ABC | Volume 112, Nº4, Abril 2019

Minieditorial Ablação Septal na Miocardiopatia Hipertrófica Obstrutiva (MCHO) Septal Ablation in Obstructive Hypertrophic Cardiomyopathy (oHCM) Dirceu Rodrigues Almeid a Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), São Paulo, SP – Brasil Minieditorial referente ao artigo: Análise Retrospectiva de Fatores de Risco para Complicações Relacionadas com Ablação Química na Cardiomiopatia Hipertrófica Obstrutiva Correspondência: Dirceu Rodrigues Almeida • Rua Viaza, 400 apto 415. CEP 04633-050, Jardim Aeroporto, São Paulo, SP – Brasil E-mail: dirceu-almeida@uol.com.br Palavras-chave Cardiomiopatia Hipertrófica/fisiopatologia; Cardiomiopatia Hipertrófica/terapia; Septos Cardíacos/patologia; Septos Cardíacos/efeito de drogas; Etanol/administração & dosagem; Pressão Sanguínea. DOI: 10.5935/abc.20190066 A cardiomiopatia hipertrófica (CMH) é a doença cardíaca genética mais comum, com uma prevalência de 1 caso para 500 indivíduos. 1 A doença apresenta-se de forma muito heterogênea no tocante ao seu fenótipo, sendo a principal causa de morte súbita em atletas que morrem em competição. 1,2 Felizmente, a maioria dos pacientes se apresentam assintomáticos ou com poucos sintomas e terão uma expectativa de vida muito próxima dos indivíduos sem a doença. 2 Entretanto, alguns pacientes vão desenvolver sintomas como angina, dispneia, palpitações, sincope e mesmo a morte súbita causada, geralmente, por arritmia ventricular. Aproximadamente, 2/3 dos pacientes portadores de CMH apresentam significante gradiente na via de saída do ventrículo esquerdo (VE) em repouso ou durante manobras provocativas com drogas ou esforço. 3 A presença de gradiente significativo, principalmente em repouso, caracteriza a MCHO e a presença do gradiente está relacionada com maior intensidade de sintomas e maior risco de morte. 1-3 O tratamento padrão dos pacientes sintomáticos e a utilização de fármacos como os betabloqueadores e/ou bloqueadores dos canais de cálcio, que reduzem gradiente e melhora a angina, a função diastólica e aumenta a tolerância ao esforço. 1-3 Entre 5 a 10% dos pacientes com MCHO são refratários ao tratamento farmacológico e devem receber consideração para tratamento invasivo: miomectomia cirúrgica (MC) ou ablação (alcoolização) septal (AS) com o objetivo de reduzir a massa muscular septal e aliviar a obstrução da via de saída do VE. 4,5 Desde a sua introdução em 1995 por Sigwart et al., 5 a AS passou a ser uma alternativa ao tratamento cirúrgico, (que era considerado tratamento padrão-ouro para os pacientes com MCHO e refratários ao tratamento clínico). Após a introdução da AS, por ser atrativa para o paciente e para o médico se verificou um rápido e progressivo crescimento no número de procedimentos realizados, principalmente nos países da Europa e rapidamente superou o número de cirurgias realizadas anualmente em todo o mundo e com resultados a curto e médio prazo semelhantes aos resultados obtidos com a cirurgia em centros de excelência, conforme dados de coortes de pacientes, registros e metanálises, 6,7 já que não existem estudos randomizados comparando as duas formas de intervenção. Mas a despeito do crescimento expressivo no número de AS realizadas e após duas décadas de experiência, ainda existe certa controvérsia sobre a escolha do procedimento invasivo (AS ou MC?). 4,8-11 Por ter mais de 4 décadas de experiência, resultados consistentes a mais longo prazo e ser mais efetiva em reduzir o gradiente (elimina o gradiente em >90% dos casos), a diretriz europeia recomenda a cirurgia (miomectomia septal) realizada em centros especializados (mortalidade<2,0%e taxade complicações <5%) como o procedimento de escolha (grau de recomendação Ia e nível de evidência B) e a AS como alternativa, com grau de recomendação IIa e nível de evidência C para pacientes selecionados, com contraindicação a cirurgia ou com alto risco cirúrgico ou ainda nos casos de insucesso da miomectomia. 9 Cabe ressaltar que o fator determinante para se ter bons resultados com ambos os procedimentos e a experiência dos centros que devem ser medidas por mais de 50 procedimentos realizados/ano e mais de 20 procedimentos realizados por operador (cirurgião ou hemodinamicista), buscando taxas de mortalidade inferior a 2,0% e taxas de complicações abaixo de 5%. 10,11 Neste volume, Li et al., 12 relatam a experiência de um único centro na China com a AS para tratamento da MCHO sintomática. O autor apresenta os resultados do procedimento em 224 pacientes, realizados de acordo com a preferência do paciente e/ou do médico assistente, em um período de 13 anos e após o segmento de 1 ano eles analisam de forma retrospectiva os fatores de risco para as complicações relacionadas ao procedimento (fase hospitalar). A taxa de complicações relacionadas ao procedimento foi de 36,23%, incluindo 4 mortes, 3 choques cardiogênicos, 6 episódios de fibrilação ventricular, 1 infarto do miocárdio, 20 bloqueios AV avançados e 4 implantes de marca-passo definitivo e mais 28 complicações menores. Na análise multivariada, apenas a hipertensão arterial se destacou como um forte preditor de complicações. A taxa de complicações graves reportada pelo autor é muito elevada quando comparada às grandes séries, de centros especializados e com alto volume de procedimentos. 4,6-8,13 No estudo de Li et al., 12 fica claro que um dos fatores associados as elevadas taxas de complicações pode ter sido o relativo baixo número de procedimentos por ano, inclusão de pacientes mais idosos e com comorbidades e inclusão 439

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