ABC | Volume 114, Nº2, Fevereiro 2020

Minieditorial Novos Paradigmas na Avaliação da Função Diastólica pela Ressonância Magnética Cardíaca na Valvopatia Aórtica New Paradigms in the Evaluation of Diastolic Function by Cardiac Magnetic Resonance Imaging in Aortic Valvopathy Vera Maria Cury Salemi, 1 Marcelo Dantas Tavares de Melo, 1,2 José de Arimatéia Batista Araujo Filho 1 Instituto do Coração (InCor) do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, 1 São Paulo, SP – Brasil Universidade Federal da Paraíba, 2 João Pessoa, PB – Brasil Minieditorial referente ao artigo: Encurtamento Longitudinal do Ventrículo Esquerdo por Cine-RMC para Avaliação da Função Diastólica em Pacientes com Doença Valvar Aórtica. Correspondência: Vera Maria Cury Salemi • Av. Jandira, 185. apto. 41B, CEP 04080000, São Paulo, SP – Brasil E-mail: verasalemi@uol.com.br . Palavras-chave Ecocardiografia; Estenose Aórtica; Função Diastólica; Ressonância Magnética Cardíaca; Valvopatia Aórtica. DOI: https://doi.org/10.36660/abc.20190903 A análise não invasiva da função diastólica do ventrículo esquerdo é um desafio na prática clínica. A estimativa da constante de tempo do relaxamento isovolumétrico – ou constante de Tau –é o melhor e mais bem estabelecido parâmetro para análise da função diastólica ventricular. Porém, tal medida é realizada de forma invasiva e de aquisição bastante laboriosa. 1 Na prática clínica, dentre todos os exames complementares que podem ser utilizados para avaliação da função diastólica, o ecocardiograma é considerado a ferramenta-chave, validado em relação às curvas de pressão‑volume pelo cateterismo, restringindo a avaliação invasiva para casos excepcionais. 2 Assim, o ecocardiograma permanece como método não invasivo de primeira linha, fornecendo dados de disfunção diastólica precoce por meio de índices que refletem o relaxamento, a complacência e, ainda, medidas indiretas das pressões de enchimento ventricular. As últimas recomendações da avaliação da disfunção diastólica pela ecocardiografia basicamente incluem a análise do ventrículo esquerdo sem alterações estruturais e com fração de ejeção preservada, assim como um fluxograma para os casos de redução da fração de ejeção/alteração estrutural do ventrículo esquerdo. Porém, a classificação do grau de disfunção diastólica e sua aplicação no manejo terapêutico nas valvopatias continua controversa. 3,4 Além disso, a estenose aórtica pode estar associada à calcificação do anel mitral, que pode levar à redução da área do orifício mitral, com aumento da velocidade diastólica transmitral precoce (E). A velocidade do anel mitral lateral tecidual (e’), por sua vez, pode estar reduzida por limitação da excursão da cúspide posterior, o que se traduz em aumento artificial da relação E/e’. Já na insuficiência aórtica, o jato do refluxo aórtico pode interferir no fluxo mitral; quando importante, tal interferência pode levar ao padrão de enchimento ventricular do tipo restritivo. Sendo assim, a acurácia da E/e’ torna-se questionável. 5 O presente estudo propõe a avaliação da função diastólica com base na análise da movimentação longitudinal do ventrículo esquerdo (VE) quantificada pela ressonância magnética cardíaca (RMC). 6 A população do estudo consiste em três grupos, de acordo com o estresse hemodinâmico: estenose aórtica (aumento importante da pós-carga), insuficiência aórtica (aumento consistente da pré-carga), ambas valvopatias comparadas com um grupo saudável. As valvopatias em conjunto formaram um grupo comparativo com o controle. Esse estudo demonstrou, pela análise do movimento longitudinal do VE, que tal movimentação encontrava-se reduzida em pacientes com valvopatia aórtica em relação ao grupo-controle e que, dentre os valvopatas, os pacientes com insuficiência aórtica apresentam valores menores que os dos pacientes com estenose. A RMC é uma atrativa modalidade de imagem, capaz de fornecer dados morfológicos, funcionais, perfusionais e de caracterização tecidual em um único exame, com resolução espacial incontestável. Na avaliação da função diastólica, técnicas recentes têm alcançado resultados encorajadores, especialmente aquelas que se baseiam na avaliação do strain miocárdico por monitoramento de dados ( feature‑tracking ). No entanto, a necessidade de melhorias no pós-processamento de imagem e nos tempos de aquisição, somada à limitada disponibilidade e ao relativo alto custo dos softwares empregados, cerceiam a maior abrangência dessas tecnologias relativamente novas na prática clínica. 7 É nesse contexto que o elegante estudo de Ribeiro et al. 6 se insere e tem sua maior força: no custo-benefício de quatro variáveis obtidas de maneira simples e rápida no plano de quatro câmaras para avaliação indireta da disfunção diastólica, sem necessidade de sequências específicas adicionais ou uso de programas exclusivos. No entanto, antes de propor a incorporação desta técnica à rotina clínica, algumas importantes considerações metodológicas são imperativas. Sabemos que o encurtamento longitudinal do ventrículo medido por RMC é classicamente relacionado com a função sistólica ventricular e, mais recentemente, foi associado também à disfunção diastólica medida pela ecocardiografia, mesmo em pacientes com fração de ejeção preservada. 8-10 Apesar disso, os autores não correlacionaram diretamente as variáveis da movimentação longitudinal ventricular às variáveis eco-Dopplercardiográficas, dados de ampla e disseminada importância na investigação não invasiva da disfunção diastólica, ou às variáveis invasivas para validação dessas medidas. 10 Embora os autores tenham assumido tal fato como uma 293

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