ABC | Volume 112, Nº4, Abril 2019
Artigo Original Philbois et al Obesidade e sensibilidade barorreflexa Arq Bras Cardiol. 2019; 112(4):424-429 Introdução Mulheres com síndrome do ovário policístico (SOP) frequentemente apresentam comprometimento do controle autonômico cardiovascular, caracterizado principalmente por um desequilíbrio autonômico cardíaco na determinação da variabilidade da frequência cardíaca (VFC). 1-4 Esse desequilíbrio é um importante preditor de risco para doenças cardiovasculares. 5-7 As causas da deficiência autonômica ainda não estão bem estabelecidas. Alguns estudos sugerem que ela é causada por distúrbios hormonais e metabólicos decorrentes da SOP, como a resistência insulínica aumentada. 2,3,8 Por outro lado, é possível que ocorra simplesmente devido ao aumento percentual de gordura corporal, o que desencadeia uma série de alterações sistêmicas que afetamo controle autonômico cardíaco, incluindo alterações metabólicas e cardiovasculares. 4,9,10 Outro aspecto importante é que apenas a VFC é comumente investigada nessas mulheres, e pouco se sabe sobre os efeitos da SOP sobre outros parâmetros autonômicos, como a sensibilidade barorreflexa (SBR) e a variabilidade da pressão arterial (VPA). Mais especificamente, não há estudos associando a SOP à VPA e, no caso da SBR, os estudos são incipientes. Sobre esse assunto, apenas um estudo foi realizado, sem encontrar diferenças. 11 Entretanto, esse estudo avaliou apenas as mulheres com e sem SOP, o que limitou achados adicionais. Portanto, o objetivo do presente estudo foi avaliar a SBR espontânea e a VPA em mulheres com SOP e peso normal e investigar a contribuição da obesidade para esses parâmetros autonômicos nessas mulheres. Métodos Participantes Com uma amostra de conveniência, foram incluídas 90 voluntárias com idade entre 18 e 39 anos, 30 mulheres sem SOP, como grupo controle, e 60 mulheres com SOP, segundo o consenso de Rotterdam, 12 e subdivididas de acordo com o índice de massa corporal (IMC): grupo com peso normal (30 mulheres) e grupo obeso (30 mulheres). Todas eram sedentárias, não utilizavam qualquer medicação e foram selecionadas no ambulatório da Clínica de Ginecologia e Obstetrícia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (HC-FMRP/USP). Diagnóstico da síndrome dos ovários policísticos A ultrassonografia pélvica transvaginal foi realizada com o equipamento Voluson 730 Expert Machine (GE Medical Systems, ZIPF, Áustria) para analisar a presença ou ausência de cistos. Avaliou-se o volume ovariano e o número/tamanho dos folículos, e para calcular o volume ovariano foi utilizada a fórmula do elipsoide prolato (profundidade x largura x comprimento x 0,5). 13 Além disso, foram feitos testes laboratoriais para medir a testosterona sérica total, androstenediona, globulina de ligação a hormônios sexuais e andrógenos livres, prolactina, 17-hidroxiprogesterona e tirotropina para diagnosticar as causas de exclusão. Amostras de sangue foram coletadas durante a fase folicular em mulheres com ciclos ovulatórios regulares e a qualquer momento naquelas com ciclos irregulares. Todos os exames acima foram realizados no Laboratório de Ginecologia do HC-FMRP, entre as 07h00 e as 09h00, após jejum de 12 horas. Teste ergoespirométrico O pico de consumo de oxigênio (VO 2pico ) foi avaliado por meio de teste de esforço submáximo em esteira rolante (Super ATL Millenium®, Inbramed/Inbrasport, Brasil), utilizando o protocolo de Bruce Modificado. A análise dos gases expirados (VO 2 e VCO 2 ) foi realizada utilizando-se um analisador metabólico (UltimaTM CardiO2, Medical Graphics Corp., EUA). Parâmetros antropométricos O peso corporal e a estatura foram obtidos utilizando-se uma balança analógica com estadiômetro (Welmy), enquanto os valores do IMC foram obtidos pela fórmula P/E 2 , onde ‘P’ é o peso em quilogramas e ‘E’ é a estatura do indivíduo emmetros. A composição corporal foi avaliada pelométodo da impedância bioelétrica (Quantum BIA 101; Q-RJL Systems, Clinton Township, Michigan, EUA). Os grupos foram subdivididos pelo IMC, onde os grupos com peso normal apresentaram IMC<25 kg/m² e o grupo obeso apresentou IMC>30 kg/m². 14 Análise da variabilidade da frequência cardíaca (VFC) e da variabilidade da pressão arterial (VPA) A análise espectral da VFC foi registrada entre as 09h00 e as 10h00 de acordo com o seguinte protocolo: após permanecerem em decúbito dorsal em repouso ortostático por 20 min, as voluntárias foram passivamente posicionadas em posição inclinada (ângulo de 75°) por mais 10 minutos. A VFC para as posições supina e inclinada (isto é, o tilt test) foi registrada utilizando um eletrocardiograma (AD Instruments, Sydney, Austrália), sendo obtida uma série temporal de intervalos RR (RRi, do inglês RR intervals ). A VFC foi obtida utilizando os RRi a partir do registro eletrocardiográfico (ECG), através da derivaçãoMC5modificada em uma frequência de amostragem de 1000Hz. Os valores da VPA foram obtidos da pressão arterial sistólica (PAS), registrada batimento a batimento, em um equipamento para registro de pletismografia digital, FINOMETER (Finometer Pro, Finapress Medical System, Amsterdam, Holanda). A temperatura ambiente foi mantida a 21ºC, a luz ambiente e o ruído foram controlados, para evitar qualquer interferência na gravação dos dados. As análises de VPA e VFC foram realizadas utilizando-se um software customizado (CardioSeries v2.0, http://sites. google.com/site/cardioseries) . Os valores dos RRi e intervalos PAS foram redesenhados em interpolação com spline cúbico de 3 Hz, para normalizar o intervalo de tempo entre os batimentos. As séries de RRi interpolados e PAS seguem o Protocolo de Welch; 15 elas foram divididas em conjuntos de sobreposição de 256 pontos de dados, com sobreposição de 50%. O segmento estacionário foi visualmente inspecionado e aqueles com artefatos ou transientes foram excluídos. Cada segmento estacionário RRi e PAS foi submetido à análise espectral por Transformada Rápida de Fourier (FFT), 425
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