ABC | Volume 114, Nº1, Janeiro 2020

Ponto de Vista Ecos da Diretriz de Telecardiologia Echoes of Telecardiology Guideline Silvio Henrique Barberato 1,2,3, 4 e Marcelo Antônio Cartaxo Queiroga Lopes 4, 5 CardioEco Centro de Diagnóstico Cardiovascular, 1 Curitiba, PR - Brasil Quanta Diagnóstico – Ecocardiografia, 2 Curitiba, PR - Brasil Sociedade Brasileira de Cardiologia - Departamento de Imagem Cardiovascular, 3 São Paulo, SP - Brasil Sociedade Brasileira de Cardiologia, 4 Rio de Janeiro, RJ - Brasil Hospital Alberto Urquiza Wanderley, 5 João Pessoa, PB - Brasil Correspondência: Silvio Henrique Barberato • CardioEco Centro de Diagnóstico Cardiovascular - Avenida República Argentina, 1336, conj 215. CEP 80620-010, Curitiba, PR - Brasil E-mail: silviohb@cardiol.br Artigo recebido em 20/10/2019, revisado em 29/10/2019, aceito em 29/10/2019 DOI: https://doi.org/10.36660/abc.20190720 Palavras-chave Doenças Cardiovasculares, Diagnóstico por Imagem, Ecocardiografia/métodos, Telemedicina/tendências, Robótica/ tendências, Capacitação, Interpretação de Imagem Assistida por Computador, Telemonitoramento. A ecocardiografia tem um papel estabelecido no diagnóstico, avaliação prognóstica e orientação terapêutica em diversas doenças cardiovasculares. 1 O grande desenvolvimento tecnológico nas últimas décadas permitiu a digitalização e padronização de imagens médicas (DICOM), miniaturização de equipamentos de ecocardiografia (ultrassom cardíaco portátil) e a transferência de imagens pela Internet. Neste cenário, estratégias de utilização da ecocardiografia associada à telemedicina, denominada tele-ecocardiografia, tem sido empregadas no âmbito da pesquisa clínica com o apoio de teleconsultoria para revisão remota por experts , em tempo real ou após armazenamento e envio das imagens. Em reconhecimento às demandas geradas pela transformação digital ora em curso na saúde, a Sociedade Brasileira de Cardiologia publicou recentemente a Diretriz de Telemedicina em Cardiologia. 2 O documento reconhece a tele-ecocardiografia como estratégia utilizável na detecção precoce de cardiopatia congênita em recém-nascidos e na triagem para detecção precoce de casos subclínicos de cardiopatia reumática em crianças e adolescentes (ambas recomendadas como classe de indicação IIa, nível de evidência B). Além disso, evoca potencial aplicação na atenção primária à saúde, em locais remotos, onde poderia permitir a detecção precoce de casos de cardiopatia e auxiliar na priorização de encaminhamentos para o cuidado especializado (classe de indicação IIb, nível de evidência C). 2 Deve-se ressaltar que tais recomendações são feitas dentro das condições de emprego regular do método no Brasil, o que incluiria a necessidade de médicos nas duas pontas, ou seja, na execução e interpretação do exame. O texto da Diretriz faz ressalva explícita em relação à necessidade de regulação e previsão legal da participação de outros profissionais na realização de procedimentos diagnósticos (no caso, obtenção de imagens ecocardiográficas por não médicos), atualmente não permitida pela legislação do país. Nos últimos anos, a tele-ecocardiografia permitiu estender a aplicação do método para indivíduos em locais geograficamente distantes, como por exemplo, comunidades rurais remotas 3 ou até o espaço. 4 Denomina-se área rural remota aquela na qual 50% da população local necessita de pelo menos 45 a 60 minutos de viagem em veículo automotor para atingir um centro populacional com pelo menos 50 mil habitantes. 2 Diversas situações foram testadas experimentalmente, com o estudo ecocardiográfico focado realizado por médicos não cardiologistas, 5,6 não médicos, 3,7 ou dispositivos robóticos operados à distância, 8 combinado à interpretação remota por cardiologistas ecocardiografistas. Historicamente, o tele-ecocardiograma foi inicialmente empregado em populações pediátricas para descartar cardiopatias congênitas relevantes, com abordagens de transmissão ao vivo ou off line , utilizando diferentes tecnologias e velocidades de transmissão de dados. Em conjunto, esses estudos sugeriram que a tele-ecocardiografia auxilia no diagnóstico emanejo clínico dos pacientes, evitando transportes desnecessários e potencialmente reduzindo custos. 9-12 Mais recentemente, a viabilidade da tele-ecocardiografia para a triagem em massa de cardiopatias em grandes comunidades foi investigada. O tele-ecocardiograma supostamente detectou anormalidades cardíacas significativas em 16% 3 a 35% 7 dos indivíduos, em que pese a clara limitação dos diferentes critérios adotados para a definição de cardiopatia. Por outro lado, dados prévios indicam que a triagem com ecocardiograma focado tende a superestimar a taxa de cardiopatia na comunidade, o que torna imperativa a validação do exame por ecocardiografista experiente para garantir adequado nível de acurácia. 13 Mesmo empregando sonógrafos bem treinados na avaliação ecocardiográfica local, a análise remota do exame por ecocardiografista experiente altera o diagnóstico em aproximadamente um quarto dos estudos, metade dos quais sofrem modificações de grande significância clínica no laudo final. 13 Em geral, a acurácia parece ser aceitável na detecção das valvopatias, embora apenas modesta para os diagnósticos de disfunção sistólica e hipertrofia do ventrículo esquerdo. 3,5 Além da expansão da imagem cardiovascular por meio da telemedicina, alguns investigadores descreveram também a aquisição da imagem por meio da tele-robótica. Estudo francês avaliou 41 indivíduos com valvopatias submetidos ao tele-ecocardiograma por braço robótico operado por ecocardiografista via conexão de internet em um quarto a 10 metros do paciente. 8 A qualidade das imagens foi inferior 130

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