ABC | Volume 114, Nº1, Janeiro 2020

Minieditorial Alencar Efeitos do açaí na lesão de isquemia-reperfusão Arq Bras Cardiol. 2020; 114(1):87-89 global de I/R em corações de ratos, pois ele atua como um agente antioxidante. Aborda-se tambémo fato de que a suplementação com açaí levou a uma atividade maior das enzimas β -hidroxiacil-CoA desidrogenase e citrato sintase, o que pode caracterizar maior oxidação de ácidos graxos. Além disso, houve menor atividade da fosfofrutocinase, a enzima da glicólise. 11 Os autores explicam que a suplementação com açaí alterou a seleção de substratos para oxidação mitocondrial, na reperfusão, de glicose para ácidos graxos, mantendo o metabolismo energético mais próximo de uma situação fisiológica. A esse respeito, percebi uma discussão contraditória dos resultados apresentados, pois os autores defendem que o tratamento com açaí pode ser benéfico ao alterar a produção de ATP da glicólise para a oxidação de ácidos graxos, mas posteriormente, na discussão, eles assumem que a mudança no metabolismo energético que ocorre em situações de estresse têm papel protetor no miocárdio e que a prevenção do uso de glicose induzida pela suplementação com açaí pode ter interferido negativamente nesse mecanismo protetor adaptativo. Finalmente, os autores comentam que a quantidade de açaí ingerida por ratos em seu estudo é equivalente a 600 mg para um ser humano de 60 kg; assumindo que, através dos dados obtidos nesse trabalho, a quantidade de açaí seja viável para a ingestão humana, e extrapolam de forma imprecisa seus achados, quando eles destacam, ao final da discussão, que o açaí pode ser uma estratégia potencial para atenuar a lesão de I/R no cenário clínico. Como pode a dose de açaí, administrada em ratos com lesão cardíaca, que promoveu agravamento da função diastólica, ser adequada para uso humano? Isso foi discutido superficialmente pelos autores quando mencionaram os achados de um trabalho anterior que investigou os efeitos do extrato de antocianina no coração de ratos com lesões de I/R globais, sugerindo que essa substância, presente na composição do açaí, era cardioprotetora em doses baixas mas poderia ser cardiotóxica em doses altas. 12 No entanto, esse tópico da discussão não deixou claro como esse argumento poderia justificar os efeitos da administração de uma ração padrão suplementada com 5% de açaí em ratos, por seis semanas, uma vez que a concentração de antocianinas não foi avaliada no estudo em questão, o tratamento com açaí não promoveu proteção contra lesões de I/R e os autores continuaram propondo que a dose de açaí usada no protocolo experimental poderia ser usada em humanos. Alguns pontos relevantes devem ser considerados, quando experimentos pré-clínicos são desenvolvidos. Isso foi bem discutido por Ibáñez et al., 5 quando abordam a importância de comparar resultados de diferentes modelos de I/R ou até mesmo diferentes laboratórios. A hora do dia em que a lesão cardíaca de I/R é induzida tem uma influência significativa na tolerância do coração a essa lesão. 5 Além disso, a estação do ano e o dia da semana podem influenciar os resultados observados em modelos animais e a resposta de possíveis novas terapias cardioprotetoras. 5 É importante notar que isso também é observado em pacientes, pois o ciclo circadiano influencia vários processos fisiopatológicos cardiovasculares, incluindo a incidência de infarto agudo do miocárdio. 13 Os produtos naturais (ervas) possuem inúmeras substâncias em sua composição. Esses compostos interagem com vários alvos biológicos. Assim, é de extrema importância identificar as associações entre os componentes bioativos das ervas e seus alvos nas células. Muitas substâncias à base de plantas atualmente utilizadas não foram submetidas a avaliações científicas minuciosas e isso pode promover efeitos tóxicos potenciais e graves, devido a possíveis interações medicamentosas e/ou relacionadas à dose administrada. Apesar do importante progresso nas avaliações de ensaios pré-clínicos e clínicos de novos agentes cardioprotetores, é bem reconhecido pelo campo da cardiologia que existe um enorme desafio no desenvolvimento de novos fármacos contra a lesão de I/R, o qual consiste em realizar ensaios maiores de fase III para elucidar as respostas clínicas a essas novas substâncias no contexto de I/R letais. Assim, concordo que valeria a pena o esforço de aperfeiçoar as estratégias terapêuticas já disponíveis, em vez de tentar identificar novos tratamentos para danos ao miocárdio promovidos após um episódio de I/R. 1. 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