ABC | Volume 114, Nº2, Fevereiro 2020
Artigo Original Gonçalves et al. Previsão do TECP em pacientes com IC e FA Arq Bras Cardiol. 2020; 114(2):209-218 Introdução A insuficiência cardíaca (IC) e a fibrilação atrial (FA) frequentemente coexistem, 1 com a FA ocorrendo, de acordo com alguns relatos, em mais de 50% dos pacientes com IC e a mesma em mais de um terço dos pacientes com FA. 2 Como a carga de cada uma dessas condições está aumentando, elas foram chamadas de as duas novas epidemias de doenças cardiovasculares (DCV). 3 A presença de FA em pacientes com IC está associada a consequências hemodinâmicas adversas, que podem exacerbar a IC, aumentando a morbidade e a mortalidade. 4-6 O teste de esforço cardiopulmonar (TECP) é um poderoso preditor de mortalidade em pacientes com IC e é utilizado como critério padrão para a necessidade de transplante cardíaco (TC), 7 com pico de consumo de O 2 (pVO 2 ) e a razão entre ventilação e produção de CO 2 (inclinação VE/VCO 2 ) como as ferramentas de avaliação de risco mais utilizadas. 8 Entretanto, há menos informações sobre se os pacientes com IC e FA podem ser estratificados com precisão com os atuais pontos de corte do TECP objetivando a seleção para o TC. Como a combinação de IC e FA resulta em um prognóstico pior, um encaminhamento oportuno para TC ou suporte circulatório mecânico pode ser extraordinariamente importante para reduzir o efeito prognóstico negativo da FA em pacientes com IC. O presente estudo busca comparar a importância prognóstica dos parâmetros do TECP nos pacientes com IC em FA versus aqueles em ritmo sinusal (RS). Métodos A investigação foi realizada em conformidade com os princípios descritos na Declaração de Helsinque. O comitê de ética institucional aprovou o protocolo do estudo. Todos os pacientes forneceram o consentimento informado por escrito. População de pacientes e protocolo de estudo O estudo incluiu uma análise de centro único de 274 pacientes consecutivos com IC encaminhados à nossa instituição com fração de ejeção do ventrículo esquerdo (FEVE) ≤ 40% e classe II ou III da New York Heart Association (NYHA), de 2009 a 2016. Todos os pacientes foram encaminhados para avaliação pela equipe de insuficiência cardíaca e possível indicação para transplante cardíaco ou suporte circulatório mecânico. Pacientes com TC eletivo durante o período de seguimento (pacientes com indicação de TC e o coração ficou disponível no primeiro ano de seguimento) foram excluídos da análise. O seguimento prospectivo incluiu avaliação inicial dentro de um período de um mês em cada paciente com: • Dados clínicos, incluindo etiologia da IC, dispositivos implantados, medicamentos, comorbidades, classe NYHA e escore do Heart Failure Survival Score (HFSS); 9 • Dados laboratoriais; • Dados eletrocardiográficos; • Dados ecocardiográficos; • Dados do CPET. Os pacientes foram excluídos se uma das seguintes condições estivesse presente: • Idade < 18 anos; • Revascularização coronária percutânea planejada ou cirurgia cardíaca; • TC eletivo no período de seguimento; • Comorbidades causando limitações ao exercício (doença cerebrovascular, comprometimento musculoesquelético ou doença vascular periférica grave); • TC anterior. Acompanhamento e endpoint Todos os pacientes foram acompanhados por 12 meses a partir da data de realização dos exames complementares mencionados. O endpoint primário foi composto de morte cardíaca ou TC urgente (ocorrendo durante uma hospitalização não planejada com dependência de inotrópicos devido a piora da IC). Os dados foram obtidos nas consultas ambulatoriais e na revisão dos prontuários, e foram complementados com uma entrevista telefônica padronizada para todos os pacientes aos 12 meses de seguimento. Os endpoints secundários incluíram mortalidade por todas as causas, morte súbita cardíaca e morte por piora da IC. Definição da FA Apenas FA persistente ou permanente foi considerada para a análise. O diagnóstico foi feito através de registro eletrocardiográfico na avaliação inicial. Teste de esforço cardiopulmonar Um TECP máximo em esteira limitado por sintomas foi realizado utilizando o protocolo de Bruce modificado (esteira GE Marquette Series 2000). A análise de gases foi precedida pela calibração do equipamento. A ventilação por minuto, a captação de oxigênio e a produção de dióxido de carbono foram adquiridas respiração-a-respiração, utilizando um analisador de gás SensorMedics Vmax 229. O pVO 2 foi definido como a maior média de 30 segundos alcançada durante o exercício e foi normalizado para a massa corporal. 10 O limiar anaeróbico foi determinado pela combinação dos métodos padrão (inclinação V preferencialmente e equivalentes ventilatórios). A inclinação VE / VCO 2 foi calculada por regressão linear de mínimos quadrados, utilizando dados adquiridos ao longo de todo o exercício. Vários parâmetros compostos do TECP também foram calculados. Os pacientes foram incentivados a realizar exercícios até o quociente respiratório (QR) ser ≥ 1,10. Análise estatística Todas as análises comparam pacientes com FA e pacientes com RS. Os dados foram analisados no software Statistical Package for the Social Science para Windows, versão 24.0 (SPSS Inc, Chicago IL). As características basais foram resumidas como frequências (porcentagens) para variáveis categóricas, como médias e desvios padrão para variáveis 210
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