ABC | Volume 114, Nº2, Fevereiro 2020

Artigo Original Martins et al. Mortalidade por doença cardiovascular e câncer Arq Bras Cardiol. 2020; 114(2):199-206 Introdução A cardio-oncologia surgiu como nova área de estudo e atuação fruto das inúmeras interações epidemiológicas e clínicas entre as doenças do aparelho circulatório (DAC) e o câncer (CA). Esta inter-relação se sustenta na prevalência dos fatores de risco em comum, no envelhecimento das populações, na evolução das técnicas de diagnóstico e tratamento e nas lesões cardiovasculares secundárias ao tratamento do CA. Entre as questões frequentes em cardio-oncologia, destaca-se qual seria o momento do cruzamento das curvas de mortalidade das DAC e CA no Brasil, com a perda da primazia da primeira. 1 As DAC tornaram-se as principais causas de morte no Brasil, seguidas por CA após o declínio da prevalência das doenças infecciosas. 2,3 Em países mais desenvolvidos, observa-se queda na mortalidade por DAC desde os meados da década de 1960, 4,5 e CA superam as doenças do coração como causa de mortalidade. 6 No Brasil, verificou-se redução na taxa de mortalidade por DAC a partir da década de 1980, para ambos os sexos, mais acentuada nas regiões Sul e Sudeste. 7 Concomitante a essa tendência, os óbitos por CA no Brasil cresceram e passaram da quinta causa de morte em 1980 para a terceira em 2000 e, atualmente, representam a segunda causa de mortalidade. 8 O CA é a principal causa dos óbitos emmetade dos Estados Unidos da América (EUA) e em alguns países da Europa Ocidental e exibe uma íntima relação com o envelhecimento populacional. A queda da mortalidade por DAC é atribuída, em parte, pela melhoria no diagnóstico e tratamento. 9-11 No entanto, DAC e CA possuem complexa relação mediada por inúmeros fatores de risco em comum, como o tabagismo e o etilismo; o sobrepeso e a obesidade; a dieta; o sedentarismo; a hipertensão arterial; e o diabetes mellitus. Também tem relação com hormônios sexuais, insulina, fatores de sinalização de crescimento “insulin-like” e adipocinas, inflamação crônica e estresse oxidativo, que ao serem comuns a ambas, dificultam a compreensão do distanciamento das tendências para os dois grupos de doenças. 12,13 Ainda são escassos os estudos que buscam compreender as relações entre o CA e as DAC na população brasileira. O perfil de morbimortalidade no Brasil tem sido alterado ao longo dos anos. Os processos de transição demográfica e epidemiológica, as diferenças no acesso aos serviços de saúde, as peculiaridades genéticas, entre outros fatores, têm resultado na formação de grupos populacionais regionais com características particulares. 14 A análise das tendências temporais da mortalidade fundamentadas em dados populacionais pode esclarecer melhor o cenário. Este trabalho objetivou comparar a mortalidade precoce e tardia, segundo o gênero, por DAC e CA no período de 2000‑2015 nas capitais mais populosas de cada região brasileira e no Brasil como todo. Métodos Optou-se por estudar as taxas de mortalidade por DAC e CA em cinco capitais dos estados federativos brasileiros, uma por região, tendo como critério de seleção a mais populosa. O Distrito Federal não foi incluído. Foram coletados dados demográficos e de mortalidade junto ao Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Os seguintes municípios foram então incluídos: Manaus (região norte), São Paulo (sudeste), Goiânia (centro-oeste), Curitiba (sul), e Salvador (nordeste). Para definição de mortalidade precoce e tardia, estabeleceu‑se as faixas etárias de 30-69 anos e >70 anos respectivamente, estratificadas por idade, segundo a definição de mortalidade precoce por doença crônica não transmissível adotada pelo Ministério da Saúde e em consonância com as recomendações publicadas na World Population Prospects da Organização das Nações Unidas. 14 O presente estudo utilizou o DATASUS como fonte de dados para a mortalidade de 2000 a 2015 nos capítulos das DAC – capítulo IX da Classificação Internacional das Doenças (CID)-10 – e suas causas específicas dentro do capítulo: Febre reumática aguda e doença reumática crônica do coração (066), Doenças hipertensivas (067), Doenças isquêmicas do coração (068), Infarto agudo do miocárdio (068.1), Outras doenças cardíacas (069), Doenças cerebrovasculares (070), Aterosclerose (071), e Restante de doenças do aparelho circulatório (072). Utilizou-se também mortalidade no capítulo das neoplasias – CID 10 capítulo II – e suas causas específicas dentro do capítulo: Neoplasia maligna do lábio, cavidade oral e faringe (032), Neoplasia maligna de esôfago (033), Neoplasia maligna de estômago (034), Neoplasia maligna de colón, reto e ânus (035), Neoplasia maligna do fígado e vias biliares intra-hepáticas (036), Neoplasia maligna do pâncreas (037), Neoplasia maligna de laringe (038), Neoplasia maligna da traqueia, brônquios e pulmões (039), Neoplasia maligna da pele (040), Neoplasia maligna da mama (041), Neoplasia maligna do colo de útero (042), Neoplasia maligna de corpo e partes não especificadas do útero (043), Neoplasia maligna de ovário (044), Neoplasia maligna da próstata (045), Neoplasia maligna da bexiga (046), Neoplasia maligna da meninge, encéfalo e outras partes do SNC (047), Linfoma não-Hodgkin (048), Mieloma múltiplo e neoplasia maligna de plasmócitos (049), Leucemia (050), Neoplasias in situ , benignas e comportamentos incertos (051), e Restante das neoplasias malignas (052). Os dados foramobtidos dos bancos de dados informatizados dos registros de atestados de óbito do Sistema de Informações sobre Mortalidade (Setor de Estatísticas Vitais) e “Estimativas da população: município, sexo e idade 2000-2015 RIPSA IBGE” (Setor Demográficas e Socioeconômicas). Todas as informações foram coletadas na página do DATASUS. 15 Análise estatística Para avaliar a tendência na mudança percentual anual estimada (EAPC) da taxa da mortalidade por DAC e CA durante o período estudado foi utilizado omodelo de regressão Joinpoint 4.6.0.0 ( National Cancer Institute , Bethesda, Maryland, EUA). 16 Utilizou-se um teste de permutação denominado Monte Carlo para detectar os anos quando houve mudanças significantes na tendência das taxas. 17,18 Além disso, a distribuição de Poisson foi utilizada juntamente com o modelo de regressão Joinpoint. Assumindo tal distribuição, foi selecionado número máximo de dois joinpoints. O programa calcula a mudança percentual anual pelo método paramétrico, com intervalo de 200

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