ABC | Volume 114, Nº1, Janeiro 2020

Minieditorial Efeitos Antioxidantes do Euterpe Oleracea Mart. (Açaí) na Lesão de Isquemia-Reperfusão do Miocárdio em Ratos: Essa seria uma Boa Abordagem a ser Seguida? Antioxidant Effects of Euterpe Oleracea Mart. (Açai) on Myocardial Ischemia-Reperfusion Injury in Rats: Would it Represent a Good Way To Follow? Allan Kardec Nogueira de Alencar 1 Faculdade de Medicina de Petrópolis (FMP), 1 Petrópolis, RJ – Brasil Minieditorial referente ao artigo: Euterpe Oleracea Mart. (Açaí) Reduz o Estresse Oxidativo e Melhora o Metabolismo Energético da Lesão de Isquemia-Reperfusão Miocárdica Em Ratos Correspondência: Allan Kardec Nogueira de Alencar • Av. Barão do Rio Branco, 1003. CEP 25680-120, Petrópolis, RJ – Brasil E-mail: allankdc@gmail.com Palavras-chave Euterpe Oleracea Mart.; Estresse Oxidativo; Metabolismo Energético; Isquemia/reperfusão miocárdica; Ratos. DOI: https://doi.org/10.36660/abc.20190770 A oclusão abrupta de uma artéria coronária epicárdica pode resultar em infarto agudo do miocárdio com elevação do segmento ST, pois o miocárdio foi submetido a um processo isquêmico. 1 Isso promove danos aos cardiomiócitos, principalmente devido a distúrbios metabólicos na geração de ATP com subsequente morte celular e necrose miocárdica. Além disso, níveis reduzidos de ATP intracelular levam a uma sobrecarga das concentrações citosólicas de Ca 2+ e Na + e comprometimento da função cardíaca. 2 Seria esperado que a restauração do fluxo sanguíneo na área isquêmica do miocárdio diminuísse a lesão, mas a reperfusão também pode induzir danos às células cardíacas, um fenômeno descrito como lesão de isquemia-reperfusão 3 (I/R), o qual contribui para o aumento da área de infarto e disfunção microvascular, sendo algumas vezes letal. 4 A lesão de I/R do miocárdio envolve várias características que potencializam o dano final no coração. Morfologicamente, as lesões de I/R apresentam bandas de contração, cariólise, perturbação das mitocôndrias, ruptura de sarcolema, destruição microvascular, hemorragia intersticial e inflamação. 5 Além disso, no período da reperfusão, uma elevação na produção de espécies reativas de oxigênio (ROS) tem papel importante na extensão da lesão I/R. 6 A cadeia respiratória e as NADPH oxidases, da família NOX, são as principais fontes de ROS que desencadeiam a abertura do poro de permeabilidade mitocondrial, causando danos irreversíveis aos cardiomiócitos. 6 Geralmente, a ruptura do ateroma e a obstrução parcial ou completa de uma artéria coronária epicárdica é seguida de reperfusão espontânea ou intervencionista. Contudo, às vezes a reperfusão pode não ocorrer. 7 Assim, podemos perceber que esses fatores aumentam o tamanho final do infarto e que é complicado reproduzi-los utilizando modelos animais, considerando as vastas diferenças anatômicas e fisiológicas do cenário humano. No entanto, a maior parte do conhecimento atual sobre dano miocárdico induzido por I/R deriva de estudos experimentais em animais, 5 e modelos de roedores com lesão de I/R podem ajudar a esclarecer possíveis mecanismos fisiopatológicos e identificar novos alvos para o tratamento dessa condição clínica. Nesse contexto, modelos de infarto do miocárdio e lesão de I/R em ratos vem investigando, no campo da pesquisa pré-clínica o potencial terapêutico de agentes naturais em inúmeras doenças. O efeito antioxidante observado em alguns componentes de plantas pode ser útil para propor sua aplicabilidade na indução de cardioproteção, e essa característica pode ser, em parte, comprovada pela administração de produtos naturais, por exemplo, em ratos com lesão cardíaca induzida experimentalmente. A Euterpe Oleracea Mart ., popularmente conhecida como “açaí”, é uma fruta amplamente cultivada na região Norte do Brasil, especificamente na Amazônia. Essa fruta roxa foi estudada quimicamente e foram encontradas diversas substâncias antioxidantes em sua composição. 8,9 Além disso, o açaí possui efeitos anti-inflamatórios e vasodilatadores. 9,10 Um trabalho recente foi realizado por Alegre et al., 11 em que os autores abordam que a suplementação com açaí evita a desregulação do metabolismo em um modelo agudo de ratos com lesão miocárdica de I/R. Este estudo mostra que o tratamento preventivo com açaí atenua o estresse oxidativo, mas não diminui a área infartada nem melhora a função ventricular esquerda após uma I/R global. Os autores descreveram um efeito benéfico do açaí apenas no metabolismo das células cardíacas, discutindo que a redução do estresse oxidativo seria seguida por uma melhora na função ventricular esquerda. No entanto, eles observaram que o tratamento com açaí piorou a função diastólica após a I/R, levando-os a inferir que a disfunção cardíaca esquerda depende de outros mecanismos além do dano oxidativo. Além disso, apesar das alterações observadas nas enzimas antioxidantes nesse trabalho, a suplementação com açaí não influenciou a expressão do fator transcricional NF- κ B, Nrf2, SIRT1 e FOXO1, proteínas relacionadas ao estresse oxidativo, regulação da produção de enzimas antioxidantes e equilíbrio celular ao atuar na apoptose, biogênese mitocondrial, inflamação, glicose e metabolismo lipídico. Entendo que esses dados possam ser justificados pelo protocolo utilizado nesse trabalho, pois provavelmente não houve tempo suficiente para a lesão de I/R estimular a transcrição de proteínas. No entanto, na minha opinião, o tratamento preventivo com açaí por seis semanas deveria ter evitado, pelo menos parcialmente, as alterações nos níveis de alguns desses marcadores após lesão 87

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