ABC | Volume 112, Nº4, Abril 2019

Relato de Caso Dissecção Espontânea da Artéria Coronária – Relato de Casos e Revisão da Literatura Spontaneous Coronary Artery Dissection - Case Report and Literature Review Elana Couto de Alencar Danie l e João Luiz de Alencar Araripe Falcão Hospital Dr. Carlos Alberto Studart Gomes de Messejana, Messejana, Fortaleza, PE – Brasil Correspondência: Elana Couto de Alencar Daniel • Rua Tomás Acioli, 840/ 403. CEP 60135-180, Joaquim Távora, Fortaleza, CE – Brasil E-mail: elana.alencar@gmail.com Artigo recebido em 28/03/2018, revisado em 19/07/2018, aceito em 15/08/2018 Palavras-chave Síndrome Coronariana Aguda; Dissecção; Dor no Peito; Intervenção Coronária Percutânea; Cateterismo Cardíaco. DOI: 10.5935/abc.20190057 Introdução Relatamos três casos de dissecção espontânea da artéria coronária (DEAC), com revisão da literatura e discussão das condutas empregadas. Todos ocorreram em mulheres, com o diagnóstico feito por cinecoronariografia e, em um caso, confirmado por ultrassonografia intracoronária (USIC). 1 o Caso Paciente, 25 anos, sem fatores de risco para doença cardiovascular (DCV), internada com dor torácica típica, elevação de enzimas cardíacas e eletrocardiograma (ECG) com infradesnivelamento difuso e supradesnível do segmento ST de aVR, realizou cateterismo cardíaco (CATE) que demonstrou lesão moderada de tronco da coronária esquerda (TCE), lesão grave no terço proximal da artéria descendente anterior (DA) e irregularidades parietais na artéria circunflexa (Cx) (Figura 1). Ecocardiograma transtorácico (ECO) demonstrou hipocinesia médio-apical das paredes anterior, ínfero-lateral e pequena área apical, com função sistólica biventricular preservada. A paciente foi submetida a USIC que evidenciou aspecto compatível com hematoma intramural do óstio da DA até a primeira diagonal e dissecção espontânea/hematoma do terço proximal da Cx até o terço distal da primeira marginal esquerda (imagem não disponível). Optou-se por tratamento clínico com excelente resposta. Durante o seguimento ambulatorial, persistiu assintomática. Foi realizado reestudo angiográfico após seis meses do evento, constatando-se melhora significativa das obstruções (Figura 1). 2 o Caso Paciente, 41 anos, hipertensa, hipotireoidea, ex-fumante, parto há seis meses, procurou o serviço de emergência com dor torácica típica desencadeada por estresse emocional e ECG evidenciando plusminus emparede lateral alta. Foi encaminhada para CATE que mostrou lesão moderada no terço médio da DA e lesão moderada/grave no terço distal, com aspecto sugestivo deDEAC. ECO semalterações. Optou-se por tratamento clínico. Reestudo angiográfico três meses após o evento, demonstrou persistência de obstrução moderada no terço médio da DA, com resolução da obstrução do terço distal. Na ocasião, optou-se por implante de stent no terço médio da DA. O procedimento transcorreu sem intercorrências, com sucesso (Figura 2). 3 o Caso Paciente, 51 anos, sem fatores de risco para DCV, internada com dor torácica típica e elevação de enzimas cardíacas. ECG sem alterações. Foi encaminhada ao serviço de hemodinâmica, sendo evidenciada lesão grave no terço distal da primeira marginal esquerda, com padrão sugestivo de DEAC. ECO demonstrou hipocinesia moderada da parede ínfero-lateral do ventrículo esquerdo, com função sistólica biventricular preservada. Foi conduzida com tratamento clínico com boa resposta à terapêutica instituída (Figura 3). Discussão Em 1931, Pretty fez a primeira descrição de DEAC por meio da autopsia de uma mulher de 42 anos que apresentou morte súbita após referir dor torácica.¹ Com o início da abordagem invasiva da síndrome coronariana aguda (SCA), aumentou o número de casos diagnosticados. Embora, ainda se acredite, que esse diagnóstico possa estar subestimado.² A DEAC é uma causa rara de SCA apresentando uma incidência de 0,1 a 4,0%.³ A apresentação clínica varia desde angina instável até morte súbita, muitas vezes não sendo diagnosticada. Acomete sobretudomulheres jovens semfatores de risco clássicos paraDCV. 4 Nos casos relatados, todas sãomulheres jovens, duas das quais não possuíam fatores de risco para DCV. São descritos como eventos que podem estar relacionados com DEAC: status periparto, doenças do tecido conjuntivo, vasculites, abuso de cocaína, exercício isométrico pesado e uso de anticoncepcionais orais. 5 A artéria mais afetada é a DA, em 75% dos casos; seguida pela coronária direita, em 20% dos pacientes; depois pela Cx, em 4% e por fim pelo TCE, em menos de 1% dos casos. 6 Dentre os três casos relatados, dois tiveram como principal artéria acometida a DA, o que corrobora com os dados encontrados na literatura. A patogênese da DEAC ainda não está completamente elucidada. Sabe-se que os principais fatores responsáveis pela dissecção espontânea são o enfraquecimento da parede arterial e o aumento das forças de cisalhamento.³ Postula‑se que ocorra a rotura primária do vasa vasorum , acarretando hemorragia e consequente separação das camadas da parede arterial coronária, criando um falso lúmen entra as camadas íntima e média da parede vascular. 7 473

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