ABC | Volume 111, Nº3, Setembro 2018

Artigo Original Medeiros et al Apneia obstrutiva do sono na doença de chagas Arq Bras Cardiol. 2018; 111(3):364-372 Introdução A doença de Chagas (DC) é a terceira infecção parasitária mais comum, após malária e esquistossomose, afetando cerca de 7 a 8 milhões de pessoas em todo o mundo. 1 A DC é causada pelo protozoário Trypanosoma cruzi , transmitido aos seres humanos por insetos ( Triatominae ), transfusão de sangue, transplante de órgãos e tecidos, contaminação oral ou transmissão congênita. 2 O perfil epidemiológico da doença tem mudado nas últimas décadas devido aos fluxos migratórios, 2 assim causando alerta em países não endêmicos, como Estados Unidos, Canadá, Espanha, Itália e Japão. 3,4 A cardiomiopatia chagásica é a forma mais comum de cardiomiopatia não isquêmica e uma das principais causas de complicações e morte na América Latina. 5 Aproximadamente um terço dos pacientes com DC desenvolve cardiomiopatia chagásica 3 caracterizada por arritmias ventriculares, bloqueios cardíacos, alterações em proteínas cardíacas com remodelação cardíaca, insuficiência cardíaca e morte súbita. A insuficiência cardíaca por DC piora o prognóstico do paciente, quando comparado com outras cardiomiopatias. 6 Além das diversas características envolvidas na DC, é importante considerar comorbidades potenciais que podem ter impacto negativo na saúde dos pacientes. A apneia obstrutiva do sono (AOS) é o distúrbio respiratório mais frequente na população geral e está associada à remodelação cardíaca e arritmias em pacientes sem 7,8 e com comorbidades, incluindo insuficiência cardíaca. 6 Entretanto, não se sabe se essa associação existe em pacientes comDC. Nossa hipótese é que a AOS está independentemente associada a arritmias cardíacas e remodelação cardíaca em pacientes com DC. Métodos Amostra Pacientes consecutivos com DC (com dois exames de sangue positivos – imunofluorescência e ELISA), com idade entre 30 e 65 anos, foram recrutados em um serviço ambulatorial especializado de agosto de 2013 a agosto de 2014. A cardiomiopatia chagásica foi diagnosticada em pacientes com evidência sorológica de anticorpos ao T. cruzi e evidências de cardiopatia chagásica que podiam ou não apresentar sintomas cardíacos (como dispneia, edema e dor torácica). A forma indeterminada de DC foi diagnosticada em pacientes com evidência sorológica e/ou parasitológica de infecção por T. cruzi que não apresentavam sintomas, sinais físicos, anormalidades eletrocardiográficas e qualquer evidência radiográfica (em radiografia de tórax, contraste de bário esofágico ou radiografias de cólon) de envolvimento cardíaco ou gastrointestinal. 9 Foram excluídos pacientes com marcapasso cardíaco, doença coronariana manifesta ou suspeitada; insuficiência cardíaca descompensada com necessidade de internação hospitalar, predominância de apneia central do sono (>50% dos eventos marcados como centrais), ou doença renal (creatinina sérica > 2 mg/dL) e acidente vascular cerebral prévio. Os pacientes foram convidados a participar do estudo do sono na semana após a realização de todos os exames, incluindo ecocardiografia, Monitoração Ambulatorial da Pressão Arterial (MAPA) e Holter de 24 horas, conforme descrito a seguir. Estudo do sono Todos os pacientes foram submetidos à monitoração portátil do sono no laboratório de sono utilizando um dispositivo validado (Embletta Gold, PDS; Medcare, Reykjavík, Islândia) 10 para avaliar a saturação de oxigênio, a posição do corpo, as medidas do fluxo nasal (cânula de pressão) e as medidas de esforço respiratório utilizando duas cintas de pletismografia respiratória por indutância. Todos os exames foram avaliados por ummédico experiente. A apneia foi definida como ausência total (> 90%) e a hipopneia como diminuição (> 30%) no fluxo nasal por ≥ 10 segundos, seguido por uma dessaturação de 4% (em hipopneias), respectivamente. 11 O índice de apneia‑hipopneia (IAH) foi calculado dividindo-se o número total de apneias e hipopneias pelo total de horas no leito. 11,12 AOSlevefoidefinidaparaumIAHentre5e14.9eventos/hora, e AOS moderada a grave para um IAH ≥ 15 eventos/hora. O índice de dessaturação de oxigênio (IDO) foi calculado como o número total de dessaturações dividido pelo tempo total no leito. A sonolência diurna excessiva foi avaliada pela escala de sonolência de Epworth. Um escore total > 10 foi considerado como sonolência diurna excessiva. 13 Pressão arterial no consultório A pressão arterial (PA) foi medida após 5 minutos de repouso, utilizando protocolos padronizados. 14 A média de duas leituras foi obtida com intervalo de 5 minutos utilizando um esfigmomanômetro digital automático (Omron BP742). Monitoração Ambulatorial da Pressão Arterial (MAPA) Todos os participantes foram submetidos a monitorização da pressão arterial por 24 horas, utilizando o equipamento SpaceLabs (modelo 90207; SpaceLabs, Redmond, WA). A leitura da PA foi realizada a cada 10 minutos durante o dia e a cada 20 minutos à noite, utilizando-se um manguito apropriado no braço não dominante. Os participantes foram instruídos a realizar suas atividades diárias normais e a não movimentar o braço durante a mensuração em curso. As atividades, o horário de dormir e horário de despertar foram registrados pelos participantes em diários. 15 O descenso normal da PA foi definido separadamente para a PA sistólica e diastólica como uma redução ≥ 10% na PA durante o sono em comparação com o período de vigília. A ausência de descenso foi definida como uma diminuição < 10%. Monitoração por Holter A Monitoração por Holter (Cardios®, Cardio Systems, São Paulo, Brasil) foi realizada em todos os pacientes por 24 horas. As seguintes características do ECG foram analisadas: ritmo cardíaco basal, freqüência cardíaca, arritmias ventriculares e 365

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