ABC | Volume 114, Nº1, Janeiro 2020

Ponto de Vista Barberato e Queiroga Ecos da Diretriz de Telecardiologia Arq Bras Cardiol. 2020; 114(1):130-132 Tabela 1 – Potenciais vantagens e desafios para a adoção da tele- ecocardiografia no Brasil Potenciais vantagens Desafios Permitir o acesso ao método em locais remotos Ausência de padronização dos componentes da tele-ecocardiografia e cobertura adequada de internet Diagnóstico precoce e orientação da terapia Incerteza se a qualidade de imagens e acurácia diagnóstica são comparáveis ao método tradicional Potencial otimização de desfechos clínicos Ausência de evidências científicas comprovando impacto sobre desfechos clínicos Redução do custo de transporte de recursos humanos para áreas geograficamente distantes Ausência de evidências científicas comprovando custo-efetividade; dúvidas sobre impacto orçamentário e reembolso do sistema Redução do custo de transporte de pacientes até centros terciários Incertezas quanto à adesão pelos profissionais de saúde locais Redução do número de ecocardiogramas desnecessários Veto da legislação brasileira à atuação de operadores (sonógrafos) não médicos Priorização e organização de listas de espera em sistemas de saúde com disponibilidade limitada de exames e consultas especializadas Ausência de diretrizes para o treinamento de operadores Insegurança médico-legal Ausência de legislação referente à licença, armazenamento de dados, privacidade e confidencialidade àquelas obtidas pelo ecocardiograma convencional, mas o diagnóstico foi confiável em 86% dos casos. 8 Estudo americano mostrou a exequibilidade da aquisição de imagens de ultrassom vascular de carótida por meio de braço robótico e sua transmissão de longa distância pela internet com largura de banda tradicional. 14 Estudo prospectivo randomizado sueco realizado em comunidade rural concluiu que a combinação de teleconsulta cardiológica e tele-ecocardiograma por meio de braço robótico resultou em menor tempo para atendimento e definição do diagnóstico, em comparação à rotina usual de referência ao hospital de especialidades mais próximo. 15 Entretanto, o número de pacientes avaliados foi reduzido (19 em cada grupo), não permitindo inferências a respeito dos desfechos clínicos. A ecocardiografia como modalidade de imagem cardiovascular depende diretamente da aquisição e interpretação adequada de imagens satisfatórias. Não há estudos comparando conclusivamente a qualidade de imagem pela tele-ecocardiografia e a ecocardiografia tradicional. Em paralelo, não existem evidências científicas que concluam que a utilização da tele-ecocardiografia na atenção primária à saúde em locais remotos é capaz de reduzir morbidade e mortalidade na comunidade em comparação ao fluxo de atendimento tradicional. Obviamente, o advento da saúde digital, que engloba o emprego da telemedicina como uma ferramenta complementar útil para permitir equidade de acesso à saúde para todos os brasileiros, é uma novidade desejável no panorama atual. 16 Considerando a dimensão continental do Brasil, poderíamos supor que as populações residentes em áreas remotas seriam beneficiadas pelo investimento do Estado na disseminação da saúde digital. Devemos acolher as mudanças que a transformação digital pode desencadear no exercício da Medicina, especialmente onde a integralidade do acesso à saúde não é contemplada. Entretanto, tais mudanças devem ser apoiadas por base de evidências científicas consistentes que as credenciem como avanço real, evitando o uso inapropriado de novas tecnologias. 17 Existem potenciais vantagens da adoção da tele- ecocardiografia no atendimento público a populações desfavorecidas em locais distantes, porém o método ainda carece de validação científica robusta, com estudos prospectivos controlados, que confirmem os benefícios à saúde dos pacientes. Além disso, é indispensável ampla discussão sobre necessidade de investimento em infraestrutura tecnológica digital, custo-efetividade, impacto orçamentário, regulamentação e segurança jurídica, entre outros desafios e riscos. É importante lembrar que a legislação brasileira: (a) autoriza somente médicos a realizarem e interpretarem ecocardiogramas no país, e (b) reconhece a ecocardiografia como área de atuação da Cardiologia e da Pediatria. É mandatório o debate regulatório que envolva autoridades, conselhos profissionais e sociedades médicas, antes que a tele-ecocardiografia seja incorporada às políticas de saúde pública no Brasil. No âmbito da saúde suplementar, não existe respaldo legal para que indivíduos não médicos, mesmo sob supervisão de médicos, executem ecocardiogramas, e a realização de tele-ecocardiografia por outros profissionais de saúde seria uma prática sem guarida na legislação. 18 Além disso, não existe no momento previsão de reembolso para nenhum dos procedimentos utilizados em Telemedicina, os quais não integram o Rol de Procedimentos e Eventos em Saúde da Agência Nacional de Saúde. A Tabela 1 elenca as potenciais vantagens e desafios para a implantação da tele‑ecocardiografia em nosso país. Contribuição dos autores Concepção e desenho da pesquisa e Revisão crítica do manuscrito quanto ao conteúdo intelectual importante: Barberato SH, Lopes MACQ; Redação do manuscrito: Barberato SH. Potencial conflito de interesses Declaro não haver conflito de interesses pertinentes. Fontes de financiamento Opresente estudo não teve fontes de financiamento externas. Vinculação acadêmica Nãohávinculaçãodesteestudoaprogramasdepós‑graduação. 131

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