ABC | Volume 114, Nº2, Fevereiro 2020

Artigo Original Martins et al. Mortalidade por doença cardiovascular e câncer Arq Bras Cardiol. 2020; 114(2):199-206 confiança de 95% para cada segmento de tendência. A partir desse software foram calculadas taxas ajustadas de mortalidade para sexo e faixa etária utilizando a população padrão baseada na OMS 2000-2025. Considerou‑se significância estatística o nível de 5%. Resultados A Figura 1 mostra as curvas para a mortalidade por DAC e CA nas cinco capitais estudadas. Observa-se que para todos os grupos e faixas etárias, houve queda das DAC, mais acentuada na mortalidade precoce, especialmente no sexo feminino, em que o CA já é a principal causa de mortalidade. Nas curvas de CA houve uma tendência à estabilidade ou leve aumento na taxa de mortalidade. Na mortalidade tardia, nota-se uma faixa bem ampla na diferença entre a taxa de mortalidade por CA e DAC, em que as DAC têm taxas muito elevadas comparadas àquelas do CA, levando os cruzamentos dessas curvas serem mais tardios em relação à mortalidade precoce. A Tabela 1 apresenta as EAPCs na mortalidade por DAC e CA para as capitais mais populosas das cinco regiões brasileiras entre 2000 e 2015. Entre 2000 e 2015, observou-se uma queda consistente da mortalidade precoce e tardia por DAC, em ambos os gêneros, nas capitais mais populosas, à exceção da mortalidade tardia em homens, na cidade de Manaus. A EAPC para a mortalidade por DAC oscilou de -6,5% para mortalidade precoce emmulheres domunicípio de São Paulo a 0,3%, para a mortalidade precoce emhomens emCuritiba. Tal mudança não foi estatisticamente significativa e, provavelmente, resultou de uma inversão da tendência, com aumento da mortalidade nos dois últimos anos analisados, ou seja, 2014 e 2015. As quedas foram comparáveis entre os gêneros e foi mais acentuada para a mortalidade precoce. É interessante ressaltar que os coeficientes de mortalidade tardia para DAC foram pelo menos dez vezes os coeficientes de mortalidade precoce. Diferentemente do observado para DAC, os coeficientes de mortalidade por CA apresentaram comportamentos peculiares nas regiões, períodos e gêneros. Em geral, houve tendência de queda das taxas de mortalidade por CA em São Paulo e Curitiba em todos os períodos e gêneros. Por outro lado, houve aumento da taxa de mortalidade por CA em todos os períodos emGoiânia. Em Salvador, houve um comportamento misto, caracterizado pela queda na mortalidade precoce em homens e mulheres e incremento na mortalidade tardia em ambos os gêneros. Em Manaus o comportamento fugiu completamente aos padrões. A mortalidade por DAC caiu em todos os períodos, exceto na mortalidade tardia em homens. Por outro lado, mortalidade precoce por CA ultrapassou aquela por DAC em homens e mulheres. Em resumo, observa-se que o determinante da convergência das curvas de mortalidade por DAC e CA é a maior magnitude da queda da mortalidade por DAC. Na Tabela 2, estão dispostos os anos de cruzamento ocorridos ou presumidos das curvas de mortalidade por CA e DAC. Quanto à mortalidade precoce, CA já ocupa o primeiro lugar no sexo masculino emGoiânia e no feminino em todas as capitais estudadas. Já na mortalidade tardia, o cruzamento das curvas ainda não ocorreu em nenhuma das capitais estudadas e só deverá acontecer, mantidas as tendências, a partir de 2026. Na Tabela 3, encontram-se dispostas as três principais causas específicas de mortalidade, estratificadas em precoce e tardia e por gênero, nas cinco capitais mais populosas das regiões brasileiras. Há diferenças entre as cidades, as faixas de idade e gêneros. Discussão Mortalidade por DAC e CA no Brasil em contraste ao contexto mundial No Brasil, a discussão do aumento da mortalidade por CA é mais recente que em países europeus e nos EUA, onde a transição epidemiológica ocorreu antes que no Brasil. Em2005, no Brasil, 32% dos óbitos bem-definidos foram causados por DAC, seguidos de 15% pelo CA. À época, Rosa et al. 19 chamaram a atenção para o provável cruzamento das curvas de mortalidade entre DAC e CA. No Reino Unido, em 2011, as DAC passaram de primeira causa de mortalidade para a segunda posição pela primeira vez desde a metade do século XX; 20 29% das mortes foram causadas por CA, enquanto que 28% delas por DAC. 21 A queda da mortalidade por DAC no Reino Unido se deveu à queda da letalidade por infarto do miocárdio, aumento do tratamento farmacológico e cirúrgico e a diminuição de fatores de risco como o tabagismo. 21-23 Outra situação semelhante à brasileira é a observada nos EUA onde a mortalidade por DAC declinou mais acentuadamente que a por CA. Caso essa tendência continue, CA será o líder como causa de mortes em 2020. 24 Os diferentes estágios do crescimento e desenvolvimento das regiões brasileiras fizeram com que desenhássemos uma análise particularizada, posto ser difícil traçar um retrato fidedigno do Brasil como um todo. A escolha das capitaismais populosas partiu do pressuposto do maior grau de urbanização e interferência dessa na saúde de seus habitantes. De modo geral, no mundo ocidental, o cruzamento das curvas de mortalidade se dá pela queda expressiva da mortalidade por DAC, especialmente nos países de maior desenvolvimento socioeconômico. Tendências gerais das curvas de mortalidade por DAC e CA no Brasil A análise da tendência histórica das curvas de mortalidade por DAC e CA revelaram queda expressiva e sustentada dos óbitos por DAC nas capitais mais populosas de cada uma das cinco regiões brasileiras, com exceção de Manaus. Nessa cidade, a mortalidade tardia por DAC aumentou em homens. Os dados consolidados do Brasil mostram que as DAC continuam como a principal causa de mortalidade, no entanto, analisando particularmente os municípios, o CA já superou as DAC em quase 10% das cidades brasileiras. 25 Os resultados do presente trabalho sugerem dois padrões de tendências que levaram ao agrupamento das cinco capitais em dois subgrupos: no primeiro, São Paulo e Curitiba com padrão mais próximo à realidade dos países desenvolvidos, onde há queda expressiva da mortalidade por DAC e manutenção ou queda discreta da mortalidade por CA. Neste padrão, a convergência das curvas se dá pela magnitude da queda das DAC. No segundo padrão, apresentam-se Goiânia, Salvador e Manaus, onde também houve queda da mortalidade por DAC, porém menos expressiva, contraposta pelo aumento 201

RkJQdWJsaXNoZXIy MjM4Mjg=