ABC | Volume 113, Nº1, Julho 2019

Artigo Original Sincer et al Volume médio plaquetário, fístula da artéria coronária Arq Bras Cardiol. 2019; 113(1):71-76 Introdução A fístula da artéria coronária (FAC) é uma conexão anormal que liga a artéria coronária a uma câmara cardíaca ou outro vaso sanguíneo principal. 1 No primeiro caso, embora a FAC geralmente seja congênita, o desenvolvimento e a disseminação de técnicas intervencionistas e cirúrgicas ao longo dos anos, com maior prevalência das formas adquiridas, levou a uma mudança na etiologia. 2 A FAC é frequentemente identificada incidentalmente na angiografia diagnóstica. Muito raramente, a isquemia pode ocorrer devido ao aumento da demanda miocárdica de oxigênio, apresentando-se com angina ou dispneia durante o esforço. A incidência exata da FAC não é certa, já que a taxa de subdiagnóstico é alta. No entanto, vários estudos relataram a presença de FAC em 0,13 a 0,22% dos adultos submetidos à angiografia coronária. 3 Cerca de 75% das FAC encontradas incidentalmente são pequenas e clinicamente silenciosas. Até 90% de todas as FAC são únicas, e as fístulas múltiplas estão presentes em 10,7–16% dos casos. 4 As fístulas da artéria coronária surgem mais comumente na artéria coronária direita (%50–60%) e frequentemente drenam para o lado direito do coração (80%). 1 Uma fístula entre uma artéria coronária e uma estrutura cardíaca do lado direito apresenta um fluxo contínuo da vasculatura coronariana para a câmara direita de baixa pressão. Quando o local de drenagem está localizado no átrio esquerdo ou na veia pulmonar, efetivamente ocorre um shunt esquerdo‑esquerdo que determina uma sobrecarga de volume somente no lado esquerdo do coração. Essa sobrecarga de volume pode levar à disfunção endotelial. No caso de uma FAC de grande calibre, o fenômeno do roubo coronário pode desempenhar um papel na isquemia miocárdica. 5 Diversos estudos mostraram a associação entre o volume plaquetário médio (VPM) e doenças cardiovasculares. 6,7 Na literatura, não há estudo anterior sobre a relação entre os parâmetros hematológicos e as fístulas coronarianas congênitas. Por esse motivo, nosso objetivo foi investigar a relação do VPM com a FAC. Métodos Os dados angiográficos dos pacientes submetidos à angiografia coronária (AGC) entre fevereiro de 2014 e março de 2018 foram analisados retrospectivamente. Um total de 120 pacientes foi incluído: 70 pacientes com artérias coronárias normais e 50 com FAC sem estenose crítica associada. A angiografia coronária foi realizada devido a alterações isquêmicas no ECG, teste de esforço positivo ou cintilografia de perfusão miocárdica para isquemia. Os achados clínicos e laboratoriais foram obtidos a partir da revisão dos prontuários dos pacientes. A hipertensão foi definida no caso de pressão arterial > 140/90 mmHg ou o fato de o paciente receber medicação anti-hipertensiva. A diabetes mellitus foi definida no caso de nível de glicose em jejum > 126 mg/dL ou o fato de o paciente receber medicação antidiabética. A presença de colesterol total > 200 mg/dL ou triglicérides > 150 mg/dL foi considerada como hiperlipidemia. Foram excluídos os pacientes com histórico de síndrome coronariana aguda nos últimos 6 meses, histórico de implante de stent coronariano ou cirurgia de revascularização miocárdica, cardiomiopatia hipertrófica ou dilatada idiopática, insuficiência cardíaca congestiva, insuficiência renal moderada a grave, disfunção hepática grave, fibrilação atrial, valvopatia grave, doenças inflamatórias sistêmicas (por exemplo, artrite reumatoide, lúpus eritematoso), malignidade, histórico de transfusão sanguínea nos últimos 3 meses, infecção recente (1 mês), leucemia ou trombocitopenia. O conselho institucional local aprovou o estudo. Amostras de sangue venoso periférico foram retiradas dos pacientes admitidos para angiografia ou durante exames regulares de seguimento. Glicose sérica, creatinina, colesterol total, lipoproteína de alta densidade e lipoproteína de baixa densidade forammedidos utilizando um analisador bioquímico automático (Architect C8000, EUA). O hemograma completo e o volume das plaquetas foramdeterminados utilizandomedidas simultâneas óticas e de impedância (Cell Dyn 3700; Abbott Diagnostics, Lake Forest, Illinois, EUA). Foram registados os valores de plaquetas, linfócitos, monócitos, glóbulos brancos (WBC) e VPM para cada paciente. As angiografias coronárias foram realizadas através da artéria radial ou femoral e foram avaliadas por três cardiologistas intervencionistas que desconheciam os dados clínicos e laboratoriais dos pacientes. Foram analisados a localização da fístula, o local da drenagem e o formato da fístula. As análises estatísticas foram realizadas com o programa SPSS 18.0 Statistical Package for Windows (SPSS Inc., Chicago, Illinois, EUA). A distribuição das variáveis nos grupos de estudo foi analisada pelo teste de Kolmogorov-Smirnov. As variáveis com distribuição normal foram comparadas pelo teste t e expressas como média ± desvio padrão. As variáveis sem distribuição normal foram comparadas com o teste U de Mann Whitney e expressas como mediana (intervalo interquartil). As variáveis qualitativas foram expressas em números e porcentagens. As diferenças entre os grupos independentes foram avaliadas pelo teste t de Student para variáveis quantitativas normalmente distribuídas, e teste U de Mann-Whitney para variáveis sem distribuição normal, enquanto o teste de qui-quadrado foi utilizado para variáveis qualitativas. O teste de correlação de Pearson foi utilizado para avaliar as correlações do VPM com a presença de FAC. A análise univariada foi utilizada para revelar a associação de variáveis com a presença de FAC. Posteriormente, para determinar os fatores prognósticos independentes da FAC, foi utilizado o modelo de regressão logística multivariada com o método stepwise-forward , com variáveis que foram consideradas significativas na análise univariada. A análise da Característica de Operação do Receptor (ROC, Receiver Operating Characteristic ) foi realizada para encontrar a sensibilidade e especificidade do VPM com o objetivo de prever a presença de fístulas coronarianas. Todos os resultados foram considerados estatisticamente significativos para p < 0,05. Resultados Os dados demográficos basais dos pacientes, incluindo idade e fatores de risco clínicos, foram semelhantes entre os 72

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