ABC | Volume 113, Nº1, Julho 2019
Artigo Original Faganello et al O perfil do cardiologista brasileiro Arq Bras Cardiol. 2019; 113(1):62-68 encontrada em outras especialidades, como pneumologia e nefrologia. Apesar de o questionário aplicado no estudo não ter incluído critérios específicos para o diagnóstico de burnout , os dados sugerem que existem importantes diferenças entre brasileiros e norte-americanos quanto à percepção do estresse na atividade profissional, e características socioculturais podem estar associadas a essa diferença. Outro aspecto a ser considerado é a taxa relativamente baixa de processos médicos ou judiciais entre os cardiologistas brasileiros. Conforme publicado em 2014, no American Heart Journal , 11 a porcentagem anual de cardiologistas norte-americanos enfrentando processos médico-judiciais é de 8,6%, com uma taxa de condenação de 1% ao ano. Somente 0,3% dos cardiologistas brasileiros relataram ter sido condenados em processos médicos ou judiciais. A prática de atividade física apresenta comprovados benefícios cardiovasculares e deve ser incentivada aos pacientes. Nessa pesquisa, porém, observou-se que 31% dos cardiologistas afirmam não praticar nenhum tipo de atividade física. Entre os norte-americanos, somente 11% declararam não realizar nenhuma atividade física. 10 Uma possível maior carga de trabalho médico em nosso meio pode estar associada a essa diferença. A taxa de tabagismo pode ser considerada relativamente baixa; porém, o percentual de cardiologistas que se consideram descuidados com a saúde é elevado (39,4%). Sobre o consumo de bebidas alcoólicas, 34,3% afirmaram consumir duas ou mais vezes na semana; entre os cardiologistas norte-americanos, 49% declararam consumir no máximo um drink por semana. Diante desses dados, campanhas institucionais para incentivar a adoção de hábitos saudáveis e o autocuidado com a saúde entre os cardiologistas brasileiros devem ser consideradas. O uso da tecnologia, além de facilitar a busca pelo conhecimento e contribuir em diferentes aspectos da atividade diária, tem possibilitado acesso mais direto aos médicos pelos pacientes. Na pesquisa, a maioria dos cardiologistas afirmaram fazer uso diário de algum tipo de tecnologia para sua atividade profissional. Um percentual significativo (40,6%) é contatado diariamente pelos pacientes por meio da tecnologia, dado que remete ao debate sobre a disponibilidade do médico para atender às comunicações realizadas pelos pacientes, especialmente por meio de mensagens eletrônicas e redes sociais. Conforme publicado em 2002, em resolução do Conselho Federal de Medicina, 12 apesar das inúmeras consequências positivas da telemedicina, existem problemas éticos e legais decorrentes de sua utilização. Tendo em vista o uso exponencial das mídias sociais no meio médico e também na relação médico-paciente, um parecer do Conselho Federal de Medicina, 13 de 2017, reconheceu a importância da tecnologia em questão e estabeleceu regras para o seu uso. As questões sobre a espiritualidade na prática médica têm despertado um interesse crescente, tendo sido criado, inclusive, um grupo de estudos em espiritualidade e medicina cardiovascular na SBC. Na referida pesquisa, 54,7% dos cardiologistas consideraram a espiritualidade como muito útil no tratamento nos pacientes. Porém, 14,2% nunca abordaram essa questão, e a maioria (54,1%) aborda apenas eventualmente. Essa diferença pode estar relacionada com a escassez de capacitação validada na área. A pesquisa apresenta algumas limitações, especialmente no que se refere ao modo de coleta de dados. A taxa de resposta dos questionários enviados por e-mail foi relativamente baixa (15,6%). Assim, não há como afirmar que, em um universo maior de participantes, os resultados se manteriam os mesmos. Entretanto, pesquisas do mesmo tipo apresentam percentual semelhante, entre 15 e 25% de respondedores. Na última pesquisa do American College of Cardiology , que realiza trabalho similar continuadamente há 3 décadas, a taxa de resposta foi de 21%. Já a pesquisa realizada pelo Medscape obteve um percentual de respondedores de 4%. Conclusão Na pesquisa original sobre o perfil do cardiologista brasileiro associado à SBC, observaram-se importantes diferenças relacionadas ao gênero. Os homens têm maior carga de trabalho; a participação das mulheres nas faixas de maior renda foi menor, mesmo após ajuste para a carga de trabalho; a maior parte dos cardiologistas trabalha em mais de um local, com predomínio do setor público; observa-se uma redução da prática de consultório privado no grupo mais jovem; a percepção quanto ao nível de estresse relacionado ao trabalho foi considerada satisfatória. Levando em conta as crescentes preocupações com a qualidade de vida pessoal e profissional, bem como com o desempenho do médico, é importante que pesquisas futuras abordem esses temas com mais profundidade. Somente assim ações poderão ser planejadas por entidades e sociedades médicas a fimmanter o interesse na especialidade da cardiologia. Agradecimento O questionário foi desenvolvido e aplicado durante a gestão 2016-2017 da SBC, razão pela qual agradecemos aos participantes da Diretoria: Eduardo Nagib Gaui, Glaucia Maria Moraes de Oliveira, Raul Dias dos Santos Filho, Denilson Campos de Albuquerque, Walter José Gomes, Celso Amodeo, Osni Moreira Filho, Renault Mattos Ribeiro Junior, José Luiz Aziz, João David de Souza Neto e Weimar Kunz S. Barroso de Souza. Contribuição dos autores Concepção e desenho da pesquisa: Malachias MVB, Dutra OP, Zimerman LI; Análise e interpretação dos dados: Faganello LS, Pimentel M, Polanczyk CA, Malachias MVB, Dutra OP, Zimerman LI; Análise estatística e Redação do manuscrito: Faganello LS, Pimentel M; Revisão crítica do manuscrito quanto ao conteúdo intelectual importante: Faganello LS, Pimentel M, Polanczyk CA, Zimerman TI, Malachias MVB, Dutra OP, Zimerman LI. Potencial conflito de interesses Declaro não haver conflito de interesses pertinentes. Fontes de financiamento Opresente estudo não teve fontes de financiamento externas. 67
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