ABC | Volume 114, Nº2, Fevereiro 2020
Minieditorial Teste de Esforço Cardiopulmonar na Avaliação de Candidatos a Transplante Cardíaco com Fibrilação Auricular Cardiopulmonary Exercise Test in the Evaluation of Heart Transplant Candidates with Atrial Fibrillation Miguel Mende s CHLO - Hospital de Santa Cruz, Carnaxide - Portugal Minieditorial referente ao artigo: Previsão Prognóstica dos Parâmetros do Teste de Esforço Cardiopulmonar em Pacientes com Insuficiência Cardíaca e Fibrilação Atrial Correspondência: Miguel Mendes • CHLO - Hospital de Santa Cruz – Cardiologia - Av. Prof. Reynaldo dos Santos, Carnaxide 2790-134 – Portugal E-mail: miguel.mendes.md@gmail.com Palavras-chave Insuficiência Cardíaca; Fibrilação Atrial; Transplante Cardíaco; Seleção de Pacientes; Consumo de Oxigênio; Teste de Esforço. DOI: https://doi.org/10.36660/abc.20200051 Com o objetivo de avaliar se os pontos de corte de dois parâmetros do teste de esforço cardiopulmonar (TECP), utilizados por rotina na seleção de pacientes para transplante cardíaco (TC), também seriam eficientes na presença de fibrilação atrial (FA) permanente ou persistente em pacientes com insuficiência cardíaca com fração de ejeção reduzida (ICFER), Gonçalves et al., 1 nos apresentam, neste número dos Arquivos Brasileiros de Cardiologia, o artigo original “Previsão prognóstica dos parâmetros do teste de esforço cardiopulmonar em pacientes com insuficiência cardíaca e fibrilação atrial”. 1 No âmbito do seu trabalho, os autores avaliaram se foi atingido o endpoint primário do estudo, na presença de duas recomendações das diretrizes da International Society for Heart and Lung Transplantation (ISHLT): 2 (1) consumo de oxigênio de pico de esforço (pVO 2 ) ≤ 12 mL/kg/min (sob terapêutica betabloqueadora [BB]) ou ≤ 14 mL/kg/min (na ausência de BB); e (2) relação entre a ventilação (VE) e a eliminação de dióxido de carbono (VCO 2 ), expressa como inclinação VE/VCO 2 > 35, quando o quociente respiratório durante o esforço for inferior a 1,05. Foram incluídos, nesse estudo, 274 pacientes consecutivos, de um único centro, com fração de ejeção do ventrículo esquerdo (FEVE) < 40%. Todos foram avaliados por TECP. Do total, 51 estavam em FA e 223 em ritmo sinusal (RS). Verificou-se o atingimento do endpoint primário [TC ou morte cardíaca (MC)] em 17,6% dos pacientes com FA e em 8,1% dos pacientes em RS (p < 0,0038). No contexto da FA, o ponto de corte relacionado com a VO 2 (com ou sem BB) teve um excelente comportamento, com valor preditivo positivo (VPP) de 100% e valor preditivo negativo (VPN) de 95,5%. Em contrapartida, o ponto de corte da inclinação VE/VCO 2 revelou VPP de 33,8% e VPN de 92,3%. No grupo de pacientes em RS, os resultados do ponto de corte relacionado com o pVO 2 foram inferiores, com VPP de 38,5% e VPN de 94,3%. Valores semelhantes foram apresentados pelo ponto de corte da inclinação VE/VCO 2 , com VPP de 29,8% e VPN de 98,3%. Os autores concluíram que os pontos de corte atuais estratificam com precisão os pacientes em FA, corroborando a hipótese inicial da sua pesquisa. Este é o primeiro estudo, de nosso conhecimento, que avaliou especificamente a aplicação dos critérios da ISHLT na seleção de pacientes com FA e ICFER para TC. O trabalho é meritório por ter avaliado a aplicação de tais critérios a um grupo que tem dimensão significativa nas clínicas de insuficiência cardíaca (IC). Aplicação clínica das conclusões do estudo As principais conclusões do artigo são as seguintes: 1. Os dois critérios da ISHLT adequaram-se melhor aos pacientes com FA que aos em RS. 2. No contexto da FA, o desempenho do critério VO 2 de pico ≤ 12 ou 14 mL/kg/min, consoante o paciente estar ou não sob medicação betabloqueadora, tem valor muito superior ao da inclinação VE/VCO 2 . 3. Nos pacientes em RS, qualquer dos dois critérios (VO 2 de pico e inclinação VE/VCO 2 > 35) tem VPP baixo (< 40%) e VPN elevado (> 90%). Por este motivo, são mais indicados para identificar os pacientes que não necessitam de TC. Parece lógico que os pacientes em FA, com FEVE < 40%, tenham capacidade funcional inferior à daqueles que estão em RS, porque a FA reduz o débito cardíaco máximo em percentagem não inferior a 25%. Por outro lado, muitos desses pacientes apresentam IC avançada, 3,4 commenor capacidade de extrair oxigênio ao nível muscular, por conta da atrofia muscular da inatividade e da miopatia inerente à IC. Como o pVO 2 se relaciona não só com o débito cardíaco ao nível do esforço máximo, mas também com a capacidade de extração de oxigênio ao nível periférico, é fácil de entender por que apresentam pVO 2 diminuído. Teria sido interessante avaliar também o critério pVO 2 < 50% do máximo previsto em indivíduos com idade inferior a 50 anos ou no gênero feminino, classificado como classe IIa [nível de evidência (NE) B]. O NE deste critério é superior ao do critério inclinação VE/VCO 2 , graduado em classe IIb (NE C). O critério inclinação VE/VCO 2 é indicado pela ISHLT para utilização alternativa, quando não for obtido um quociente respiratório superior a 1,05 no decorrer do período de exercício. 219
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