ABC | Volume 114, Nº2, Fevereiro 2020

Artigo Original Fernandes et al. Tendência da insuficiência cardíaca no Brasil subdesenvolvido Arq Bras Cardiol. 2020; 114(2):222-231 taxa de mortalidade por IC na população de 1995 a 2005. 10,19 Nos EUA, Go et al., 20 compararam o número de mortes por IC de 1995 a 2010, e encontraram um decréscimo de 2,8% (287.000 vs. 279.000), o que potencialmente representa uma diminuição significativa na taxa de mortalidade, dado o aumento na população norte americana nesses quinze anos. Nosso estudo relata uma taxamédia demortalidade hospitalar por IC na Paraíba de 9,2% entre 2008 e 2017. Um estudo prospectivo realizado em52 centros de todas as regiões brasileira, somente com pacientes internados por IC, relatou um total de 12,6% mortes em 1.263 pacientes internados. 8 Na América Latina e Caribe, uma metanálise de 37 estudos revelou uma mortalidade hospitalar similar de 11,7%. 10 Nosso estudo mostrou um aumento na taxa de mortalidade hospitalar por IC tanto no estado da Paraíba (65%) como no Brasil (30%) entre 2008 e 2017. Godoy et al., 14 entre 1992‑1993 e 2008-2009, também relataram uma diminuição de 15% na taxa de mortalidade hospitalar que era de 15% no Brasil. Nos EUA, no entanto, a taxa de mortalidade hospitalar diminuiu de 4,5% em 2001 para 2,9% em 2014 segundo estudo que incluiu pacientes comdiagnóstico primário de IC. 13 A diminuição no número de internações por IC durante o período estudado, tanto na Paraíba como no Brasil, é a razão mais provável para o aumento da taxa de mortalidade hospitalar. Outra explicação plausível poderia ser o aumento na sobrevida dos pacientes com IC, levando ao aumento no número de pacientes idosos, com IC mais avançada e muitas comorbidades, resultando em um risco aumentado de morte durante internação. Ainda, é importante considerar a falta de terapias avançadas em áreas pouco desenvolvidas, tais como suporte circulatório mecânico e transplante cardíaco, o que contribuiria para essa tendência de aumento na taxa de mortalidade por IC na Paraíba, Brasil, e na América Latina e Caribe. Apesar do aumento na taxa de mortalidade hospitalar, a mortalidade hospitalar em números absolutos mostrou um decréscimo significativo de 37,5% na Paraíba e 14,6% no Brasil para o mesmo período. Nos EUA, Bueno et al., 21 também observaram uma diminuição de 50% da mortalidade hospitalar por IC na população composta por idosos participantes do programa Medicare entre 1993 e 2008, ao passo que Ni & Xu 22 relataram uma diminuição em 30%. As mulheres representaram53%e 52%damortalidade por IC em números absolutos na Paraíba e no Brasil, respectivamente. A mortalidade hospitalar por IC na Paraíba teve uma proporção demulheres semelhante (50,5%). Nos EUA, em2010, 54,6%de todas as mortes por IC ocorreram em mulheres. 20 Hsich et al., 23 não observaram diferença na mortalidade hospitalar entre mulheres e homens, considerando pacientes com fração de ejeção reduzida e pacientes com fração de ejeção preservada. Entre 2008 e 2017, a duração média de internações por IC foi de 5.9 (±0.8) dias na Paraíba e 6,8 (0,4) dias no Brasil, com um aumento de 44% e 12,3%, respectivamente. Na América Latina e Caribe, Bocchi et al., 2,24 relataram um período médio de internação de 5,8 dias entre 1998 e 2012. Ciapponin et al., 10 relataram uma média de 7 dias em 18 estudos, e Godoy et al., 14 encontraramumaumento de 25%no período de internação, de 8,8 (1992-1993) a 11,3 dias (2008-2009) no Brasil. Nos EUA, dois autores relataramuma diminuição no período de internação por IC, de 8,8 para 6,3 dias (1993‑2008) 21 e de 6,8 (1999-2000) para 6,4 dias (2007-2008). 4 Nos EUA, o custo per capita em saúde foi maior que o produto interno bruto per capita na Paraíba (US$8364,00 e US$3594,94, respectivamente). 24 O status socioeconômico mais baixo na Paraíba pode representar um fator de risco para maior morbidade e mortalidade observada em nosso estudo, já que a população tem acesso limitado a tratamento efetivo para IC. 24 Nos EUA, 52,5% da população com renda familiar menor que 10 000 dólares apresentam doença cardiovascular, 20,25 e Eapen et al. 26 identificaram que uma maior renda associou-se com menor chance de mortalidade 30 dias após internação por IC. Limitações Este é um estudo observacional retrospectivo, e a ausência de dados individuais dos pacientes impediu o estabelecimento de relações entre as variáveis. Uma vez que nossos dados foram derivados de um banco de dados nacional, é possível que haja ocorrido subnotificação ou notificação errônea dos dados. Ainda, uma vez que reinternações não são consideradas no número total de internações por IC, a taxa de mortalidade hospitalar pode ter sido subestimada. Conclusões Este é o primeiro estudo a analisar a epidemiologia da IC na Paraíba, um estado de baixo status socioeconômico no Brasil, e a comparar os resultados com dados nacionais e internacionais. Durante os últimos dez anos, o aumento na taxa de mortalidade hospitalar por IC na Paraíba e no Brasil acompanhou a tendência na América Latina e Caribe, enquanto o aumento na duração da internação por IC difere da diminuição observada nos EUA. Na Paraíba e no Brasil, observamos uma diminuição nas internações por IC como diagnóstico primário bem como no número de mortes por IC, o que também foi descrito na América Latina, Caribe e nos EUA. Mais de 87% das mortes por IC na Paraíba e no Brasil envolveram pacientes com mais de 60 anos de idade. Observou-se uma maior frequência de mulheres admitidas por IC, na Paraíba e no Brasil, com taxas de mortalidades similares em comparação a homens. Uma vez que as mulheres são geralmente pouco representadas nos ensaios clínicos, há necessidade de mais estudos com foco nessa população. Deveriam ser realizados estudos clínicos em hospitais para identificar as causas para a tendência do aumento da taxa de mortalidade hospitalar por IC. Contribuição dos autores Concepção e desenho da pesquisa: Fernandes ADF; Obtenção de dados: Fernandes ADF, Knijnik LM, Fernandes GS; Análise e interpretação dos dados: Fernandes ADF, Fernandes GC, Knijnik LM; Análise estatística: Fernandes ADF, Fernandes GC, Mazza MR; Redação do manuscrito: Fernandes ADF, Fernandes GC, Mazza MR, Knijnik LM, Fernandes GS; Revisão crítica do manuscrito quanto ao conteúdo intelectual importante: Fernandes ADF, Fernandes GC, Mazza MR, Knijnik LM, Vilela AT, Badiye A, Chaparro SV. 230

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