por eletroforese em gel de poliacrilamida a 8% corado por nitrato de prata. As análises genéticas foram executadas em julho de 2017 no laboratório de biologia molecular da Faculdade São Leopoldo Mandic, Campinas, SP. Análise estatística As variáveis foram apresentadas de forma categorizada: a DAC como presente ou ausente; a periodontite como presente ou ausente; a idade como maior ou igual a 60 anos ou menor ou igual a 59 anos; o gênero como masculino ou 269

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