ABC | Volume 114, Nº2, Fevereiro 2020
Minieditorial Martins Morte por câncer e doença cardiovascular Arq Bras Cardiol. 2020; 114(2):207-208 útero também continuam apresentando elevada morbidade relacionada com infecção. Países com alto desenvolvimento econômico continuam apresentando elevada incidência de câncer de pulmão, colorretal, de mama e próstata. No entanto, as taxas de mortalidade é que são distintas; enquanto há redução do número de mortes por câncer nos países desenvolvidos, há aumento nos não desenvolvidos. As taxas de mortalidade por neoplasias malignas vêm aumentando nos países de baixo nível de desenvolvimento, em virtude de elevação na prevalência de fatores de risco, como aumento do tabagismo, excesso de peso corporal e inatividade física, e melhor tratamento. 7 O artigo “Tendência das Taxas de Mortalidade por Doença Cardiovascular e Câncer entre 2000 e 2015 nas Capitais mais Populosas das Cinco Regiões do Brasil” 8 apresenta importantes conclusões sobre a incidência de câncer e doença cardiovascular em relação ao nível de desenvolvimento dentro do Brasil. Na Inglaterra, por exemplo, a taxa de mortalidade por DCV diminuiu mais que a das mortes por câncer. Em indivíduos com mais de 75 anos de idade, em particular, o impacto dos avanços conquistados em diagnóstico e tratamento sobre a taxa de mortalidade por câncer foi ainda menor. Em 2011, a taxa de mortalidade padronizada por idade para câncer excedeu a de DCV em ambos os sexos, no Reino Unido, muito antes do que é constatado no Brasil. 9 Nos EUA, as taxas de mortalidade por câncer em adultos entre 45 e 64 anos diminuíram19%, de 1999 a 2017, enquanto as taxas demortalidade por doenças cardíacas diminuíram22%, de 1999 a 2011, e depois aumentaram 4% de 2011 a 2017. A taxa de mortalidade por câncer sempre foi maior que a taxa de mortalidade por doenças cardíacas naquele país. 10 Considerações finais O Brasil segue, assim, com sua transformação demográfica e transição epidemiológica. O envelhecimento da população, como já comentado, é uma tendência previsível, permitindo o planejamento da sociedade e das pessoas para esse novo perfil. Como panorama nacional, nosso perfil demográfico já se assemelha ao das grandes nações. A parcela de idosos (maiores que 60 anos) cresce em ritmo mais acelerado que qualquer outra faixa etária no Brasil. No entanto, a transição epidemiológica segue com desigualdades: a parcela de brasileiros que vive em condições de moradia e renda semelhantes às de países desenvolvidos apresenta morbidade e mortalidade também similares às desses países; já o restante da população, que constitui a maior parte dos brasileiros, convive com a pobreza e os escassos recursos na atenção à saúde. Foi demonstrada, recentemente, a correlação entre a variação evolutiva do Produto Interno Bruto (PIB) per capita em municípios do Rio de Janeiro e a redução da mortalidade por doença arterial coronariana. 11 Mais uma vez destaca-se a importância da necessidade de melhores condições de vida para reduzir a mortalidade cardiovascular. Por este e outros motivos, Martins et al., 8 chamam atenção para a necessidade de fragmentar a discussão quanto à tendência de morte no Brasil pela distinção dos perfis encontrados, que correspondem a distintos PIB e indicadores de educação. O grande desafio no Brasil será reconhecer esse novo perfil que se descortina e traçar estratégias direcionadas de acordo com as peculiaridades encontradas, levando à maior promoção de saúde para toda população de forma equânime. 1. World Health Rankings: live longer liver better. [Cited in 2019 Dec 08]. Availablefrom: https://www.worldlifeexpectancy.com/world-health-rankings. 2. Silva Júnior JB, Ramalho WM. Cenário epidemiológico do Brasil em 2033. Uma prospecção sobre as próximas duas décadas. Rio de Janeiro: Fundação Oswaldo Cruz; 2015. [Citado em 12 dezembro de 2019]. Disponível em: https://saudeamanha.fiocruz.br/wp-content/uploads/2016/07/17- PJSSaudeAmanha_Texto0017_A4_07-01-2016.pdf. 3. Reis C, Barbosa L, Pimentel V. Odesafio do envelhecimento populacional na perspectiva sistêmica da saúde. BNDES Setorial. 2016; 44:87-124. [Acesso em 29 novembro de 2019]. Disponível em: https://web.bndes.gov.br/ 4. OrganizaçãoMundialdaSaúde(WHO).OrganizaçãoPan-AmericanadaSaúde (OPAS)-Brasil.10Principaiscausasdemortenomundo.FolhaInformativa.2018. [Citadoem04janeiro2020].Disponívelem:Disponívelem: https://www.paho. org/bra/index.php?option=com_content&view=article&id=5638:10- principais-causas-de-morte-no-mundo&Itemid=0 5. Yusuf S, Joseph P, Rangarajan S, Islam S, Mente A, Hystad A. Modifiable risk factors, cardiovascular disease, and mortality in 155 722 individuals from 21 high-income, middle-income, and low-income countries (PURE): a prospective cohort study. Lancet. 2019 Sep 3. pii: S0140-6736(19)32008-2. 6. Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS)/Brasil. Câncer. Folha Informativa. Setembro 2018. [Citado em 04 janeiro de 2020]. Disponível em: https://www.paho.org/bra/index.php?option=com_content&view=a rticle&id=5588:folha-informativa-cancer&Itemid=1094 7. Torre LA, Siegel RL, Ward EM, Jemal A. Global cancer incidence and mortality rates and trends - an update. Cancer Epidemiology, Biomarkers and Prevention. 2016;25(1):16-27. 8. MartinsWA, Matos R, RosaML, Souza SilvaWD, Souza Filho E, Jorge AJL, et al. Tendência das taxas de mortalidade por doença cardiovascular e cancer entre 2000 e 2015 nas capitais mais populosas das cinco regiões do Brasil. Arq Bras Cardiol. 2020; 114(2):199-206. 9. Wilson L, Bhatnagar P, Townsend N. Comparing trends in mortality from cardiovascular disease and cancer in the United Kingdom, 1983-2013: joinpoint regression analysis. Popul Health Metr. 2017;15 (1):23. 10. Curtin SC. Trends in cancer and heart disease death rates among adults aged 45–64: United States, 1999–2017. National Vital Statistics Reports 2019 May; 68(5):1-8. [Cited in 2010November 12]. Available from: https://www. cdc.gov/nchs/data/nvsr/nvsr68/nvsr68_05-508.pdf 11. Soares GP, Klein CH, Souza e Silva NA, de Oliveira GMM. Evolution of mortality from diseases of the circulatory system and of gross domestic product per capita in the Rio de Janeiro statemunicipalities. Int J Cardiovasc Sci. 2018;31(2):123-32. Referências Este é um artigo de acesso aberto distribuído sob os termos da licença de atribuição pelo Creative Commons 208
Made with FlippingBook
RkJQdWJsaXNoZXIy MjM4Mjg=