ABC | Volume 114, Nº1, Janeiro 2020

Artigo Original Brianezi et al. Efeitos do treinamento físico sobre o miocárdio Arq Bras Cardiol. 2020; 114(1):100-105 Introdução Durante o processo de envelhecimento, as mulheres na menopausa têm maior risco de desenvolver condições como dislipidemia, hipertensão, resistência à insulina e mudanças na composição corporal, uma vez que o estilo de vida e o sedentarismo estão associados a maior prevalência de desenvolvimento de doenças cardiovasculares (DC). 1,2 O processo de envelhecimento está associado ao aumento do estresse oxidativo, que dá origem a danos em várias macromoléculas celulares, em parte devido à diminuição da capacidade antioxidante, bem como à redução da capacidade de reparação, que acarretam o aumento da susceptibilidade à apoptose. 3,4 Especialmente emmulheres na fase da menopausa, as alterações neuroendócrinas afetam a funcionalidade, a capacidade metabólica e a atividade antioxidante de vários órgãos, principalmente em decorrência da falta de estrogênio, que é considerado um antioxidante feminino, causando aumento adicional do estresse oxidativo. 5 O metabolismo lipídico também é influenciado por alterações fisiológicas durante a menopausa, resultando em aumento do LDL e diminuição da HDL, o que contribui para o surgimento de doenças cardiovasculares. 6,7 Em relação aos homens da mesma idade, as mulheres pós-menopáusicas apresentam maior risco de desenvolver doença cardíaca, 8,9 que constitui uma das principais causas de morbidade e mortalidade neste estágio fisiológico. 10 A atividade física regular alivia os efeitos do envelhecimento e da menopausa e melhora a aptidão aeróbica, além de manter o índice de peso corporal de gordura visceral, os níveis plasmáticos de lipídios, o aumento da sensibilidade à insulina, o aumento da sensibilidade barorreflexa, a melhora da função endotelial, o estresse de cisalhamento na parede vascular, resultando no aumento do fluxo sanguíneo e estimulando a liberação de óxido nítrico. 11-13 Esses fatores promovem uma melhor qualidade de vida relacionada à saúde, prolongam a sobrevivência e podem ser considerados padrões não farmacológicos essenciais para o tratamento dos efeitos da pós-menopausa e de outras condições fisiológicas e patológicas. 14,15 O objetivo deste estudo é analisar os efeitos do treinamento físico aeróbico sobre o ventrículo esquerdo de camundongos fêmeas ovariectomizadas selvagens e LDLr knockout, tendo como base os seguintes parâmetros: densidade de volume de fibras colágenas tipo I e III, expressão das metaloproteinases 2 e 9, além da expressão de COX 2 e 8–OhdG. Métodos Animais Foram utilizados trinta camundongos fêmeas, com 10 meses de idade: 15 camundongos fêmeas geneticamente modificados, com nocaute do receptor de lipoproteínas de baixa densidade (LDLr Knockout), e 15 camundongos fêmeas selvagens (C57BL/6J), obtidos no biotério da Universidade de São Paulo. Os animais foram mantidos no biotério da USJT em temperatura (22-24 °C) e iluminação controlada (12 horas de luz e 12 horas de escuridão) recebendo alimentação comercial ((NUVILAB CR1, Nuvital Nutrients LTDA, Curitiba, PR) e água "ad libitum". Os animais foram divididos em 6 grupos (n=5): controle sedentário não‑ovariectomizado (CS), controle ovariectomizado sedentário (COS), controle ovariectomizado treinado (COT); LDLr Knockout não sedentário ovariectomizado (LDLr-S), LDLr Knockout ovariectomizado sedentário (LDLr-OS) e LDLr Knockout ovariectomizado treinado (LDLr-OT). Os animais foram categorizados por conveniência. Oprotocolo experimental foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade São Judas Tadeu (CEP-Protocolo: 058/2007) e a pesquisa foi conduzida como indicado pelos Princípios de cuidados com animais de laboratório publicados pelos Institutos Nacionais de Saúde. Ovariectomia Aos nove meses de idade, os animais foram submetidos ao procedimento da ovariectomia. Eles foram anestesiados com uma solução de ketamina e xilazina (120:20 mg/Kg, im) e colocados em posição supina e uma pequena incisão foi feita no terço inferior da região abdominal, paralelamente à linha do corpo. Os ovários, os cornos uterinos e vasos sanguíneos foram localizados, seccionados e removidos. Em seguida, a musculatura e a pele foram suturadas. A confirmação da eficácia da ovariectomia foi determinada através da colpocitologia da secreção vaginal realizada durante quatro dias consecutivos. No último dia de análise, a eutanásia foi realizada nesses animais. 16 Protocolo de Treinamento Teste de treinamento máximo Um teste de treinamento máximo foi realizado em todos os grupos no início e no final do programa de treinamento de exercícios. O teste consiste em colocar o animal em uma esteira ergométrica a 0,3 km/h por 3 minutos, e essa carga de trabalho era aumentada em 0,3 km/h a cada 3 minutos, até que o animal atingisse o esgotamento. O tempo do teste e a velocidade da última carga de trabalho foram observados e usados para determinar o valor médio da capacidade aeróbica de cada grupo. Treinamento de exercícios O treinamento de exercícios começou 7 dias depois da cirurgia de ovariectomia. Os grupos treinados foram submetidos a um protocolo de treinamento físico em uma esteira ergométrica com baixa intensidade moderada (≈50% a 70% de velocidade máxima) durante 1 hora por dia, 5 dias por semana, por 4 semanas, com aumento gradual da velocidade de 0,3 a 1,2 km/h. Os animais foram adaptados à esteira durante 10 minutos nos três dias que precederam o início dos treinamentos. Eutanásia e preparação dos tecidos No final do treinamento os animais foram sacrificados por decapitação. Uma toracotomia foi realizada, através da qual o coração e os átrios foram removidos, e os ventrículos 101

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