ABC | Volume 114, Nº2, Fevereiro 2020
Minieditorial Morte por Câncer e Doença Cardiovascular entre Dois Brasis Death from Cancer and Cardiovascular Disease between Two Brazils Sílvia Marinho Martins 1, 2 Pronto Socorro Cardiológico de Pernambuco (PROCAPE), Ambulatório de Doença de Dhagas e Insuficiência Cardíaca, 1 Recife, PE – Brasil Real Hospital Portugues de Beneficencia em Pernambuco (Realcor), 2 Recife, PE – Brasil Minieditorial referente ao artigo: Tendência das Taxas de Mortalidade por Doença Cardiovascular e Câncer entre 2000 e 2015 nas Capitais mais Populosas das Cinco Regiões do Brasil Correspondência: Sílvia Marinho Martins • Pronto Socorro Cardiológico de Pernambuco (PROCAPE), Ambulatório de Doença de Chagas e Insuficiência Cardíaca. Rua Alvares de Azevedo, 220, Santo Amaro. CEP 50100-040, Recife, PE – Brasil E-mail: s.m.martins@uol.com.br Palavras-chave Doenças Cardiovasculares/mortalidade; Doença da Artéria Coronariana/fisiopatologia; Neoplasias/mortalidade; Epidemiologia. DOI: https://doi.org/10.36660/abc.20200017 Introdução O envelhecimento da população tem-se configurado como uma das principais tendências mundiais nas prospecções de futuro, e o Brasil se firma dentro desse cenário aceleradamente. No entanto, em países como Japão, Suíça e Espanha, a expectativa de vida é estimada emmais de 83 anos; em outros, como Nigéria e Somália, as pessoas vivem, em média apenas até os 55 anos. No Brasil, a expectativa de vida em 2018 foi estimada em71 anos. 1 A relação entre saúde e desenvolvimento é bastante complexa e apresenta inúmeras interações. Tanto a expectativa de vida como as principais causas de morte figuram como indicadores da qualidade de vida de uma região, de um país. Sinalizam sobre estilo de vida (e orientações de mudança adequadas), serviço prestado à comunidade na saúde preventiva e avanços em técnicas diagnósticas. 2 As condições de saúde são influenciadas pelo ambiente socioeconômico, já que indicadores de renda e nível educacional mais elevados traduzem-se em adoção de hábitos de vida mais saudáveis e, naturalmente, acesso a tratamentos mais eficazes. 3 No passado, as doenças transmissíveis representavam a principal causa de morte. Entre os países de baixa renda, em 2016, 52% das mortes foram causadas por doenças transmissíveis, condições decorrentes da gravidez e parto e outras questões relacionadas com déficits nutricionais. Já nos países de renda elevada, essas mesmas causas foram responsáveis por, no máximo, 7% das mortes. 4 Estima‑se que, até 2030, a maioria dos países já tenha realizado a tão proclamada transição epidemiológica e esteja em um perfil de maior prevalência de doenças não transmissíveis. Relação entre desenvolvimento econômico e mortalidade cardiovascular Em2016, entre as 56,9milhões de mortes que ocorreramno mundo, a cardiopatia isquêmica e o acidente vascular encefálico foram os dois principais responsáveis e têm permanecido como as principais causas de morte global nos últimos 15 anos. Ressalta-se, contudo, que as causas de mortalidade variam de acordo com o padrão de riqueza do país. 4 Recente publicação apresenta dados sobre estudo multicêntrico, prospectivo, envolvendo 155.722 participantes de 21 países diferentes, em que foram avaliados fatores de risco e mortalidade por doenças cardiovasculares (DCV). Os países foram estratificados de acordo com seu padrão de desenvolvimento econômico. Foi observado que a maioria das doenças e mortes relacionadas com o sistema cardiovascular pode ser atribuída a pequeno número de fatores modificáveis de risco: alguns com efeito importante, outros variando com o nível econômico do país. O estudo enfatiza, ainda, que as políticas de saúde devem concentrar-se em fatores de risco específicos. Por exemplo, a associação entre baixo nível educacional e doença e morte cardiovasculares foi fortemente identificada em países de baixo e médio desenvolvimento econômico. Em países desenvolvidos, 70% das DCV foram atribuídos a fatores de risco modificáveis (à exceção de poluição ambiental), com importante contribuição de fatores de riscometabólicos e tabagismo. Empaíses não desenvolvidos, 80% das doenças e mortes de etiologia cardiovascular foram atribuídos a fatores de risco modificáveis, com importante contribuição de fatores metabólicos, poluição ambiental e alimentação inadequada. A associação dos níveis educacionais com a morte é até maior que com a riqueza. A educação afeta múltiplas condições de vida desde a infância, incluindo morar e trabalhar em ambientes mais saudáveis, além de maior acesso a serviços de saúde. Reitera-se que, provavelmente, melhorias na educação diminuirão o número de mortes por diferentes condições, indicando que investimentos na área podem trazer amplo benefício para a saúde. 5 Aspectos socioeconômicos da incidência de neoplasias malignas A prevalência do câncer é relevante em todo o mundo. Em 2018, em nível global, uma em cada seis mortes foram relacionadas com esse grupo de doenças. As neoplasias malignas também são responsáveis por aproximadamente 70% das mortes em países de baixa e média renda. 6 Alguns países ocidentais têm conseguido controlar a incidência de determinados tipos de câncer reduzindo a prevalência de fatores de risco clássicos, além de detecção precoce e tratamento adequado. No entanto, neoplasias de pulmão, mama e colo de útero continuam aumentando muito, devido a fatores de risco típicos dos países ocidentais, como tabagismo, obesidade, sedentarismo e alterações dos padrões reprodutivos. Órgãos como estômago, fígado e colo do 207
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