ABC | Volume 112, Nº4, Abril 2019

Artigo Original Barbosa et al Prevalência de opacidades do cristalino Arq Bras Cardiol. 2019; 112(4):392-399 Introdução Nos últimos anos, devido ao aumento considerável do número e da complexidade de procedimentos diagnósticos e terapêuticos nas áreas da cardiologia, radiologia e neurologia intervencionista, os profissionais vêm sendo expostos à radiação ionizante de forma mais intensa. Entre essas áreas, destaca-se a cardiologia intervencionista. 1 O advento de novos dispositivos terapêuticos e medicamentos adjuvantes possibilitou ao cardiologista atuar em procedimentos mais complexos e mais longos, demandando maior exposição do profissional à radiação ionizante. 2 A exposição à radiação de forma rotineira e contínua pode acarretar efeitos biológicos nocivos ao corpo humano por ação direta ou indireta nas células, causando efeitos fisiológicos e/ou funcionais nos órgãos. Para qualquer dose de radiação há um risco de indução ao aparecimento de neoplasias ou de morte celular, com maior probabilidade relacionada diretamente à maior dose. 3,4 O cristalino é um dos tecidos mais sensíveis à exposição à radiação ionizante. Estudos sugerem que pode haver um risco significativo de alterações no cristalino em populações expostas a doses baixas de radiação. Essas incluem indivíduos submetidos à tomografia computadorizada, 5 astronautas, 6,7 tecnólogos radiológicos, 8 indivíduos submetidos à radioterapia, 9 além de sobreviventes aos ataques com bomba atômica 10,11 e ao acidente de Chernobyl. 12,13 A alteração mais frequentemente encontrada nesses estudos foi a opacidade do cristalino classificada como catarata subcapsular posterior (SCP). 14 Entre os profissionais de saúde, os estudos demonstram maior prevalência deste tipo de catarata naqueles que atuam na área da radiologia intervencionista. 15-18 Em 2011, a Comissão Internacional de Proteção Radiológica (ICRP) revisou o limiar de dose para ocorrência de dano ao cristalino e reduziu o limite de dose ocupacional, buscando diminuir o número de cataratas induzidas por radiação em profissionais. 19 No Brasil, a cardiologia intervencionista cresceu de forma exponencial nos últimos anos, mas até o presente momento não há dados publicados sobre a prevalência de opacidade em profissionais expostos. Assim, o objetivo deste trabalho foi avaliar a prevalência de catarata nos cardiologistas intervencionistas (CIs) e profissionais que atuam na área de hemodinâmica no Brasil e os possíveis fatores que possam minimizar esse risco. Métodos Participantes Os indivíduos considerados para inclusão neste estudo foram selecionados entre voluntários participantes de congressos na área de saúde. Os critérios de inclusão foram estar participando do congresso e assinatura do termo de consentimento, livre e esclarecido. Os critérios de exclusão foram: histórico de cirurgias oculares, dentre elas cirurgia para catarata, glaucoma, cirurgia refrativa ou de retina; uso crônico de medicação tópica ocular; diabetes mellitus; uso crônico de corticosteroides e hipertensão arterial sistêmica. Logística Os indivíduos incluídos neste estudo foram voluntários que procuraram os investigadores manifestando sua intenção em participar da pesquisa. Os investigadores organizaram um estande localizado na área de exposições de dois congressos médicos, de forma que os congressistas poderiam visualizar e participar de forma fácil e prática. Após a inclusão no estudo, os indivíduos foram classificados em dois grupos: expostos à radiação ionizante (G1) e não expostos à radiação (G2). Os indivíduos incluídos no G1 foram CIs e profissionais de saúde que atuam na área de hemodinâmica provenientes das diversas regiões do Brasil, e que participaram do Congresso Latino-Americano e Brasileiro de Cardiologia Intervencionista (SOLACI/SBHCI) que ocorreu nos dias 08, 09 e 10 de junho de 2016, na cidade do Rio de Janeiro. Os indivíduos incluídos no G2 foram cardiologistas clínicos (CCs) e profissionais não expostos à radiação ionizante, participantes do congresso da Sociedade Brasileira de Cardiologia, ocorrido nos dias 23, 24 e 25 de setembro de 2016, na cidade de Fortaleza. Avaliação clínica e oftalmológica Todos os participantes foram entrevistados por um dos investigadores por meio de entrevista com questionário detalhado para avaliar dados demográficos, práticas profissionais com foco na exposição à radiação (uso de equipamentos de proteção radiológica, número de anos trabalhados, tipos de procedimentos realizados, entre outros) e doenças coexistentes. A avaliação oftalmológica foi feita por dois médicos oftalmologistas com experiência na área, pelo exame em lâmpada de fenda, após instilação de uma a duas gotas de medicação tópica ocular (mydriacyl), a qual permite a observação total do cristalino. Os achados foram descritos e classificados de acordo com o padrão e o grau de opacidade baseados na classificação do Lens Opacities Classification System III (LOCS III). 20 Essa classificação baseia-se na avaliação do padrão da opacidade como catarata cortical, nuclear e subcapsular posterior, e de acordo com sua intensidade de 1 a 6. Análise estatística O tamanho da amostra empregada foi por conveniência. As variáveis contínuas foram descritas conforme sua média e desvio padrão ou mediana. Para se testar a normalidade dos dados, foram utilizados o teste de Kolmogorov-Smirnov e o teste de Shapiro-Wilk. As variáveis categóricas foram comparadas com teste qui-quadrado. Em casos onde mais de 20% das células apresentavam valor inferior a 5 foi utilizado o teste exato de Fisher (tabelas 2 x 2) ou o teste da razão de verossimilhança. Foi considerado um nível de significância de 5% (p < 0,05). O programa SPSS ( Statistical Package for the Social Sciences) versão 19.0 foi utilizado para a análise. 393

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