ABC | Volume 113, Nº4, Outubro 2019

Relato de Caso Miocardite após Coinfecção Recente por Vírus da Dengue e Chikungunya: Relato de Caso Myocarditis Following Recent Chikungunya and Dengue Virus Coinfection: A Case Report Luís Arthur Brasil Gadelha Farias, 1 Francisca Lillyan Christyan Nunes Beserra, 1 Lucas Fernandes, 1 Anderson Alesxander Rodrigues Teixeira, 1 Juliana Mandato Ferragut, 2 Evelyne Santana Girão, 3 Roberto da Justa Pires Neto 3,4 Universidade Federal do Ceará (UFC) - Faculdade de Medicina, 1 Fortaleza, CE – Brasil Hospital São Carlos - Terapia Intensiva, 2 Fortaleza, CE – Brasil Hospital São José de Doenças Infecciosas, 3 Fortaleza, CE – Brasil Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Ceará - Departamento de Saúde Comunitária, 4 Fortaleza, CE – Brasil Correspondência: Luís Arthur Brasil Gadelha Farias • Universidade Federal do Ceará (UFC) - Faculdade de Medicina - Rua Juazeiro do Norte, CEP 60165-110, Meireles, Fortaleza, CE – Brasil E-mail: luisarthurbrasilk@hotmail.com Artigo recebido em 30/06/2018, revisado em 06/10/2018, aceito em 17/10/2018 Palavras-chave Miocardite; Infecção Mista; Dengue; Virus Cikunnya. DOI: 10.5935/abc.20190187 Introdução O vírus da dengue (DENV) e o vírus da Chikungunya (CHIKV) são arbovírus que causam epidemias contínuas em vários países da América Latina. O DENV pertence à família Flaviviridae e CHIKV é um alphavirus da família Togaviridae . Ambos os vírus são transmitidos por mosquitos do gênero Aedes (principalmente Aedes aegypti e Aedes albopictus ) e, durante a fase aguda, podem causar síndromes febris inespecíficas semelhantes, que podem evoluir para quadros graves ou debilitantes. 1,2 A infecção por DENV é endêmica no Brasil desde os anos 80. No entanto, o CHIKV é um agente emergente. A transmissão autóctone foi detectada pela primeira vez em setembro de 2014 na cidade de Oiapoque, no estado do Amapá. Desde então, houve milhares de casos autóctones no país. 3 Um total de 38.499 e 277.882 casos de suspeita de infecção por CHIKV foram relatados no sistema nacional de vigilância em 2015 e 2016, respectivamente. Em 2017, foram notificados 185.369 casos suspeitos até 9 de dezembro. O estado do Ceará (1.271 casos/100.000 habitantes) e o estado de Roraima (789 casos/100.000 habitantes) têm a maior incidência entre os estados da Federação Brasileira. 4 Coinfecções com esses dois vírus têm sido relatadas e o efeito global no coração ainda é desconhecido. 5-7 Existem alguns relatos de miopericardite após infecção por DENV e CHIKV, mas essa manifestação em pacientes coinfectados é rara, sendo poucos os dados disponíveis. 8-10 O objetivo deste relato é apresentar o caso de um jovem imunocompetente com miocardite após uma recente coinfecção por DENV e CHIKV. Discutimos o curso clínico e as anormalidades laboratoriais dessa condição rara, juntamente com o seu manejo bem-sucedido em um centro especializado em doenças infecciosas, destacando a importância de estar ciente dessa condição em países em desenvolvimento endêmicos para DENV e CHIKV. Relato de caso Paciente do sexo masculino, 28 anos, residente em Fortaleza, Ceará, internado no pronto-socorro do Hospital São José de Doenças Infecciosas em maio de 2017. Os sintomas começaram 5 dias antes da internação, com febre, adinamia, mialgia e agravamento do estado geral. Ele negou ter dor retro-orbital, fenômenos hemorrágicos ou dor abdominal. O paciente não havia tomado medicamentos no último ano e não havia viajado para fora do Brasil. Não havia histórico prévio de cardiopatias. No exame inicial, o escore na Escala de Coma de Glasgow (GCS) do paciente foi E4 V5M6. Ele apresentava uma frequência cardíaca de 120 batimentos por minuto e tinha hipotensão (70/40 mm de Hg). Não havia sopro cardíaco ou atrito pericárdico, e o exame pulmonar nãomostrou alterações. A pele não apresentava erupções e não havia petéquias ou icterícia. O eletrocardiograma (ECG) mostrou taquicardia supraventricular (230 bpm) não responsiva à adenosina endovenosa. Uma cardioversão elétrica foi realizada, restaurando com sucesso o ritmo cardíaco normal. Um novo ECG foi realizado mostrando elevação do segmento ST com concavidade superior e depressão do segmento PR emDII, DIII e aVF, bem como depressão do segmento ST em V1 e aVR. Em seguida o paciente foi internado em uma unidade de terapia intensiva. Seus parâmetros laboratoriais são descritos na Tabela 1. Um primeiro ecocardiograma transtorácico revelou uma fração de ejeção (FE) do ventrículo esquerdo alterada (43%), hipercontratilidade ventricular esquerda e derrame pericárdico e pleural bilateral leve (Figura 1). Após 5 dias, foi realizado novo ecocardiograma, revelando FE de 36,4%, hipocinesia difusa e derrame pericárdico moderado. A administração IV de Dobutamina (2,9 mcg/Kg/min) foi iniciada e mantida por 4 dias, junto com uma dose única IV de 400 mg de hidrocortisona. Tratamentos com imunoglobulina IV ou colchicina não foram considerados. Hemoculturas pareadas foram negativas para agentes piogênicos. Antibióticos não foram utilizados. As sorologias para o vírus Coxsackie, rubéola, doença de Chagas, vírus da imunodeficiência humana, citomegalovírus, vírus de Epstein-Barr (EBV), toxoplasmose, vírus da hepatite B e vírus da hepatite C foram negativas. As amostras de soro do paciente foram testadas e os resultados foram ELISA-IgM positivo e ELISA-IgG positivo para DENV e ELISA-IgM positivo para CHIKV. O teste do antígeno DENV NS1 apresentou resultado negativo. Houve uma boa resposta à terapia e o 783

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